O Fantasma no espelho – Parte 1

Vivia no vilarejo uma certa mulher idosa; ela não tinha um bom juízo, certamente por conta da sua idade. Mas então, um certo dia, soube-se que a velha abandonou o casebre onde morava. Diziam seus vizinhos que havia sumido na floresta, abandonando todos os seus pertences — que não eram grande coisa, nem em quantidade, nem em valor.

Foi somente depois de algumas semanas de especulações e boatos que os curiosos chegaram a uma explicação convincentes para o real motivo que motivou a anciã a tomar uma medida tão descabida e perigosa: o pagamento de algumas semanas de aluguel do desmantelado imóvel que ocupava —foi o que alegou um dos vizinhos mais bisbilhoteiro, se oferecendo para explicar o fato como se fosse uma testemunha ocular.

O proprietário da choupana arruinada era conhecido pela sua intolerância quanto ao que lhe era devido, da mesma forma a sua mesquinhez e falta de caráter. Ele próprio havia chegado ao seu imóvel, visivelmente irritado, estando acompanhado de dois brutamontes. Constatando a ausência da sua inquilina, que se evadira abandonando seus pertences pessoas, o balofo e mesquinho cidadão decidiu apossar-se do que lhe conviesse dentre dos pertences da pobre louca. Dentre utensílios sem valor, agradou-se apenas de um espelho com moldura ornamentada.

O objeto era oval, grande o suficiente para que uma dama pudesse ficar sentada diante dele e escovar as madeixas, nesse caso, uma peça destacada do que um dia foi uma penteadeira. Possuía um firme pedestal, sua superfície estava imaculada, apesar de exibir certo estilo antigo — antiquado para a época. As partes feitas em madeira, eram de um vermelho opaco, contribuía para destacar aquele que se olhasse no espelho. O objeto tinha um charme próprio, incompatível com o lugar em que se encontrava.

O mercenário sorriu consigo mesmo, tal peça pagaria pela propriedade do seu desgraçado casebre. Assim, o avarento voltou para casa, estando satisfeito com o belíssimo espelho que adquiriu a quase nenhum custo. Instalou-o em lugar de honra: seu próprio quarto. Sua esposa havia adorado o presente.

Tudo corria naturalmente em sua residência, até quando, em certa tarde, enquanto o cobrador de taxas tomava um café enquanto fazia anotações sobre o dinheiro que havia recebido, e o que tinha à receber; um grito estridente e horroroso lhe atingiu os ouvidos como uma chibatada dentro da própria cabeça, tamanho o susto que acabou por derrubar café quente sobre seus negócios, e queimar a própria pança, o que provocou novo sobressalto no desgraçado.

Instantes depois, correndo em socorro da sua alarmada esposa, o cobrador se deparou com a esposa e a filha saltando sobre a cama, muito assustadas. Apontavam para algo que o marido ainda muito abalado com o café quente sobre o couro não soube definir como sendo o causador do alvoroço. Avistara tão somente o espelho, e neste, vislumbrara uma presença sinistra, envolta em tecidos, rodopiando como quem dançasse uma balada rápida.

O próprio marido saltou para fora do quarto, quase rolando as escadas, sendo amparado por um empregado que correu para o acudir a tempo.

Naquela mesma tarde, o espelho foi deixado na rua. A notícia correu a cidade. Muitos curiosos queriam ver o espelho assombrado, mas ninguém se candidatou a ser seu dono, tão pouco, alguém teve coragem de destruir o singular objeto, o que supostamente geraria sete anos de azar para quem tivesse tamanha ousadia.

Quando o sol raiou, no dia seguinte, o espelho havia desaparecido. Quem teve coragem para levá-lo? Houve que dissesse que um cavaleiro misterioso, trajado inteiramente de preto o havia tomado para si, desaparecendo em uma neblina. Seria obra do Diabo?


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