Leonard Daleman – O Alquimista

Leonard Daleman é um personagem inspirado em duas obras do mestre renascentista Raphael (famoso por dar nome a uma das Tartarugas Ninjas), a primeira chamada de La Fornarina e a segunda é Le tre grazie. Neste background, Leonard conta como se tornou um alquimista criador de golens através da última carta que enviou para sua amada Anabel na tentativa de reconquistá-la.

 

La Fornarina

Estimada Anabel,

Escrevo-te com os olhos marejados. A notícia que chegou aos meus ouvidos nesta manhã entristece-me profundamente. Digo-lhe isto pois prometemos ser sinceros, de outro modo, guardaria minhas angústias em um baú de carvalho e lá as trancarias até o meu leito de morte. Contudo, confesso relutante que compreendo sua decisão.

Sonhava (e ainda sonho) com o dia que nossos corpos se contorceriam juntos novamente, mas parece que este é um desejo que também deverei manter escondido. Acredito que talvez essa seja minha carta de despedida, não creio que as irmãs lhe deixarão escrever-me do convento. Gostaria então de lhe apresentar le tre grazie, as três graças, que conduzem minha vida com a esperança sincera de que mude de ideia e volte para meus braços.

Tália, a que faz brotar as flores

Quando nos conhecemos, você me contou tudo sobre sua vida. Meu maior prazer era ouvi-la. O movimento preciso e delicado de seus lábios rosados me hipnotizava. Lembro-me de quando me contou sobre o seu pai, um excelente padeiro, e de toda história de sua família.

Sempre fui muito preocupado em ouvi-la e sua recente ausência me levou a refletir que pouco sabe sobre mim. Talvez eu tenha sido demasiadamente reservado, mas hoje sei que talvez você devesse saber mais sobre minha vida e então eu lhe contarei tudo.

Eu nasci ao sul da península, em uma casa modesta de dois cômodos. Fui o mais velho dos filhos, meus irmãos, os gêmeos, adviriam três anos depois. Enquanto crianças, nossos dias e noites eram embalados pelo som das ondas quebrando no penhasco que desenhava o contorno sul de nossa casa. Embora meus irmãos tenham sido levados pela peste dez anos após nascerem, ainda nutro grande afeto por eles e sinto que visitam meus sonhos em noites tempestuosas.

Quando eu completei quinze anos, anunciei para meus pais que gostaria de tentar a vida na cidade. Tolo tal qual tantos jovens, acreditei que meu sucesso estaria nos dias corridos e nas noites sem dormir dedicadas a um trabalho braçal constante. Não se deixe enganar por minhas palavras, eu compreendo bem o importante papel dos labutam nos campos e nas cidades. Entretanto, como minha mãe viria a dizer anos mais tarde, eu nasci para as artes e as ciências.

Me encontrei com maestro Picatti um ano depois de ter chegado na cidade. Estava trabalhando como canteiro naquela época. Picatti havia encomendado um grande pedaço de granito que usaria para talhar a fachada de uma igreja que estava construindo mais ao norte. Eu e outros quatro homens levamos a pedra bruta rudemente lapidada para que ele pudesse lhe conferir formas com suas mãos talentosas.

Nesse encontro, pedi-lhe que me ensinasse a talhar o granito. Ele me ignorou. Como artista que era, não daria ouvidos a um simples canteiro. Entretanto, tal qual o granito que insistia em permanecer informe, eu ia até o adro da igreja todos os dias antes de anoitecer para olhá-lo trabalhar.

Demorou semanas para que ele deixasse de ignorar minhas perguntas e que me aceitasse como seu aprendiz, mesmo que informalmente. Trabalhei carregando pedras por mais dois anos até que ele finalmente me acolheu em seu studio.

Suas primeiras lições consistiram em me ensinar a escrever e ler. Não havia espaço para aprendiz burro e analfabeto em seu ateliê, era o que dizia. Confesso-te com certo embaraço que gastei tempo demasiado para aprender a lidar com as palavras. Mestre Picatti costumava dizer que eu fui um aprendiz mais difícil de lapidar do que granito.

Foi só então que ele começou a me ensinar a esculpir, pintar e desenhar. Aprender a representar as feições humanas em diferentes materiais foi mais simples do que organizar as letras em palavras e depois em frases. Falo sem modéstia que meu talento para as artes o impressionou e logo ele me encarregou de algumas das encomendas de seus clientes.

Apesar de ter conseguido chegar onde queria, ainda sentia como se minha vida fosse um inverno sem fim tão frio que a primavera jamais chegaria e as flores nunca brotariam. A arte não me satisfez por completo, mas então encontrei algo na biblioteca da casa de Picatti que me chamou a atenção: velhos pergaminhos com desenhos anatômicos do ser humano, relatos de experimentos feitos com enguias marinhas que conduziam uma estranha força pelo seu corpo capaz até mesmo de atordoar um homem adulto, mapas de terras longínquas e do céu noturno, desenhos detalhados da superfície imperfeita da Lua e muito mais.

Com a devida permissão, comecei a passar as noites na biblioteca estudando aqueles manuscritos. Quanto mais eu aprendia, mais eu sabia que havia de aprender. Acontece, Anabel, que as ciências são um poço sem fundo que refletem a pequenez da condição humana. Quanto mais mergulhamos nesse mistério, mais de nossa alma se perde.

Os senhores de sua fé talvez estejam certos ao chamar a ciência de profana e confortarem-se com o obscurantismo que mergulharam o mundo, mas o que eu aprendi (e que certamente eles ignoram) é que o divino está presente em tudo e estudar esse tudo é a mais íntima forma de glorificar a criação. Assim como já havia lhe dito antes, o Criador é o maior artista que existe, e agora acrescento, também é o maior estudioso. Gostaria que você enxergasse essa faceta da fé assim como eu a enxergo agora.

Apesar do fascínio que desenvolvi pelas artes e pelas ciências, eu ainda me sentia vazio. O inverno que congelara meu coração ainda me atormentava e impedia que eu vivesse de verdade. Foram necessários mais dez anos para que a brisa morna começasse a me aquecer.

Acredito que você se lembre desse dia tão bem quanto eu. Estávamos na Piazza Est quando nos encontramos pela primeira vez. Era primavera e o céu azul celeste deixava que a luz do sol inundasse com abundância os jardins. Mestre Picatti e eu estávamos do lado do prefeito durante a inauguração da nova fonte de mármore que havíamos acabado de esculpir.

Acredito que eu a tenha notado primeiro. Depois que o prefeito fizera seu discurso (do qual não me recordo de nenhuma palavra), o fornaio seu pai e você, a jovem fornarina serviram a todos os presentes as deliciosas foccacia. Apesar disso, o que mais me encantou naquela tarde foi sua presença. Atrevo-me a descrever-te como uma das mais belas obras de artes que meus olhos já contemplaram; de traços formosos e impecável combinação de cores, parecia emitir luz própria.

Neste dia o inverno deixou de reinar em meu peito, os secos canais que regavam meu coração inundaram-se e ele começou a bater mais forte. As flores finalmente haviam começado a brotar.

Anabel.

Eufrosina, a que dá sentido à alegria

Quando começamos a nos corresponder, eu havia ganho um novo propósito de vida. É verdade que eu era tímido e não me atrevia a ir até sua casa ou na padaria onde trabalhava com seu pai e isso me consumiu por muito tempo. Devo dizer que foi graças à Picatti que nosso primeiro encontro formal aconteceu.

Meu mestre descobriu que trocávamos correspondências quando pegou um dos garotos que levavam nossas cartas saindo do ateliê. Aqueles olhos castanhos que se escondiam sob as sobrancelhas espeças e brancas do meu mentor não permitiam que a mentira escapasse deles e fui obrigado a contar a verdade.

Na mesma tarde, nós dois fomos até a padaria onde ele me obrigou a falar com seu pai de meus interesses amorosos. Fiquei surpreso ao saber que o padeiro já conhecia meus trabalhos e que esperava ansiosamente por algum pretendente para sua querida filha.

Depois disso, nossos encontros em sua casa e as longas e deliciosas conversas que tivemos me fizeram ter certeza de que eu trilhava o caminho certo. Estava mais alegre do que nunca e eu via em seus olhos que nutríamos um sentimento mútuo.

Apesar de cada momento em sua presença ter sido único, devo dizer que um de meus preferidos foi quando Picatti e eu jantamos com sua família e eu fiz a proposta de casamento. Confesso que estava tenso e temeroso que você ou seus pais recusassem e por isso as palavras saíram com dificuldade. Seu sorriso foi o que me encorajou a continuar e, devo dizer, ouvir o seu sim foi um grande alívio.

Nossos encontros deixaram de ser vigiados e eu pude então ouvir suas melhores histórias. Você se mostrou uma mulher mais formidável do que eu havia pensado e isso só fez minha paixão aumentar. Não sou capaz de usar palavras para descrever quando tocamos nossas mãos pela primeira vez, mas me lembro de que tive medo de que minha mão calejada ferisse sua pele fina e delicada.

Se você realmente partir para o convento, sentirei muita falta das suas visitas no ateliê. Você era a inspiração que faltava para que minha arte fosse completa. Retratá-la nas telas será sempre o meu maior prazer. Também foi no ateliê que nos tornamos íntimos de verdade e aquele seu retrato que fiz enquanto se vestia jamais será vendido. Ainda perco a noção do tempo admirando-a nele, é minha obra-prima.

Aglaia, a que traz claridade

A sua presença em minha vida não refletiu apenas na arte, mas também na ciência. Nesse ponto, devo acrescentar que me sinto um tolo pelo que fiz e sei que foi por isso que me abandonou. Nosso noivado já durava por quase um ano e você havia se tornado a razão da minha existência. Tão fissurado eu ficara que a sanidade parecia escapar-me entre os dedos.

Quando soube que estava doente, meu mundo ruiu. Passei a dedicar-me exclusivamente à ciência, estava certo de que encontraria uma cura para sua enfermidade e que poderia ter você novamente em meus braços. Sem perceber, me afastei de você e tranquei-me em minha mente turbulenta.

Por várias noites eu acordei assustado de pesadelos que eu não sabia decifrar. Tudo o que eu via era sua morte e o medo tomou conta do meu coração. A repentina partida de mestre Picatti pera o reino dos mortos intensificou meus temores, não suportaria te perder também.

A arte permitia que eu eternizasse sua aparência, mas você era muito mais do que isso. Busquei respostas nas ciências e de nada adiantou. Passei a viajar pelo país à procura de respostas, algo ou alguém que poderia me ajudar a colocar um fim na morte. Lembro-me de dizer ao seu pai que eu ficaria fora por dois meses em busca de uma cura, mas não obtive sucesso.

Nos encontramos pela última vez no ateliê. Você já estava pálida e parecia respirar com certa dificuldade. Despedimo-nos à frente da lareira e no dia seguinte eu parti. O meu paradoxo foi me afastar de ti quando o que eu mais queria era ter você por perto. O tempo passou, as estações mudaram. Quando o inverno chegou, eu não estava mais perto do que quando parti de encontrar a solução para a morte e ansiava por retornar para seus braços quando soube de alguém, um médico que vivia ao oeste do continente.

A despedida.

Os boatos que eu ouvira diziam que ele fora capaz de ressuscitar o irmão gêmeo que havia falecido na infância. Apesar de soar inacreditável, eu precisava descobrir a verdade. Quando cheguei na pequena cidade onde diziam que o médico morava, tudo o que eu encontrei foram casas abandonadas e ervas-daninhas.

Entre a desolação e o desespero, encontrei pergaminhos que à primeira vista pareciam científicos. Estudos detalhados de anatomia, fórmulas alquímicas de transmutação que, segundo diziam as escrituras (profanas escrituras, acrescento), eram capazes de dar novo ânimo ao espírito e ao corpo.

Passei a estudar aqueles trabalhos de autores que não conhecia e da minha arte surgiu um novo talento. A primeira delas que fiz andar foi uma escultura de argila de alguns centímetros de altura. Depois elas foram ficando cada vez maiores e os materiais foram diversificando conforme a técnica era aprimorada. Hoje sou capaz de animar até mesmo o granito e o mármore. Eu havia transcendido os limites das artes e das ciências. Estava certo de que poderia fazer algo por você.

Leonard, o alquimista

Oito meses longe de ti, retornei para casa e descobri que já era tarde. As pessoas me encaravam de forma estranha, seus pais não me deixavam te ver e me disseram que o acordo de casamento estava desfeito. A criança que lhe entregará esta carta me disse que ouviu sussurrar que você estaria grávida e não demoraria muito a dar à luz. As minhas vizinhas disseram que você decidiu deixar a criança para adoção e que entraria em um convento para se redimir de seus pecados e para agradar ao deus que lhe curara misteriosamente.

Minha amada Anabel, eu rogo-te uma última vez que seja luz em minha vida. Peço que me dê uma chance de encontrá-la para conversarmos. Verás que ainda sou o mesmo homem pelo qual se apaixonou e que se for verdade que está carregando um filho nosso, essa será a criança mais amada que existirá.

Agora, se decidir partir para o convento, não tentarei te impedir. A culpa foi minha em tê-la abandonado. Se não for para viver aqui contigo, talvez eu deva partir novamente e nunca mais voltar. Devo encontrar um novo lugar para viver, uma nova proposta de vida, mesmo que tenha que viver sem flor, alegria ou claridade.

Com os mais sinceros desejos de que esteja bem,

Leonard Daleman


 

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