O Caso da Rua das Nogueiras

Numa noite agradável, certo policial estava sozinho na delegacia. Estava a serviço. Mergulhado em pensamentos, pois como sempre, estava ocioso. Mas quando menos esperava, de repente, o telefone tocou. A ligação havia sido realizada por um residente solitário do antigo casarão. Tratava-se do velho morador, bastante conhecido e falado por suas atividades escusas em horários inadequados, e também da sua pouca disposição ao contato com seus vizinhos e qualquer outro cidadão do pequeno e pacato município onde vivia. Seu nome: Elias; atendia pela alcunha de Capitão. Falavam os boateiros que era um militar reformado que havia atuado na Primeira Guerra. O tom de voz do Capitão deixava transparecer inquietação ou apreensão, pois diziam que um desconhecido rondava sua residência desde o entardecer, desse modo, exigia a presença do policial o mais depressa possível. O acontecimento intrigara o oficial da lei: quem espreitaria a casa de alguém naquele fim de mundo? Poderia se tratar de algum jovem da vizinhança disposto a pregar uma peça no reservado ancião? Não se tinha notícia da atividade de ladrões por aqueles tempos naquela região.

Diante das possibilidades, o policial decidiu atender ao chamado, mais pela curiosidade.

Após breve caminhada, o policial se encontrava na esquina da Rua das Nogueiras. As casas ocupavam toda a extensão da alameda, algumas possuíam muros baixos feitos de pedra e exibiam belos jardins. Também havia residências providas de muros mais altos, no geral, em sua maioria, mal conservados. Das calçadas quebradas brotavam árvores com seus longos galhos e copas adensadas que se estendiam sobre a via, de tal modo que tocavam os galhos das suas análogas do lado oposto da via. Não sei exatamente o porquê daquelas árvores nunca terem sido aparadas, pois na cidade não havia mais nogueiras, apenas aqueles exemplares ainda restavam. As sombras projetadas por elas tornavam o local pouco convidativo quando escurecia, tal fato pouco importava aos moradores das imediações. Talvez houvesse algum significado religioso, ou ainda, alguma crença popular; talvez fosse promessa a algum santo, o que era um costume.

Retomando os acontecimentos.

Havendo o policial percorrido todo o trajeto de calçamento, deteve-se diante de um descuidado casarão de um andar. Estava à sua esquerda. Nas imediações da velha casa havia muita vegetação, e aos fundos, serras e morros delineados pela escuridão. A residência estava completamente às escuras. O policial se aproximou de um portão baixo, em ferro, que dava para um desprezado jardim. Antes de adentrar, o policial bateu palmas, anunciando-se. Depois de alguns instantes de espera diante do pátio sem iluminação e empoeirado, o policial ouviu o barulho da fechadura da porta da frente sendo destrancada. Da escuridão surgiu o tal Capitão Elias, homem que aparentava gozar de boa saúde e que preservava bons reflexos, apesar da idade.

Sem demora, repetiu todo o pedido de socorro que fora dito por telefone. Além disso, também revelou que alguém tentara invadir sua propriedade assim que caiu a noite. Por fim, Elias anunciou com orgulho ao policial, que ele próprio havia dado cabo do bandido. O simplório oficial da lei assustou-se com a notícia, aquele pobre policial sequer tinha visto uma pessoa baleada em seus mais de dez anos de serviço.

Logo em seguida, o velho combatente trajando um roupão encardido recomendou ao policial que o seguisse. Então, rodearam a residência através de um beco lateral, chegando aos fundos da morada tomada pela penumbra. O policial sacou do bolso uma lanterna, iluminando o que seria a porta da cozinha, que estava escancarada. Ao se aproximar um pouco mais, pôde verificar que havia gotas de sangue espalhadas pelo piso. Diante do olhar atônito do policial, o idoso relatou que havia notado que alguém forçava a porta, por isso apanhou um punhal em uma gaveta e se escondeu, posicionando-se ao lado da passagem que dava para a sala de estar com o propósito de surpreender o invasor. Enquanto falava, Capitão Elias conduzia o ouvinte pela cozinha, refazendo o que dizia ser o percurso do invasor. Ao chegarem à sala de estar, Elias apresentou ao policial uma sala preenchida por diverso mobiliário e quinquilharias impossíveis de serem identificadas aos olhos de um ignorante. Também havia incontáveis livros sem títulos nas estantes junto às paredes. O militar precisou tocar o ombro do visitante — tamanha era a sua surpresa —, enfim indicou o ponto onde havia se escondido a fim de surpreender o invasor. Continuando com seu relato, descreveu como saltou sobre o criminoso. A partir daí, disse ter se seguido um rápido embate que culminou em uma punhalada seguida de um disparo de revólver. Em seguida, o malfeitor ferido se evadiu o mais depressa que pôde. Sem saber bem como devia proceder, o policial deu meia-volta, seguindo com o facho da sua lanterna o rastro de sangue deixado pelo invasor ferido no piso, o que o conduziu ao muro baixo que delimitava a propriedade, na direção da floresta. Logo após a mureta, avistara um homem debruçado sobre uma poça de sangue, tombado entre a vegetação.
Retornando ao interior do casarão, o guarda pediu para usar o telefone. O Sr. Elias acionou um abajur, clareando precariamente aquela ampla sala de estar que cheirava a mofo. Por entre os móveis antigos, sobre uma pequena mesa envernizada, estava o aparelho telefônico. Depois de indicar ao velho, o combatente tomou assento em uma poltrona à frente.

Enquanto esperava que a sua ligação fosse atendida, o policial encarava o vazio, meditando sobre aquele acontecimento inusitado. Do outro lado da linha estava o delegado, que após tomar conhecimento dos fatos, passou a instruir seu subalterno, ressaltando que aguardasse sua chegada ao local. E enquanto recebia as últimas instruções, o pobre policial vagava com os olhos pelo recinto — ato pouco proveitoso devido a pouca luminosidade. Mas então, seus olhos pousaram em algo: estirado sobre um sofá de três lugares, encontrava-se um vulto. Assustado, o policial apontou naquela direção com dedo trêmulo e olhos esbugalhados. Sobressaltado, o Capitão se ergueu da poltrona, avançando para o sofá, acabando por avistar o mesmo indivíduo desconhecido, acomodado de barriga para o teto, com as mãos cruzadas sobre o peito. Foi então que, para o seu horror, o idoso constatou que esse detinha características que lhe eram muito familiares. O policial abandonou o fone do aparelho, causando ainda mais alarde.
Elias aproximou-se até poder encarar a figura misteriosa e subitamente recuou, pondo as suas mãos no próprio rosto. Desesperara-se com o que havia descoberto.
O policial com expressão abobalhada assistiu a tudo sem reação. O velho oficial, Elias, cambaleou alguns passos para trás, em seguida deu meia-volta, firmando-se no piso, então, de ombros caídos e passos arrastados, avançou para a porta da frente da sua residência. Intrigado na mesma medida que assustado, o abalado policial sacou a lanterna, pois não avistara nenhum interruptor. Mas então o facho de luz lhe revelou uma cópia idêntica do capitão, que jazia no sofá. Até mesmo as roupas eram as mesmas. Um calafrio tomou o observador, que abandonou a casa com passos apavorados. Saltando para a rua deserta, o policial não encontrou ninguém. A chegada do delegado serviu somente para confirmar que havia dois cadáveres no local: o do bandido e o do proprietário da casa.


Assinatura_Crônicas - Ricargo Old Folk-09

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