Ka’alud — O sonhador

Há algum tempo atrás, decidi me aventurar pelo mundo fantástico de Arton e acabei entendendo o motivo das pessoas gostarem tanto de Tormenta. A princípio, uma das raças que mais me interessou foram os Qareen. Apresento a vocês então, o primeiro personagem que criei para uma aventura nesse universo incrível.


 

Prometido

O grupo de crianças se reuniu em círculo ao redor do garoto mais velho de olhar astuto e sorriso fácil. O garoto se colocou sobre uma pedra e começou a contar a história de uma aventura que ele não havia vivido.

Aconteceu muito antes das Guerras Táuricas, disse ele. Mil homens e mulheres de todas as raças unidos em uma luta épica contra um inimigo estrangeiro que queria usurpar suas terras. Haviam guerreiros, paladinos, magos, clérigos, feiticeiros, druidas e é claro, os bardos.                Eles lutaram contra um exército sem fim de invasores, que esmagou os defensores até que apenas dez deles estivessem de pé.

Todos já pensavam que a guerra estava vencida e que as legiões do mal avançariam sem contenção sobre o continente e dominariam todos os reinos, cidades e florestas. Entretanto, os invasores não sabiam que essas terras eram protegidas pelos deuses, e quando um clérigo orou, a ajuda divina chegou. Reza a lenda que cada um dos dez campeões que sobreviveram ao massacre foram abençoados por um deus diferente.

O guerreiro recebeu a benção de Azgher e seu corpo brilhou com uma luz tão forte que centenas de inimigos ao seu redor ficaram cegos. O paladino foi abençoado por Khalmyr e sua espada curta, de súbito, tornou-se longa, poderosa e indestrutível. A maga recebeu seu dote diretamente de Wynna, e o ar, a água, a terra e o fogo se dobraram à sua vontade. O feiticeiro recebeu a sorte de Nimb e todas as magias que lançou acertaram seu alvo com extrema perícia. A druida foi presenteada com a lança mágica de Allihanna, e conta-se que nasceu uma flor branca em todos os corações por ela perfurados.  O bardo foi inspirado por Hynin, e as notas musicais emanadas de seu bandolim renderam as mais diversas ilusões aos inimigos, prendendo-os na própria mente. O clérigo que fez a oração recebeu a maior bênção de seu senhor Thyatis, e o fogo abrasador de sua espada devolveu à vida aqueles que haviam morrido protegendo as terras de seus ancestrais…

— Já chega de contar mentiras para as crianças, Ka’alud!

O homem de cabelos brancos e olhos púrpuras agarrou o braço do garoto contador de histórias e o forçou a descer da pedra. As crianças assustaram-se com ele e saíram correndo. Ka’alud tentou se soltar do homem, mas apesar da idade, ele era forte e não o soltou.

— Me solta, pai! Que mal há em querer divertir as pessoas? — defendeu-se o garoto de cabelo roxo.

— Não há mal nenhum nisso — respondeu o homem, finalmente soltando o rapaz. — Acontece que Vectora está próxima de aportar, e você deveria estar na loja arrumando tudo para quando os clientes chegarem. Não se esqueça do seu trabalho!

Ka’alud assentiu e não discordou, mas seguiu seu pai de volta para a loja. A grande e flutuante Vectora estava sempre movimentada com seu comércio único, mas quando a cidade aportava em algum lugar, significava que as vendas iriam, no mínimo, dobrar. A loja da família ficava na região sul da cidade, próxima aos portões que atravessam a muralha.

— Graças a Wynna! — disse a mãe de Ka’alud quando o pai e o garoto voltaram para casa. — Onde estava, rapaz?

— Estava na praça contando histórias para as crianças. — Respondeu o pai.  — Vá agora limpar os frascos, Ka’alud!

Quando o rapaz atravessou a porta que ficava no fundo do balcão da loja, encontrou incontáveis prateleiras repletas de frascos de poções coloridas, a maioria coberta por poeira. Ele respirou fundo, pegou um pano e começou a limpar frasco por frasco.

Aquela tarefa era entediante para Ka’alud, mas dava tempo para a imaginação do garoto trabalhar, e assim ele viajava para qualquer lugar de Arton que quisesse. E era nesses momentos também que ele inventava as histórias das aventuras que nunca viveu. Queria, mais do que tudo, deixar a loja de sua família, sair de Vectora e explorar o mundo com seus próprios olhos. Ver a História ser escrita. Na verdade, por várias vezes ele se imaginou como aquele que escreveria as próximas aventuras que aconteceriam nesse mundo de maravilhas e mistérios que os deuses fizeram.

— Desperdício… — murmurava ele enquanto limpava.

— Desperdício? — Alguém questionou às suas costas.

Ka’alud virou-se de sobressalto e deparou-se com os olhos divertidos e o sorriso travesso da irmã.

— O que está murmurando, bebê? — Ela perguntou.

— Que Wynna acharia um desperdício de poder o que fazemos aqui. — Ele respondeu enquanto levitava um dos frascos de volta para seu lugar na prateleira.

— Você pensa que deveríamos estar nos aventurando pelo mundo e usando nossa magia em combates épicos. — Afirmou a irmã.

— Concorda com isso, não é, Lih’laad?

— Não. Apesar de termos sido abençoados pela deusa, somos livres para traçar nossos caminhos.

Os dois trabalharam por horas na limpeza de cada um dos frascos de poções. As estrelas já haviam começado a brilhar no firmamento quando eles terminaram. Estavam exaustos.

 Ka’alud foi dormir tarde naquela noite, mas quando o sono finalmente chegou, ele sentiu seu espírito se erguer além do corpo inerte na cama de madeira. O garoto flutuava sobre a cidade voadora. E incapaz de controlar o corpo, seu espírito era conduzido para fora dos muros de Vectora até o penhasco sul.

Uma mulher humanoide, de cabelos multicoloridos e pele de jambo, encarava o mar negro pelo qual a ilha voadora parecia navegar. Ka’alud foi conduzido até ela. Quando os pés dele tocaram o chão, a mulher se virou e o encarou.

O garoto sentia-se estranhamente feliz na presença daquela misteriosa criatura. A magia que ele sentia no mundo ao seu redor e nele mesmo parecia fluir diretamente dela. Tomado por súbita revelação, ele prostrou-se.

— Minha Mãe!

A mulher se aproximou e tocou no queixo do garoto, erguendo seu rosto.

— Ka’alud — sua voz ressoava na alma do Qareen. —Pode se levantar.

Ele se ergueu, e a deusa sorriu.

— Eu não gosto de ver meus filhos infelizes — disse ela. —Mas a verdade é que nem sempre tenho poder para mudar suas insatisfações.

Ka’alud ficou em silêncio. Ele não se considerava digno de dirigir a palavra à Wynna, mesmo acreditando que tudo aquilo não se passava de um sonho.

— Entretanto, no seu caso, há algo que eu posso fazer. — Ela continuou. — Na verdade, você é o Qareen que eu há muito prometi a um amigo. Hoje, eu acredito que você já está pronto para partir.

— Partir? — perguntou o jovem.

— Você não pertence a Vectora — respondeu a deusa. — Sei que essa tem sido sua casa desde que nasceu, mas também sei que anseia por conhecer o mundo além desse Mercado nas Nuvens.

Ele assentiu. Acreditava que havia nascido para a aventura, e não para vender poções em um mercado.

— Pois bem, o seu tempo chegou — a deusa lhe ofereceu outro sorriso. — Amanhã Vectora irá aportar em Malpetrim, é lá que você deve descer.

— Malpetrim? O que devo fazer lá?

— Meu amigo lhe encontrará e então, lhe entregará todos os detalhes de sua missão.

O jovem assentiu. A deusa sorriu pela terceira vez e então, se afastou de Ka’alud, indo na direção do precipício. Ela acenou e seu corpo desfez-se em luz. Quando o jovem Qareen abriu os olhos, estava deitado novamente na sua cama. Seus pais e irmã o rodeavam e chamavam por seu nome.

— Ka’alud! Ka’alud!

A marca em seu peito brilhava mais intensa do que nunca, iluminando todo o quarto. Ka’alud sentia-se leve e molhado de suor. A mãe o abraçou quando ele abriu os olhos. O garoto contou aos pais o que a deusa Wynna lhe havia revelado, e no dia seguinte, quando a cidade-mercado de Vectora chegou em Malpetrim, ele desembarcou.


 

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