Origem Estrutural – Princípios do desenvolvimento narrativo

“A construção de personagem tem sido tema de teóricos teatrais, cinematográficos… sem que se chegue a uma conclusão decisiva”, Gian Danton deixa claro que não há uma fórmula mágica para o processo criativo, porém os estudos estabeleceram alguns conceitos que ajudam a desenvolver conteúdos que despertam o interesse de um grande número de pessoas.

Ao buscar um produto criativo que vise se tornar interessante ao gosto popular, é necessário o equilíbrio entre os modelos universais, facilmente reconhecíveis pelos leitores, e os argumentos originais, para despertar o interesse em conhecer algo novo. Assim como a combinação de temas, usada para atrair indivíduos que tenham gostos diferentes. Em um mesmo produto é oferecido o humor, o romance e a ação, por exemplo.

Os personagens são criados seguindo modelos arquetípicos que servem como padrões de fácil reconhecimento. Esse recurso possibilita um rápido entendimento e assimilação pela massa. O herói ou heroína pode ser tanto um guerreiro de armadura como um velho mago ou um ladrão carismático. Modelos de base comuns e reconhecíveis pelo grande público. À medida que são inseridos dramas internos e externos, o personagem arquétipo básico ganha personalidade e profundidade, mas ainda mantém a identidade coletiva. Quando os sentimentos e dramas do personagem não são desenvolvidos, ele fica impessoal e raso.

Essa falta de desenvolvimento caracteriza o estereótipo, um “tipo estéril” de criatividade, ou, o arquétipo mal trabalhado. Sem que haja uma elaboração interessante do personagem o que temos é apenas um referencial já desgastado, que se torna previsível e cansativo. Devemos, então, inserir sentimentos e dramas para tornar a ideia universal algo original. Afinal, basicamente, somos todos seres humanos, mas nossas histórias, sentimentos e experiências pessoais é que nos tornam indivíduos únicos. Assim também acontece com os personagens de ficção.

Na construção de um personagem intelectualmente atraente, é preciso aprofundar o seu desenvolvimento psicológico. Suas atitudes não devem parecer mecânicas. Pré-programadas em um sistema que limita as respostas em sim ou não. É preciso criar dúvidas e mudanças inesperadas que afetem o desenvolvimento da história. Por isso, a construção do personagem interfere, diretamente, na construção da história. Traumas pessoais e engajamento político são exemplos de bases nas quais podemos apoiar o desenvolvimento do herói.

Gian Danton destaca a importância dos traumas para o desenvolvimento psicológico necessário para a construção dos super-heróis dos quadrinhos. Os acontecimentos negativos aparecem constantemente como a perda de algo precioso, seja uma só pessoa, a família inteira, toda a terra-natal, até mesmo, um pequeno objeto ou animal de estimação. A relevância depende da importância que é dada em relação ao personagem e como ele se comporta diante do seu trauma. Pode ser que queira recuperar o que foi perdido, vingar-se, evitar que ocorra com outras pessoas ou, na construção de um vilão, fazer com que outros sofram o que ele sofreu.

Na conclusão da história, o final mais esperado é a vitória. Na década de 1930, consolida-se a representação positiva do herói em vista de criar um discurso modelo que levasse alívio ao leitor. Segundo Edgar Morin, a felicidade, não é apenas o objetivo que guia o personagem, mas também, o caminho que ele percorre.

O final feliz, tão sonhado por todos, acontece nas histórias em que as pessoas encontram o seu desejo realizado através dos personagens com os quais se identificam. Por isso o herói clássico é sempre vitorioso. A cada final feliz o público sente-se igualmente vencedor. Por isso, alegra-se com a história e consome essa vitória imaginária.

Tal vitória é conquistada com o sacrifício final do herói, em seu grande ato de bravura em nome de algo maior que ele próprio. Mas o sacrifício não é, necessariamente, o da própria vida, mas pode ser abrir mão de algo de grande importância (um bem precioso, uma grande oportunidade, um relacionamento…). Nesse caso, o personagem vive para aproveitar o momento final da narrativa que resume o eterno êxtase da vitória.

Esses conceitos, claro, não são regras obrigatórias, mas ter consciência do que está acrescentando e o significado de cada ação contribui para o desenvolvimento do enredo. Ao conhecer e dominar os recursos da narrativa é possível desconstruí-los de maneira inovadora.


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