Discoteca

Estava com uns amigos motoqueiros, comíamos uma buchada com cachaça, no município de Capela, aqui mesmo em Alagoas, estávamos distantes uns 60 km da nossa capital, Maceió.  Em meio à conversa descontraída apareceu um rapaz jovem, gordo e bronzeado, e pelo porte, vi que filho de gente com muito dinheiro. Mas fui avisado por um dos meus amigos que se tratava de um jovem prefeito de um daqueles muitos distritos sem receita própria — isso acontece em todo o Brasil, existem por causa dos repasses de estancias maiores.

O rapaz em questão estava desacompanhado, por isso, pediu para ficar junto com a turma. No início, tive alguma reserva, mas o rapaz era gente boa. A conversa e a bebida foram até o anoitecer, e o tema tratado na conversa era viagem.

Você deve compreender que vou preservar a identidade dos envolvidos.

Ele começou a contar um causo, algo que lhe havia ocorrido há pelo menos uns vinte e cincos anos, segundo o próprio.

Contava que, em uma noite estrelada e de lua cheia, numa quarta-feira, em um tempo quando seu pai era prefeito, pegara emprestado dele seu Chevrolet Comodoro, para fazer uma visita à namorada que tinha na época, ela residia em Cajueiro.

Já passava da meia-noite, adentrava pela madrugada de quinta-feira quando o rapaz se dirigia para a casa da sua avó, em Maceió; não queria correr o risco do seu pai o ver chegar bêbado em casa.

A estrada estava completamente deserta. Passava por uma cidade chamada Pilar, ainda bebia uma terceira cerveja quando percorria uma região onde predominava, às margens da estrada: sítios, chácaras, e infindáveis canaviais em ambos os lados da pista. Foi logo depois de um bocejo que o futuro prefeito avistou um terreno plano e limpo onde havia uma casa muito bem conservada, tinha um letreiro de neon azul e roxo, onde dizia: discoteca.

Pensava sobre o que tinha avistado curioso, ele, quando chegou a uma rotatória, ainda em Pilar, decidiu retornar. Seu pai, quando moço, dizia costumar ir a discotecas. O velho contava que equivaliam aos bares de hoje em dia, mas, com músicas melhores e pista de dança, que se encontrava sempre cheia.

Retornando, o rapaz avistou o estabelecimento de letreiro luminoso. Quando parou no acostamento, viu um poste de luz alaranjada, e debaixo dele, muitos carros antigos. Todos estacionados a porta: Fusca, Corcel, Chevette, Brasília, dentre eles, havia até mesmo um lendário Gurgel. Estavam todos em perfeito estado de conservação, quase brilhavam.

O jovem político destacou que, com toda certeza, não haver nada daquilo que acabou de descrever para mim, parecia mais que aqueles detalhes surgiram do nada.

Ainda mais intrigado com aquele lugar, procurou um canto qualquer pelos arredores, e estacionou.

Não ouvira barulho algum além dos seus próprios passos na terra seca e batida, nada muito além dos grilos, sapos e vento que agitava o canavial. Para ele, esses detalhes eram muito mais estranhos do que a presença de tantos carros antigos reunidos na madrugada.

Quando chegou à entrada, avistando uma porta larga, escancarada. Adentrando, sentiu um cheiro encorpado de fumo; ouviu uma música estranha, uma cantiga que soava muito velha, mas era rimada como uma poesia; o som era alto e muito nítido. Era possível entender cada palavra que proferia a intérprete, muito mais agradável de se apreciar que o popular som digital encontrado nos CDs.

Eu perguntei ao rapaz se ele lembrava o que dizia a canção. Respondeu-me que as pessoas acabaram lhe distraindo com seus cabelos cheios, cobertos de gel para modelar seus topetes grandes e bem arredondados. O rapaz prosseguiu acrescentando que, enquanto outros tinham vergonhosos cortes em forma de cuia, ou bagunçados, tão naturais quanto alguém que acaba de acordar. As mulheres vestiam saias rodadas ou calças de cintura alta; quanto aos homens, estavam de calças boca de sino, camisas de mangas longas; havia até aqueles outros que trajavam ternos.

Nas mesas, disse ele, ter visto apenas garrafas de refrigerante. Em meio à penumbra e a fumaça, vislumbrou silhuetas de pessoas dançando soltos, balançando mãos e pés.

Em meio a toda aquela agitação, ele escolheu uma mesa e sentou-se. E enquanto esperava ser atendido por algum garçom, olhava a estranha turma. Chegou a pensar se não estava em uma festa a fantasia.

Então, ele ouviu uma gargalhada vinda de uma mesa próxima, era um grupo que o apontava. O visitante, incomodado, logo se deu conta de que muitos outros o observavam com estranheza.

E como ninguém apareceu para lhe atender, ele levantou e se dirigiu ao balcão. No meio do trajeto, notou que a canção terminara logo se iniciava outra. O aventureiro reconheceu a música, era alguma obra da jovem-guarda.

 Chegando ao balcão, encontrou uma grande faixa, pendendo sobre sua cabeça, nela estava escrito: “FELIZ ANO NOVO!”.

Relatou que, quando se encostou ao balcão, ouviu um casal que tentava conversar em meio a todo aquele barulho, falavam com o inconfundível sotaque chiado dos sulistas. E foi neste instante que ele compreendeu que aquilo não era um acontecimento natural, e até mesmo que não fosse real. De repente, o estômago lhe pesou na barriga. Por um instante, sua visão embaçou, sentiu-se mal, apavorado, pois parecia deslocado da realidade a qual pertencia.

Ele, o rapaz, atordoado, desatou a correr dali. Entrou no carro batendo forte a porta, disparando estrada a fora. Estava tão assustado que esqueceu que caminho seguir, rumava de volta à casa da sua namorada, em Cajueiro, local do qual havia saído a menos de uma hora.

Seu medo só aumentava, pois, a pista lhe pareceu diferente mais estreita e acidentada, distinta do que estava habituado. Além disso, não passou por moradia alguma, lugar onde poderia parar e pedir ajuda. Tudo se resumia à cana-de-açúcar de ambos os lados da rodovia.

De tão nervoso que estava não se deu conta de que havia alcançado outra rotatória, que dava para Recife, à sua direita; Aracajú, à esquerda; e seguindo em frente, Capela. Acabou por não ir para nenhuma dessas direções, pois avançou com o potente carro, invadindo o girador. Com o salto, bateu em muitas das irregularidades no chão de terra. Enfim, depois de muito sacolejar o Comodoro parou, depois de arrastar-se pelo barro e capim.

Quando desceu, o jovem atordoado avistou uma das rodas dianteira torcida para o lado de dentro do veículo. Mas o que importava mesmo era que estava vivo, e sem um arranhão. Retomando o controle de si mesmo, ele avistou placas, que lhe permitiram saber onde estavam. O melhor de tudo viu ao longe, as luzes de uma casa. Caminharia até lá, a fim de esperar o amanhecer.

Mas foi do nada que surgiu um facho de luz, esse lhe atingiu em cheio os olhos. Em seguida, ouviu o barulho de duas portas sendo abertas, duas pessoas saltaram de um veículo alto, se aproximavam.

— Que porra é essa?! — era a Polícia Rodoviária.

— Opa, seu guarda! Eu passei direto pelo girador, e estava muito nervoso… — explicou.

— E o que foi que aconteceu? — questionou o segundo guarda, apontando uma lanterna para o carro todo arrebentado.

— Aconteceu uma coisa tão estranha que quando o senhor souber não vai acreditar! — alardeou o rapaz.

— Tem que ser uma história muito boa para explicar o porquê de passar a uns 150 por hora pelas lombadas do posto da polícia…

Oxe?! Foi mesmo? E eu não disse que estava com muito medo, não foi?

— Não. Mas vamos conversar melhor na delegacia.

Ele nem precisou se explicar, seu pai chegou para buscá-lo logo pela manhã, mandou o pessoal abafar o caso, dando um jeitinho com seu amigo delegado.

Ninguém confirmou festa ou evento algum na região, tão pouco, a existência de uma discoteca. Também não foi visto carro algum nas condições descritas pelo rapaz por aquelas imediações. Afirmação que não foi sustentada pelos fregueses, nem pelos empregados dos postos de gasolina da região, que funcionavam vinte e quatro horas, muito menos no posto policial.

Como o rapaz não refreava a própria língua deixou escapar a lorota para alguns amigos boateiros, e a estória se espalhou pela região.

Antes de ir embora, o prefeito me disse que, durante alguns meses, na época, seu caso foi notícia nas rádios.

Para lhe ser sincero, eu não acreditei na conversa do prefeito. E para falar a verdade, não acredito em conversa de político, seja qual for o assunto. Mas admito que gostei da estória.


Assinatura_Crônicas - Ricargo Old Folk-09

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