AS MULHERES NOS NOVOS CONTOS DE FADA

Os contos de fadas vêm sendo recontados em versões que misturam os temas de espada & magia, tomando a forma de histórias de aventuras. Como no caso de João e Maria que se tornam caçadores de bruxas; Alice volta ao País das Maravilhas para lutar contra o monstro controlado pela Rainha Vermelha; Rapunzel alia-se a um ladrão para realizar seu sonho de liberdade… entre tantos outros.

A comparação com os primeiros filmes de princesas da Disney, mostra claramente a mudança da imagem feita das mulheres. Na animação “Branca de Neve e os Sete Anões” de 1937, a protagonista é apresentada como uma pessoa incapaz de se defender, sempre precisando da ajuda de um personagem masculino — o caçador que a deixa fugir, os anões que a acolhem e o príncipe que a salva —. Os únicos talentos da personagem são em relação aos cuidados com a casa. O modelo aceito pela sociedade da época, mas que já estava em mudança.

Essa imagem da mulher indefesa segue a ideia das histórias originais de Charles Perrault e dos Irmãos Grimm. Segundo Eurídice Figueiredo, ao criar personagens frágeis e vulneráveis, Perrault, cristalizou e perpetuou algumas representações da mulher no imaginário ocidental. No entanto, nas palavras de Figueiredo, outros autores “ao reescreverem o conto, não só aumentam um ponto, como desconstroem uma imagem de mulher frágil e indefesa e constroem imagens mais complexas e variadas”.

Ainda falando da Branca de Neve, em 2012 foram lançadas duas versões diferentes do clássico para o cinema. “Espelho, espelho meu“, com Branca de Neve liderando um grupo de anões ladrões, depois de sair do palácio e abandonar seu comportamento típico de princesa. No filme do diretor Tarsem Singh vale destacar que é a princesa quem dá o beijo para salvar o príncipe.

As novas roupas da heroína são escolhidas após uma série de “experimentações”, em uma sequência comum em vários filmes onde o personagem veste diferentes modelos até encontrar o que melhor combine. A roupa escolhida chama a atenção por causa da “calça-saia”, apesar de ter o corte separando as pernas, a vestimenta é larga de maneira que se confunde com uma saia. Como a história se passa num período equivalente à Idade Média, no qual as calças eram exclusivas dos homens e as saias das mulheres, podemos entender a intenção de representar a união do masculino e feminino através do traje da personagem.

Em “Branca de Neve e o Caçador“, o Caçador rasga a saia da princesa, pois a roupa atrapalha seu movimento. Em outras palavras: ela precisa se desfazer de seu traje e comportamento para conseguir alcançar seu propósito de combater a Rainha. No clímax do filme, Branca veste uma armadura e lidera o exército que luta contra a Madrasta.

O filme João e Maria: Caçadores de bruxas (2013), apresenta o que poderia ser uma continuação da história original. No conto dos Irmãos Grimm a história termina com os irmãos matando a bruxa e voltando para a casa com os tesouros dela, colocando fim à miséria da família que levou os pais a abandonarem os filhos na floresta.

No filme, a verdadeira aventura dos irmãos começa logo após a morte da primeira bruxa, e como a prática leva à perfeição, iniciam a carreira de caçadores. Ao longo da história, João se apaixona por uma bruxa que os auxilia, mas acaba morrendo, efetuando o sacrifício heróico. O romance é inserido para manter a receita de unir o romântico e o aventureiro. E, nesse caso, não é Maria, a garota, que se apaixona, pelo contrário ela demonstra total indiferença a qualquer relacionamento.

Maria não é uma princesa e sim uma camponesa. Uma personagem inserida, dentro de um contexto histórico em que a necessidade de alimento, mais essencial e mais prático, era mais importante que o amor fantasioso com um príncipe. Essa visão ajuda a explicar a montagem do personagem “feminino durão”. Maria é prática e direta, não precisando de um homem para defendê-la. Quando chega a precisar de ajuda a figura masculina que a socorre é um ogro que serve às bruxas.

O masculino aqui é como a própria Maria. Prático. Sem fantasia de romance com o príncipe, o ogro obedece e defende a mulher sem discutir ou sugerir qualquer algo a mais entre eles, além da relação funcional. Ela manda e ele obedece. O ogro é mais um animal domesticado, que uma figura humana racional.

Outro conto de fadas adaptado para o longa-metragem é a história de Rapunzel. Em Enrolados (2010) a jovem sonha em chegar até a região onde aparecem várias luzes, todos os anos, no dia do seu aniversário. Quando o personagem masculino aparece, ela pede para que a liberte da torre e a leve até o local das luzes. Mas na cena seguinte ela escapa sozinha, como poderia ter feito em qualquer outro momento sem ajuda. A personagem também carrega sua própria “espada”, na forma de uma frigideira, criando humor pela analogia entre os objetos. A arma de uso masculino e o utensílio doméstico associado à mulher dona de casa.

Ao ficar finalmente livre, ela fica dividida entre a obediência a sua “mãe”, a bruxa que a aprisionou, e o desejo de liberdade. A sequência que apresenta o conflito interno é ilustrado como uma variação do comportamento entre a euforia e a culpa, gerando uma espiral de emoções.

As princesas clássicas dos contos de fadas com sua atitude (ou a falta dela), sua imagem de donzela indefesa que espera e depende do príncipe para que seja salva, são satirizadas nas narrativas contemporâneas. Como no longa-metragem de animação Sherk Terceiro (2007), quando Fiona, Branca de Neve e companhia são presas pelo Príncipe Encantado, a princesa ogra dá o comando para buscarem uma maneira de fugir e as princesas tomam suas posições e se sentam (ou deitam, no caso da Bela Adormecida), esperando serem resgatadas por seus príncipes. A intenção da cena é causar humor com a absurda reação das mulheres, mantendo-se inertes em uma situação de perigo.

Essa desconstrução e reconstrução vem sendo usada dentro da cultura de massa adaptando as personagens e suas histórias de acordo com a época, pois mesmo histórias com temas atemporais precisam ser atualizadas.


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