Vulgo Grace

Título: Vulgo Grace | Autor: Margaret Atwood | Editora: Rocco | Gênero: ficção histórica | Páginas: 515 páginas | Ano de publicação no Brasil: 2017 | Nota: 5,0/5,0


Um suspeito, em geral,  é alguém que possui uma relação consistente com um crime, mas que, até que se prove o contrário, é considerado inocente. Presunção de inocência ou benefício da dúvida (como seja mais confortável chamar) é um princípio jurídico famoso, utilizado por Margaret Atwood como mote para recontar uma história real de assassinato em Vulgo Grace.

A autora é conhecida como autora de O Conto da Aia, obra recentemente adaptada para a televisão, o que também aconteceu com Vulgo Grace, disponível na Netflix sob o título de Alias Grace. Consagrada por suas abordagens ácidas e reveladoras de questões latentes do feminino e do feminismo, Atwood traz em Vulgo Grace ainda, uma outra habilidade: a de reconstituir períodos históricos. Com destreza digna da Scotland Yard, a escritora nos apresenta um século XIX tão cheio de minúcias, cheiros, cores e desigualdade social, que às vezes torna-se difícil respirar normalmente durante alguns trechos (isso também acontece com vocês?).

O livro nos apresenta uma tentativa de resolução de um caso de assassinato ocorrido no Canadá durante o século XIX. A narrativa é baseada em fatos reais, mas, como toda boa história de ficção, e mesmo como toda a análise histórica, permite-se “costurar” alguns buracos com deduções plausíveis.

No início da obra, encontramos Grace Marks, acusada de assassinar seu patrão e a governanta da casa onde trabalhou por alguns meses. Ela está presa há cerca de 15 anos, quando o belo Dr. Simon Jordan, um psiquiatra ainda inexperiente, mas muito bem formado, é convidado para avaliar seu estado mental e emitir um parecer sobre Grace ser liberta ou não.

As conversas com o psiquiatra revelam que o passado de Grace foi marcado por abusos, em todos os sentidos, e a coloca, em muitos momentos, mais na posição de vítima do que de culpada. Apesar de tentar manter uma postura ética, Jordan acaba se envolvendo emocionalmente com Grace, o que torna fazer uma análise de seus relatos algo bastante nebuloso e aflitivo.

Bom, vocês devem estar se perguntando: por que ela não foi presa? Há várias razões para isso, e no meu entender, essa é a principal discussão do livro. À época do crime, Grace tinha 15 ou 16 anos. Isso a tornava quase uma criança aos olhos populares. Ela foi, ainda, vítima de uma guerra narrativa nos jornais que noticiaram o crime. Ora tratada como uma estúpida jovem que foi convencida ou coagida a participar de um assassinato, ora como uma demoníaca sedutora que transformou um bom homem em um assassino.

Uma mulher pode usar sua condição estereotipada de frágil, burra, inferiorizada, ou seja, ela pode utilizar o patriarcado para se defender num caso de julgamento contra ela? Ou ela era apenas uma injustiçada? Atwood nos deixa bem longe de respostas, mas nos impõe valiosas perguntas.

No caso de Grace, além de sua idade quando o crime foi cometido, a jovem também consegue se beneficiar dos primeiros indícios de questionamento da pena de morte e também da ascensão do espiritismo como religião. Embora seja a igreja protestante que se posicione a seu favor, a aura misteriosa da moça a torna objeto de interesse da elite canadense.

Atwood traça muito bem esse cenário do ponto de vista histórico e nos apresenta um mundo aberto a descobertas sobre a mente e o espírito, no qual uma narrativa como a de Grace era enxergada com muita curiosidade. Saber dessa “fraqueza” de pessoas influentes seria uma boa oportunidade para ganhar a confiança deles e escapar da prisão. Ou não. Essa é a pulga que Margaret nos deixa, e que vai depender muito de suas crenças pessoais como expulsá-la da sua orelha.

Outra questão bastante interessante da obra é como é descrita a classe trabalhadora. É claramente um mundo que acabou de sair da escravidão e aos poucos (bem aos poucos), migra para o trabalho livre. Os empregados são tratados de forma bastante repulsiva e usam formas de resistência bastante interessantes para se “vingar” de seus patrões no cotidiano. É assustador como muitas cenas deste livro remetem a relatos contemporâneos, que vocês podem encontrar na página “Eu, Empregada Doméstica” (https://pt-br.facebook.com/euempregadadomestica/), organizada pela rapper brasileira PretaRara. É impressionante mesmo como essa mentalidade colonial ainda se mantém no mundo contemporâneo, no Brasil.

Há ainda várias cenas onde a estrutura machista coloca as mulheres do livro em situações extremas, que destroem elas próprias e as relações entre si. Seria anacrônico no mínimo esperar relações de sororidade entre patroas e empregadas, ainda mais no XIX. Atwood, no entanto, em determinado momento, nos faz lembrar que as dores de uma acabam sendo as dores de todas e que, em determinado momento, toda mulher que já se calou diante de uma situação misógina vai se perguntar por que não impediu aquilo. É um bumerangue muito certeiro e que nos faz refletir sobre identidade, parceria e competição.

O final da obra é doloroso e magistral. Ao mesmo tempo que sentimos alívio por alguns personagens, fica a impressão de que sempre haverá algo a ser reparado e que nada pode mudar algumas violências. A questão principal deixa de ser se Grace é culpada ou não. Isso já não importa. Porque nós a entendemos e não precisamos de uma resposta, que por sinal, não é dada.

Você pode adquirir essa obra em formato físico ou em formato digital para o kindle aqui.


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