Um Tolo e a Prata

Certas damas, das quais as origens e seus procedimentos ignoro, costumavam a adquirir todo o carregamento de escravos que eu conseguisse transportar aos seus domínios. Muitos desses infelizes foram arrastados das suas casas, tratados como espólios de guerra; eu os adquiria através dos valentes e nobilíssimos romanos.

Costumava comprar aqueles que foram, por algum motivo, refugados pelos seus poderosos captores. Dentre eles, velhos, doentes, aleijados, ou mesmo as frágeis mulheres prenhas. Devo dizer que dentre os derrotados, havia sempre aqueles de espectro insondável; eu próprio desejava ajudá-los, mas sequer podia compreender seu dialeto bárbaro.

A preciosa carga me era entregue por meio de um cavalheiro residente em uma das belas ilhas de Creta — estou terminantemente impedido de ser mais preciso. Dias depois, em trajeto direto pelo Mediterrâneo, entregava a carga sem qualquer questionamento, comprovação do serviço ou garantia. Aportava de madrugada, na Baia de Alexandria, onde meus porões eram esvaziados por homens demasiados quietos e silenciosos, que chegavam ligeiros em embarcações leves, a remo. Recebia o pagamento apenas quando retornasse a Creta.

Juro que nunca soube qual era a utilidade daquelas cargas humanas para três aristocratas; ainda mais em se tratando de mulheres; eram belas, mas demasiadamente pálidas e taciturnas. Certa vez, quando portando generosa soma que elas próprias haviam mandado me entregar, decidi por ficar ao menos um dia naquele ambiente paradisíaco, acompanhado de peculiares raparigas bronzeadas.

Acredite quando digo que ninguém sequer ouvira rumores sobre as tais damas exóticas. Desisti de investigar quando constatei que as dimensões daquele arquipélago não permitiriam que fosse ocultada tamanha quantidade de prisioneiros sem que fossem notados.

Minhas contratantes eram tão reservadas e evasivas, que nunca ao longo das duas décadas que trabalhei para elas, cheguei a tratar diretamente com elas, apenas por meio dos seus inúmeros serviçais. Mas com sabe, caro amigo, o que me importava mesmo era o vultoso pagamento; consistia no peso de cada uma das unidades vivas que pudesse transportar, sendo a carga cotadas em prata. Decerto, pagavam também pela minha discrição e fidelidade.

Outra coisa.

Meu pagamento consistia em moedas de prata, inumeráveis, e de cunhagem singular; seu brasão era desconhecido, nunca encontrei alguém que pudesse identificá-lo. No entanto, ninguém nunca se negou a recebê-las, dada pois a pureza do metal empregado na sua confecção.

Mas então, agora que já sabe das minhas atividades, desejo revelar-lhe como acabei arruinado, praticamente um mendigo. Vivia de modo condizente com os meus ganhos, tinha empregados até para limpar meu traseiro — Pode acreditar. Hoje em dia, se algum credor pudesse me reconhecer, vestido trapos, maltratado e sujo, certamente acabaria por me mandar cortar a garganta.

Foi durante a primavera que cheguei àquela baia suja e repleta de mosquitos para aguardar pelos carregadores, que deveriam surgir em breve, com suas cabeças encapuzadas, em seus pequenos barcos.

Eu os esperei por uma semana. Minha carga morria rapidamente, o cheiro de morte se acumulava, e a tripulação estava inquieta com a situação. Nossos encontros não ocorriam em datas e horários marcados, com certeza, somente, que ocorreria durante a noite, ou madrugada. Depois disso, resolvi baixar um escaler e circular por aquela cidade.

Foi durante uma tarde, logo após experimentar os prazeres de uma das inúmeras casas de banho locais, que sonhei com as três damas. Eu as vi fugindo em prodigioso voo noturno por sobre o deserto vazio e inóspito. Quando me preparava para retornar a minha embarcação, após um belo jantar, descobri que meu barco havia sido abordado pela Marinha Real, e que seu proprietário — eu mesmo — era procurado por fornecer corpos para a prática da necromancia.

E aqui estou, vagando sem destino, pelas ruas do Cairo. Pobre e miserável…


Assinatura_Crônicas - Ricargo Old Folk-09

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