Marian Carvalho

Hoje eu estou trazendo um personagem que criei para uma aventura de Vampiro: a máscara. Marian é um vampiro que lamenta sua imortalidade ao mesmo tempo que teme a morte. Inspirei a criação desse personagem em uma das minhas obras clássicas preferidas da literatura nacional que menciono algumas vezes no texto abaixo.


 

A virtude do defunto

Ao verme que primeiro roeu as frias carnes do meu corpo dedico com saudosa lembrança estas memórias póstumas.



A dedicatória que Brás Cubas faz em seu livro de memórias póstumas aperta-me a garganta em inevitável inveja. Eu não tive essa oportunidade quando a morte me foi negada. Na verdade, minha última lembrança em vida no Rio de Janeiro é de estar olhando a estátua do virtuoso Machado de Assis na fachada da Academia Brasileira de Letras.

O que aconteceu depois foi incerto, mas quando acordei estava preso em uma cela. Ouvi os gritos eufóricos vindos de algum lugar acima de mim, mas não enxergava um palmo a frente. Meu coração ainda palpitava com o sangue quente que lhe percorria as entranhas. Minhas mãos tateavam pela rocha fria a procura de uma saída, mas o máximo que encontrei foram as grades de metal áspero que encerravam minha prisão.

O gosto amargo da bile em minha boca e o desespero por não saber o que estava acontecendo tomou conta do meu corpo. Minha voz trêmula ecoava pelas paredes e perdia-se na escuridão intragável. O ar parecia escasso e tênue, dificultando a respiração. Eu senti frio e foi só então que percebi que estava nu. Seria aquilo um tipo de punição? Eu haveria morrido e sido enviado ao inferno?

Encolhi-me em um canto da cela, cada músculo do meu corpo tremia, mas se era medo ou frio, eu não sei dizer. O tempo era um conceito vago naquele lugar, se eu estava ali há dois minutos ou dois dias, não fazia diferença. A mente desesperada do homem embriaga-lhe os sentidos e o medo confunde nossa percepção. Por vários momentos pensei estar acompanhado naquele lugar. Manchas disformes moviam-se na escuridão, mas meus gritos de socorro não eram respondidos.

Foi só então que eu vi uma luz. Alguém se aproximava, era possível ouvir seus passos ecoando na rocha. A claridade fazia meus olhos arderem. Conforme o ambiente iluminava-se, percebi que não estava sozinho. Havia outras celas ao meu redor, cada uma continha um homem nu. O olhar de desesperança do meu vizinho da frente deixou-me ainda mais amedrontado.

O homem que se aproximou sob a luz da lanterna usava um sobretudo preto que se misturava na escuridão também trazia consigo um molho de chaves. Cada uma delas foi usada para destrancar as nossas celas. Ele falava em um idioma que eu não compreendia, italiano talvez. Seu olhar firme e o gesto que fez com a mão parecia dizer que deveríamos segui-lo. Foi isso que fizemos.

Caminhamos perdidos por um corredor que parecia nunca ter fim. Ao longe eu vi uma luz, uma luz no fim do túnel. Meu coração dizia que eu não deveria ir até lá, mas meu corpo parecia não me obedecer. Conforme a escuridão desaparecia, os gritos eufóricos aumentavam. Meu estômago embrulhou quando senti o cheiro de podridão e urina.

Fomos guiados até o centro de uma arena calçada com pedras polidas e rodeada por arquibancadas. Eu nunca havia saído do Brasil antes, mas sabia que aquele lugar fora construído para ser uma miniatura do Coliseu romano. Várias pessoas estavam sentadas nas arquibancadas, todas usando roupas pretas. A maioria era homens adultos, mas havia também algumas crianças e mulheres. Meu extinto e vergonha forçaram-me a tentar esconder a nudez.

O guia retirou-se da arena e trancou o portão pelo qual passamos. Um dos sete homens que ocupava o local de destaque na arquibancada levantou-se. Os gritos findaram-se quando ele ergueu os braços.

— Irmãos! Hoje é o dia em que mais um será Abraçado pelo nosso clã. — disse ele.

O homem falava em inglês e sua voz ecoava por toda a arena.

— Apenas aquele que se mostrar forte o suficiente para superar seus concorrentes terá essa dádiva. Concorrentes, vocês foram trazidos à Veneza de várias partes do mundo. Escolhidos a dedo pelos nossos mestres que enxergaram em vocês as qualidades que procuramos. Sintam-se honrados.

O homem tornou a sentar-se. Ele e os outros seis que estavam ao seu lado ergueram as taças de líquido vermelho que seguravam em suas mãos. Nesse mesmo momento, as pessoas ao redor retomaram os gritos de euforia. Da borda das arquibancadas, alguns homens jogaram espadas, facas e punhais na arena.

Um arrepio gelado percorreu minha espinha. Até então eu não havia entendido o que deveria fazer, mas agora as intenções daquelas pessoas começaram a clarear. A arquitetura similar à do Coliseu não era mera coincidência. Deveríamos lutar pelas nossas vidas, apenas um de nós sairia vivo daquele confronto. Nesse dia eu aprendi que o ser humano é mais parecido com os animais do que eu acreditava. Na verdade, eles conseguem ser ainda piores do que os animais; são criaturas vis.

Em um primeiro momento, éramos sete homens nus em uma arena fedorenta repleta de armas brancas. Eu estava apavorado e agora sabia que tremia por medo e não mais por frio. Se quisesse viver, deveria matar os outros seis. Minha natureza nunca foi agressiva, então eu me neguei. Afastei-me do centro da arena enquanto os outros correram para pegar as armas que queriam usar.

O primeiro dos homens foi degolado por uma espada, o segundo foi esfaqueado no coração e o terceiro teve um punhal cravado em seu pescoço enquanto tentava correr. Eu acreditava que iria morrer naquele torpor de sangue, podridão e euforia e não estava completamente errado. Sempre ouvi dizer que nossa vida inteira passa na mente quando a morte se aproxima. Eu não conseguia pensar em nada, minha mente era um deserto de lembranças, talvez eu não havia vivido. Talvez eu sempre estive morto. Talvez eu tivesse passado trinta e dois anos em um limbo.

O que haveria para recordar? O que eu poderia ter vivido? Tudo o que pensei enquanto o quarto homem caia no chão era nos amores que não vivi, nos bolos de limão e mel que não havia experimentado, nos livros que eu comprei e ainda não havia lido e principalmente no romance que eu não havia escrito. Uma vida de coisas não feitas não era a vida que eu queria recordar antes da morte.

Lembro-me de ter me sentido mais vívido do que em qualquer outro dia de minha existência patética. Eu fui tomado por um intenso desejo de viver, de fazer algo que valesse a pena. O quinto homem tombou quando o punhal o rasgou da virilha até o estômago. Só duas pessoas estavam vivas, eu e um outro homem de cabelos pretos longos. Ele respirava ruidosamente e sorriu ao me encarar. Talvez estivesse certo de sua vitória, afinal, só precisava matar o medroso que havia fugido do combate.

Eu me levantei e caminhei para o centro da arena como quem acolhe o próprio destino. Peguei o punhal cravado em um dos corpos e senti o sangue ainda quente escorrer pela minha mão quando o levantei. Encarei meu adversário e avancei em um súbito de coragem e burrice. Meu ataque precoce e desajustado rendeu-me um corte profundo na altura do ombro. Senti minha carne sendo dilacerada pela espada que ele segurava e o sangue escorreu com fartura pelo meu lado.

A arena girou, perdi o equilíbrio e cai no chão por cima de um outro homem já morto. Meu concorrente ergueu os braços no ar e virou-se para o público, clamando sua vitória. A plateia o aplaudiu de pé, aquele era o campeão que procuravam. Entretanto, eu estava decidido que aquele não seria o meu fim. Usei o último resquício de força que ainda havia no meu corpo para erguer-me novamente e perfurei o homem nos pulmões.

Essa foi minha última lembrança como um homem vivo. A escuridão tomou conta do meu corpo, minha mente esvaiu-se e meus pulmões não conseguiam mais respirar. Senti meu coração cada vez mais fraco, meu sangue perdia-se de minhas veias e artérias até secar-se por completo. Sonhei que bebia de uma taça dourada que uma mulher de cabelos castanhos colocou em meus lábios. Era uma bebida doce, ferruginosa e quente. O último alento do campeão.



Quando acordei, senti-me em paz. De fato, estava em paz. O longo sono que havia dormido mudou minhas percepções. Eu não sentia frio, mesmo estando nu. Não sentia meu coração bater nem o ar preencher meus pulmões, mesmo estando vivo. Não sentia nada a não ser sede. Algo dentro de mim pulsava. No começo era uma coceira no estômago, mas depois parecia se espalhar por cada célula do meu corpo magro.

A mulher de meus sonhos entrou no quarto onde estava. Ela ficou parada na porta por um longo tempo, parecia familiar. Trazia consigo uma bandeja de prata e sobre ela, um cálice dourado que exalava um aroma adocicado que fazia minha boca salivar. Ela deixou o cálice sobre a mesa e se retirou, ouvi a porta ser trancada.

Fui até o cálice e olhei o que havia dentro. Era uma bebida vermelha escura, quase negra. Uma parte de mim desejava ansiosamente por ela enquanto a outra pedia cautela. Mergulhei o dedo dentro do cálice e ao retirá-lo, entendi a natureza daquele líquido. Era sangue.

Marian Carvalho

Quarenta anos se passaram desde o dia em que fui levado a Veneza. Hoje eu sei quem sou melhor do que nunca. Deixaram que eu voltasse para o Rio de Janeiro junto com Gabriella. Ela é a responsável pelo Capítulo da cidade e foi quem me escolheu para lutar na arena. Embora aquele evento tenha me sagrado como o competidor mais forte, sei que sou muito fraco. Meu desejo pelo sangue às vezes consome minha mente, tenho medo do que posso fazer aos de meu grupo e mais medo ainda do que possa ser feito comigo.

Em alguns momentos eu desejo a morte, mas sempre que ela se aproxima o medo me faz correr de volta à vida. Feliz foi Brás Cubas cuja fria carne foi corroída por vermes sob a terra…



A campainha da casa de Marian tocou tarde da noite enquanto ele escrevia no seu computador. O jovem vampiro apagou o cigarro no cinzeiro, ajustou os óculos no rosto e foi atender a porta. Era Gabriella, sua mentora. A mulher entrou e os dois foram até a sala de estar, onde a televisão ligada noticiava a morte de uma cantora famosa que nenhum dos dois nunca ouvira falar.

— O que estava escrevendo, Marian? — perguntou Gabriella ao olhar para o computador ligado.

— As minhas memórias.

Ela o encarou e sorriu. Apesar de muito poderosa, Gabriella era benevolente e havia algo em Marian que prendia sua atenção. Talvez ela fosse capaz de enxerga-lo além do que ele mostrava ser.

— Memórias de pesar, suponho.

— E do que mais eu escreveria?

Trata de saborear a vida; e fica sabendo, que a pior filosofia é a do choramingas que se deita à margem do rio para o fim de lastimar o curso incessante das águas. O ofício delas é não parar nunca; acomoda-te com a lei, trata de aproveitá-la.

Marian acendeu outro cigarro e olhou para a mulher intrigado.

— Citando Memórias Póstumas de Brás Cubas? Você leu?

— É claro que eu li, parece ser uma obra importante para você.

— De fato. — Ele concordou e tragou o cigarro sem sentir prazer naquilo. — Está precisando de mim?

— Na verdade, estou sim. — Ela respondeu e sentou-se em uma poltrona. — Tenho uma missão para alguém forte como você.

— Se leu Brás Cubas sabe que a fraqueza é a primeira virtude de um defunto. — Marian rebateu.

— Você não é mais um defunto, Marian. Além disso, a força que mencionei anteriormente é o que dá sentido à sua existência.

Marian considerou. É claro que ele não poderia negar nada para Gabriella, mas suas conversas com ela era uma das poucas coisas que o entretinham.

— Você é a minha senhora. Em que posso ser útil?




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