Daracha Chrisholm— A vermelha

Como prometido, hoje apresento o último personagem da nossa aventura de RPG Filhos do Éden. Essa é, na minha opinião, a personagem mais interessante que a gente teve na mesa. Foi criada pela minha amiga Fernanda e consiste de uma feiticeira incumbida com a missão de guardar um misterioso túmulo.

Durante o jogo, a personagem dela (e nós, por consequência) ficávamos  limitados devido essa missão da Daracha e isso nos levou a buscar soluções mais criativas para lidar com as situações que o mestre nos apresentava.

Eu não consegui me despedir por completo desse universo que criamos para essa mesa e acabei escrevendo dois contos extras que envolvem os personagens que participaram dessa aventura. Um deles é a continuação do background do Theophilus Yardley, o primeiro que publiquei no Crônicas, e se chama Ïpe’rowa. A história se passa antes da aventura que vivemos na nossa mesa. Já o segundo conto, chamado de Punho de Ferro é a continuação do background da Daracha e se passa depois da nossa mesa. Espero compartilha-los com vocês em breve.

Por enquanto, fiquem com o background de Daracha Chrisholm.


Fardo

Uma garota de vestido branco sentada sobre a colina fazia uma coroa com flores silvestres enquanto entoava uma melodia suave mais antiga do que poderia imaginar. Quando seus pais perguntaram quem havia lhe ensinado essa música, ela disse que foi uma amiga. Quando perguntavam quem era essa amiga, Daracha apenas apontava para alguma direção, como se mostrasse a eles onde ela estava.

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A jovem Daracha, por Lisa Brauce.

Naquele dia na colina, quando sua coroa de flores estava pronta, ela a colocou sobre a cabeça e rodopiou dançando enquanto cantarolava aquela canção.

— Dara, você está se divertindo? — perguntou a garotinha de longos cabelos brancos e olhos dourados.

— Estou sim, Danu! Eu gosto de girar.

Daracha parou de girar quando ouviu o barulho de cascos de cavalo vindo na sua direção. Do alto da colina ela viu quando o animal pisou em falso e caiu por cima do seu cavaleiro.  O garoto gritou. O cavalo se levantou rapidamente e foi embora a galope.

— Você devia ajudar ele, Dara! — disse Danu.

A garotinha desceu a colina correndo com seus cabelos vermelhos esvoaçando ao vento e parou ao lado do garoto ferido. Seus olhares se encontraram, havia algo nele que chamou sua a atenção.

Danu sussurrou no ouvido de Daracha e ela se abaixou, colocou as mãos sobre a perna ferida do menino e fechou os olhos. Concentrada, ela respirou fundo e sentiu o calor fluir de seu corpo para o jovem acidentado.

Depois de abrir os olhos, ela se levantou e estendeu a mão para o garoto. Ele a agarrou de prontidão e se levantou. Não havia mais ferimento, não havia dor. Estava curado.

— Meu nome é Daracha Margareth McRae Chrisholm. — Ela sorriu e se apresentou. — Mas pode me chamar de Dara.

O garoto sorriu e agradeceu.

— Eu sou Theophilus Jasper Yardley — disse ele. — Mas pode me chamar de Theo.

Londres, 1889

O gramofone no fundo da sala executava uma bela canção animada ao som de trompetes, contrabaixo, clarinetes e trombones. Daracha dançava pelo aposento fazendo com que seu vestido liso regesse a música enquanto estralava seus dedos no ritmo da canção. Era dia de limpeza e fazer faxina com música deixava o fardo mais leve.

Depois de ter entrado no clima, bastou pegar o espanador e começar a dançar novamente. As cortinas entreabertas deixavam um feixe de luz do sol entrar dando vida às partículas de poeira que se moviam quase que alegremente pelo ar acompanhando a feiticeira enquanto ela limpava. A música já estava próxima a acabar quando alguém bateu à porta.

Daracha sorria quando atendeu, mas sua alegria não durou muito. Era a senhora Pherbepalds.

— Está muito alto. — disse a mulher entrando na casa sem ser convidada. — Isso aqui não é um cortiço.

Ela era a senhoria de Daracha. O apartamento que a moça alugava ficava no quinto andar e as duas acabaram sendo vizinhas de corredor.

— Me desculpe, senhoria. — Daracha foi até o gramofone e tirou a agulha de cima do disco. — Estava fazendo faxina e me empolguei.

— Pois trate logo de se acalmar. Empolgação não fica nada bem para uma moça solteira como você.

— Sim senhora.

Daracha não estava com ânimo para discussão. Além disso, por enquanto precisava daquele apartamento. Ele estava localizado em um bairro discreto de Londres e de índole ruim, o que mantinha os curiosos longe. Era perfeito para ela. Então ela simplesmente fechou a porta e continuou sua limpeza, agora sem graça e silenciosa.

A tarde já havia chegado ao fim quando ela terminara os afazeres domésticos. No relógio na parede, um homenzinho apareceu batendo os pratos anunciando que já eram seis horas. Pela janela ela percebeu que o céu estava manchado de vermelho no horizonte. A cidade começava a ser inundada pelos vapores dos aquecedores domésticos.

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Daracha, por Fernanda Suarez.

Com o sobretudo preto já vestido, ela saiu de casa usando às escadas de incêndio. Teve que dar um passo de cada vez para não arriscar fazer barulho e alardear os vizinhos. Uma vez que ela chegou no beco entre o seu prédio e outro, caminhou apenas alguns metros até uma porta de madeira escura que passaria despercebido por olhos não treinados.

A passagem a conduziu por um corredor estreito e escuro que ela conhecia bem até um salão amplo esculpido na pedra maciça há sáculos atrás pelos povos antigos que ocuparam a região. Ela tocou a rocha com suas mãos e os archotes antes apagados por toda a extensão da caverna arderam em chamas. Daracha caminhou até o centro do lugar e contemplou o túmulo de pedra branca.

Aquele estranho mausoléu era a casa final de uma feiticeira-deusa poderosa que fora aprisionada pelos Tuatha dé Danann. Daracha fora incumbida pela própria Danu de cuidar do corpo aprisionado impedindo que ela escapasse ou fosse resgatada por seus súditos sombrios da sua prisão atemporal. Quando descobriam o esconderijo do corpo, ela tinha que se mudar. Dava preferência a antigas construções celtas ou bretãs que tivera alguma relação com o culto aos Tuatha dé Danann. Aquele salão era a construção mais ao sul que já havia encontrado.

Ela verificou se estava tudo em ordem, como fazia todas as noites. Os lacres mágicos que fechavam a lápide estavam intactos e a fina camada de poeira que havia sobre a pedra deixava claro que ninguém o tocara. Daracha estava pronta para ir embora quando uma leve brisa agitou o local fazendo com que as luzes dos archotes lançassem sombras fantasmagóricas sobre as paredes e o teto. Alguém havia aberto a porta.

A feiticeira escarlate se encolheu atrás do túmulo, onde não poderia ser vista por quem entrasse na câmara, mas dava a ela visão da única passagem que levava para o lado de fora. Quando a brisa passou e o fogo das tochas pararam de dançar, tudo parecia ter se aquietado. Ela aguardou, preparada para atacar quem havia profanado seu templo.

Conforme o intruso se aproximava, ela ouvia o som de algo metálico batendo no chão de pedra. Seus olhos se estreitaram na tentativa de enxergar no túnel, mas tudo que ela via era uma silhueta. Seus punhos retesaram e suas pernas se dobraram em preparação para o ataque surpresa.

As batidas na pedra sessaram quando um homem de sobretudo preto e tapa-olho dourado parou de andar. Ele segurava sua bengala de ponta de ferro com as duas mãos à sua frente e com o único olho que tinha vasculhava o ambiente. Daracha respirou fundo e levantou-se ao reconhecer o amigo.

— Boa noite, Theo. — disse ela.

— Dara, por que estava escondida?

— Pensei que podia ser algum intruso. — Ela respondeu. — Você não avisou que viria.

— Bom, eu estava passando por perto e decidi fazer uma visita. — Theophilus sorriu triste.

A feiticeira circundou o túmulo branco e foi para perto do amigo. Eles se conheciam há muitos anos e estava claro que Theophilus estava ali por motivos mais complicados do que uma visita.

— O que aconteceu, Theo?

Theophilus suspirou antes de falar.

— A Ordem Negra voltou à ativa no país. — Ele parecia escolher as palavras com cautela. — Pensamos que depois da derrota de Openhauer na América do Sul eles não voltariam, mas Hector descobriu que ele não era o único no comando.

— Quem mais está à frente da Ordem?

— O nome dela é Aghata. — disse ele. — Aghata Penwise.

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Theo e Dara, por Fernanda Fernandes.

Daracha encarou Theophilus esperando que aquilo fosse algum tipo de brincadeira sem graça, mas a expressão no rosto do homem não deixava dúvidas quanto a veracidade do que estava falando. Aghata era uma figura pública admirada por Daracha, operária que havia ficado conhecida por todos os cantos da Inglaterra ao lutar pelos direitos das mulheres trabalhadoras.

— Hector quase nunca está errado. — disse a feiticeira. — O que pretende fazer, Theo?

— Enfrentá-la. — Ele respondeu convicto.

— Não será nada bom para lorde Yardley enfrentar publicamente uma representante da classe operária. — Daracha comentou.

— É por isso que eu vou agir nas sombras. — Ele respondeu. — Mesmo que não prese pelo título, não posso colocar em risco o legado de meu pai. Também é por isso que eu preciso de sua ajuda.

— Eu vou ajudar, é claro que vou. — Daracha respondeu solícita. — Mas levará algum tempo até pensarmos em algum plano.

— É por isso que eu chamei mestre Yvan. — Theophilus sorriu. — Ele chegará em Londres pela manhã.

Daracha assentiu, Yvan Cataran era sem dúvidas uma das pessoas mais inteligentes que ela conhecera.  O processo para a criação de um bom plano seria encurtado pela metade e certamente que a ajuda do velho ilusionista viria a calhar em vários momentos.

Os amigos se despediram no beco do lado de fora da sepultura da bruxa e Daracha voltou para casa pelas escadas de incêndio. O sono veio fácil (estava cansada da faxina), mas não foi tranquilo. A conexão de Daracha com Tuatha dé Danann algumas vezes lhe rendia sonhos estranhos e enigmáticos que a alertavam sobre o futuro.

Naquela noite, ela sonhou que estava no topo da Torre de Londres e quando olhava na direção norte, via a cidade envolta em uma cortina sólida de fumaça negra. Ela podia ouvir os gritos das pessoas desesperadas fugindo de suas casas e o som de explosões que de vez em quando iluminava a densa fumaça.

Londres foi sumindo aos poucos de sua visão e então ela estava no alto de uma colina, bem no centro de um círculo de pedras. Uma mulher de olhos vermelhos como fogo e com o desenho de uma lua minguante gravada na cútis negra de sua testa lhe sorria maliciosamente. Quando Daracha olhou para baixo, viu que a mulher estava sobre grandes pedaços de pedras brancas.

A mulher piscou e tudo ardeu em chamas. Daracha fechou os olhos e colocou os braços na frente do corpo para tentar se proteger. Quando teve coragem de abri-los novamente, ela olhava para um jardim enorme e bem cuidado a partir de uma janela entreaberta. O vento fazia as cortinas brancas dançarem no ar como se fossem fantasmas. Alguém a chamou pelo nome.

— Daracha…

Quando ela se virou, viu que estava em um escritório conhecido. Os quadros nas paredes mostravam pinturas de homens que ela não conhecia, exceto por um deles que retratava um jovem sorridente de cabelos loiros e tapa-olho dourado.

— Senhora Yardley. — Ela cumprimentou a mulher que a chamou. — Eu sinto muito pela sua perda.

— Nossa perda, querida. — disse a mulher com os olhos marejados.

Daracha segurou na mão da senhora de olhos vermelhos e inchados. As duas então se abraçaram em silêncio. Algo fazia o peito da feiticeira vermelha arder e seus olhos não foram capazes de conter as lágrimas que caíam quentes sobre o tapete de veludo verde.

Quando ela despertou, o Sol já estava traçando seu caminho para o topo do firmamento tingindo o horizonte de vermelho. Os sonhos de Daracha a deixaram assustada e impediram que ela voltasse a dormir. Quando a manhã enfim chegou sobre Londres, ela já estava pronta para partir. Separara o dinheiro que deveria usar para pagar o aluguel à senhora Pherbepalds e guardara suas roupas e livros em duas maletas.

O relógio na parede da sala soou nove horas quando ela estava trancando a porta do apartamento. A senhoria já a esperava do lado de fora.

— Vai viajar, senhorita Chrisholm? — perguntou ela.

— Não, senhora Pherbepalds. — Daracha ofereceu-lhe um sorriso cordial. — Estou me mudando. Aqui está o pagamento do aluguel desse mês e dos próximos três. Espero que seja suficiente para encerrarmos o contrato.

A senhora pegou o envelope oferecido por Daracha e olhou o dinheiro no seu interior sem acreditar no que seus olhos viam. Ela então guardou-o dentro do roupão que usava e pegou a feiticeira de surpresa com um abraço. Quando Dara saiu do prédio, Theophilus já a esperava. Os dois embarcaram no automóvel e o motorista deu ignição colocando-se a caminho do porto. Ela voltaria à noite para transferir o túmulo da feiticeira-deusa.

Os amigos fizeram a maior parte da viagem em silêncio. Daracha estava preocupada com o que sonhara na noite passada e temia que pudesse se tornar realidade, temia por essa nova aventura em que eles embarcavam. Quando chegaram ao Tâmisa, se encaminharam até a plataforma onde Yvan deveria desembarcar.

O pequeno barco que trouxera Yvan até Londres chegou meia hora depois. O velho ilusionista desceu a rampa de madeira mancando enquanto sua perna mecânica rangia a cada passo. Carregava uma pequena maleta surrada com seus pertences.

— Preciso pingar um pouco de óleo nessa velharia. — disse ele. — Como vão, crianças?

— Mestre Yvan. — cumprimentou Daracha e Theophilus em uníssono.

— É um infortúnio que nosso reencontro se dê nas devidas circunstâncias. — disse ele sorrindo triste. — Mas isso não impede que eu fique feliz em vê-los saudáveis nessa cidade infestada por parasitas.

— O senhor parece mais forte do que eu, mestre. — disse Theophilus.

— Não é só aparência, rapaz. Eu sou mais forte que você.

Os dois riram.

— Me disseram que iriam se encontrar aqui. — disse uma voz atrás deles.

Quando se viraram, encontraram Hector apoiado em cima de um poste de ancoragem como se fosse uma gárgula. Ele sorriu ao ver os amigos, desceu e então se aproximou deles. Daracha odiava o cheiro de cigarro e água de colônia que o contrabandista exalava.

— Londres se tornou uma cidade perigosa para estarmos reunidos. — disse o velho Yvan. — É um milagre que ainda estejamos todos aqui, vivos.

— Os londrinos não nutrem paixões por mim, é verdade. — disse Hector. — Mas ainda gostam do que eu posso oferecer, então eu vivo bem.

— Senhores, vamos ao que interessa. — disse Theophilus. — Antes de começarmos a trabalhar, precisamos fazer uma coisa.

Theophilus olhou para Daracha e ela sorriu.

— Vocês conhecem o meu fardo. — disse ela. — Preciso da ajuda de vocês para transportar a sepultura para um novo local.

— Da última vez que fizemos isso, o seu ritual quase me matou. — comentou Hector.

— Bom, você confundiu as runas. Fuhu não é o mesmo que Ansuz! — Daracha se defendeu. — Mas não se preocupe, dessa vez não iremos usar um ritual mágico. Não queremos chamar a atenção da Ordem.

O grupo deixou o porto no carro de Theophilus e seguiu rumo ao norte da cidade. Ficariam na propriedade que os Yardley possuíam na região. A casa, embora fosse muito menor do que a mansão que a família possuía em York, não era nada modesta. Daracha preparou o porão da construção com runas escritas com seu sangue misturado a outros ingredientes mágicos para impedir que ele fosse profanado por entidades sobrenaturais ou espíritos perdidos.

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Noite em Londres, por STUDZ.

Quando a noite caiu sobre a cidade, eles já estavam prontos. Yvan conduziu a carruagem pelas ruas de pedra lisa até o beco onde Daracha encontrara o antigo templo que usara como esconderijo para o túmulo de sua prisioneira. Tudo estava como havia deixado na noite anterior.

Theophilus e Hector prenderam uma corda ao redor do túmulo e se colocaram em fila para puxá-lo pelo salão de pedra. Quando a lápide se moveu, runas brilharam em vermelho nas paredes e no chão. Daracha as apagava conforme elas apareciam, eram parte das proteções que ela colocara no antigo templo para impedir visitantes indesejados.

Já estavam próximos do corredor que os levaria até o beco quando ela apagou a última runa. As tochas que iluminavam o local perderam o brilho e todos foram tomados pela escuridão. Hector riscou um palito de fósforo na pedra e iluminou o local brevemente. Bastou essa fagulha para entenderem que aquele era o fim.

Três pares de olhos amarelados os encaravam. Quando o fósforo se apagou, a tensão pairou no ar. Haviam deixado suas armas na carruagem. Daracha então pegou um pequeno osso de pássaro de seu bolso e o estendeu à sua frente. Apertou-o em uma mão e quando ele quebrou, uma chama dourada iluminou o recinto.

As criaturas tinham a forma de lobos feitos de dor e desespero, vultos ávidos por consumir a energia dos três amigos. Seus grandes olhos amarelos não passavam de órbitas vazias sensíveis à claridade. A luz de Daracha parecia feri-los. Eles se afastaram e se puseram contra a parede. Aquelas criaturas costumavam ser usadas por bruxos e feiticeiros em tempos imemoráveis. Se eles serviam a algum senhor, esse era um mistério que Daracha não estava nem um pouco interessada em descobrir naquele momento.


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