Fatalidade ou Desilusão

Estamos em Maceió, Alagoas, região Nordeste do Brasil. Lugar de belezas naturais incomparáveis; contudo, não é disso que vim falar nesse momento.

Relato um caso ocorrido no bairro do Prado. Bairro centralizado, ficando localizado entre a Lagoa Mundaú, o centro comercial de Maceió e a praia do Sobral. Era uma região de boemia e encontro da elite por causa de um hipódromo que havia no lugar, e diversos bailes em casa de festa e bares acontecendo todos os fins de semana, por volta dos anos 30, do século passado.

Hoje em dia, aquela área urbana não chega a ser um vulto do que já foi no passado. Encontra-se relegado às classes desfavorecidas, reduto daqueles que precisam de moradia barata, e de outros que buscam esconder-se das autoridades ou inimizades. Espaços naturais ocupados, que em outros tempos foram de manguezais e mata nativa; mas que nesses últimos cinquentas anos foram convertidos em moradias improvisadas de pescadores e catadores de sururu — esse último é um molusco abundante na região da lagoa, espécie resistente a todo tipo de esgoto advindo da parte alta da cidade, desaguado no escudo d’água, que apesar de tudo, persistem em beleza e exuberância.

Mesmo em meio a toda degradação descrita, persistem em morar no bairro do Prado os descendentes das famílias antigas, ricas e tradicionais de outras épocas. Hoje em dia, vivem enclausurados em casas de fachadas antiquadas, edificadas em moldes em desuso, antigas e enegrecidas pelo tempo e falta de recursos dos donos. Seus proprietários, sufocados entre prédios de quinze andares e comércios barulhentos; e é de uma dessas decadentes famílias que falarei.

Senhor Clodoaldo Barbosa nascera e crescera no bairro do Prado, constituirá família e tivera filhos, todos criados naquele bairro. Morava em uma casa antiga que herdará ainda na juventude. Sua esposa, Valdira Callado, concebera quatro filhos: três rapazes e uma moça.

Os filhos lhes trouxeram felicidade enquanto crianças e jovens; mas quando crescidos, as coisas mudaram. Cada filho constituiu sua própria família, — algo natural — porém, afastaram-se de tal modo que era com pouca frequência que visitavam seus velhos pais. Ao menos Clodoaldo e Valdira tinham um ao outro, cúmplices de um amor verdadeiro e fiel.

Mas a certa altura da vida, Valdira foi diagnosticada com Alzheimer, Clodoaldo a apoiou sem medir esforços.

À medida que os anos se passavam, o quadro de saúde de Valdira se agravava. A casa antiga e de grandes medidas estava plenamente a cargo de Clodoaldo, que não queria empregados nem ajudantes. Dos banheiros ao pátio, passando pelos serviços de cozinha e lavagem das roupas, tudo se tornara incumbência do pobre marido. Apesar das dificuldades, ele não reclamava, apenas cumpria suas obrigações com zelo e dedicação.

Em certa ocasião, um dos filhos do casal apareceu para lhes fazer uma visita, enquanto conversava com o pai, a mãe observava os dois com atenção, reconheceu o filho, e quando não, na pior das hipóteses, não lhe dirigia a palavra. Mas com o marido o problema era outro, tornara-se agressiva. No momento em questão, ela se levantou da cadeira, caminhou com certa dificuldade até próxima do marido, de forma repentina, deu-lhe uma bofetada no rosto, em seguida, lhe dirigir um impropério. Clodoaldo permaneceu em silêncio, lagrimas lhe vieram aos olhos, mas ele suportou o injusto castigo da inocente esposa carente da razão.

Aquele episódio se repetiu inúmeras vezes diante de outros membros da família e amigos próximos.

Por vezes, Clodoaldo passava por algum dos inúmeros corredores da casa, acreditando estarem vazios, quando de repente, de algum lugar, surgia Valdira, que o ofendia e ameaçava bater. Aquilo era de partir o coração, de esfriar a maioria dos amores; qualquer pessoa poderia justificar-se por esse fato para assim abandonar seu ente a quem jurara amor e fidelidade. Com tudo, havia momentos de lucidez onde a esposa o acordava no meio da noite, lhe jurava amor eterno e pedia perdão. Tudo isso para em seguida, no raiar do dia, despertar puxando seu lençol e lhe agredindo.

Os filhos, em rara ocasião, se reuniram a Clodoaldo. Mas em certa ocasião, organizaram um almoço, e parecia que as coisas mudariam a partir daquele momento. Estavam todos felizes e satisfeitos, filhos e netos reunidos à mesa quando algum dos seus descendentes diretos lhe sugeriu a internação da esposa em uma casa de saúde.

Clodoaldo permaneceu calado, taciturno. Dedicando sua atenção e carinho aos seus netos pequenos, estes ele adorava.

Foi no fim daquele encontro familiar, quando estavam presentes somente os seus filhos, que Clodoaldo desabafou: “Eu cuido da mãe de vocês! No dia em que eu não puder fazer isso, mato ela e me mato em seguida!”. Dito isso, todos foram embora, seguiram com suas vidas, distanciados dos pais.

Certa manhã, um dos seus filhos, o caçula, que residia em Salvador, e que não o via há meses, ligara para ele. Conversaram por quase uma hora; em meio ao diálogo, o filho entrou no assunto da cisterna da casa dos pais, chegava à época que precisava ser lavada — quase uma tradição entre eles. Clodoaldo afirmou poder resolver esse problema sem ajuda. O filho insistiu que o pai o aguardasse, pois ele passaria o mês de Janeiro com ele, estaria de férias durante esse período. Clodoaldo acabou concordando.

O Natal de 2018, Clodoaldo havia passado em casa na acompanhada da sua esposa, assistindo televisão. Seus filhos deviam estar muito ocupados, nem mesmo um telefonema lhe dignaram.

Durante a semana posterior ao Natal, certo primo que gostava muito dele, lhe fez uma visita. Após conversa animada, seu primo quis saber o porquê dele não ter comparecido a ceia organizada pelos seus filhos. Clodoaldo, envergonhado e triste, disfarçou os próprios sentimentos, alegou que sua pobre esposa estava resfriada, e preferiu ficar em casa.

Depois de se despedirem, Clodoaldo se trancou no banheiro, chorando em segredo.

Foi no último dia do ano que Clodoaldo decidira limpar a cisterna, estava no nível ideal fazia dois dias.

A cisterna a que me refiro, era um retângulo delineado por tijolos cozidos e cimento. Atendia as necessidades da família havia mais de sessenta anos, exigindo somente limpeza regular. Tinha pelo menos uns sete metros de profundidade, tão amplo quanto um quarto de casal. A única entrada de que dispunha, era uma escotilha de pedra por onde se podia descer uma escada. Seu sistema de enchimento era simples, quando a água atingia certo nível, uma boia impedia o acesso de mais água ao sistema. Localizava-se no fundo do casarão, próximo ao muro, sendo rodeada por arbustos, era talvez o espaço da casa menos visitado por seus moradores.

Para a ocasião da limpeza, semanas antes, Clodoaldo fechava o registro de entrada de água, e usava o restante que ainda permanecia na cisterna até baixar a determinado nível, onde assim, poderia realizar a limpeza, concluindo com descarte dessa sobra.

Logo cedo, Clodoaldo posicionou a escada, e desceu para iniciar o trabalho. Apesar de já ter superado os setenta anos de idade, e de sofre com o glaucoma, era um homem ativo, que tinha orgulho de resolver seus problemas ele mesmo. Passadas duas horas, o trabalho estava quase terminado. Restando limpar a passagem de água junto à boia, o que fazia com a ajuda de uma vassoura de cabo longo.

Para esse último esforço, afastava o tampão do cano, e friccionava o local com a prodigiosa vassoura. Foi justamente quando realizava o movimento de retirada do tampão, que uma tomba d’água desabou sobre sua cabeça, logo, a cisterna começou a encher. Quando Clodoaldo conseguiu ficar de pé, a água quase chegava ao seu peito. Ele se dirigiu a escada, — já era tarde — a escada, que era longa o suficiente apenas para que se pudesse chegar ao fundo da cisterna, havia escorregado e boiava.

Clodoaldo começava nadar, sabia que teria de aguardar o nível da água atingir o patamar mais elevado, para só assim, poder sair pela passagem…

Vizinhos ouviam o insistente bater da água no interior da cisterna, o que não era motivo para preocupação. Mas quando uma torrente começou a escoar pelo pátio da casa, e avançar pela rua, as pessoas começaram a desconfiar de que havia algo errado.

Chamaram na porta, mas ninguém respondeu.

Valdira passeava pela casa, dizia que estava com fome.

Ao invadirem a residência de Clodoaldo e Valdira, se depararam com a cisterna que transbordava, o marido estava nela, sem vida. Segundo os bombeiros e a polícia, o pescoço da vítima foi apanhado pela escada que avançava de qualquer direção por sobre a água agitada. Preso pela garganta, pressionado contra o teto de cimento, Clodoaldo se afogou.

Alguns dos amigos e familiares levantaram a hipótese de suicídio, pois Clodoaldo não possuía inimizades. Ele próprio havia aberto o registro, voltando para a cisterna na certeza de que morreria.

De fato, o registro de passagem de água precisava ser aberto. Mas até agora, não se sabe por quem.

Finalmente, o anjo da guarde de Valdira, esse também, seu fiel companheiro e marido, a deixara para sempre.

A pobre mulher, sem memória, não deu por falta do companheiro. Em lugar do marido, estavam junto dela, a filha e a nora para cuidar dela até que a família decidisse o que fazer.

A velha casa, de grande, pareceu maior ainda sem a presença de Clodoaldo, que lhe fazia serviços e retoques em tempo integral.

Era algo estranho para as cuidadoras de Valdira — a filha e a nora — estar naquele lugar no qual mal punham os pés faziam meses. Havia discreta sensação de sufocamento e desconforto, os corações daquelas estranhas pareciam dizer-lhes para partir. Não se sentiam bem-vindas, pois a mãe-sogra as tratava com indiferença, como se estas fossem suas empregadas, e como tal, precisavam apenas ser toleradas.

A melancolia e a tristeza eram os sentimentos que predominavam.

Em certa ocasião, a filha de Valdira estava em um dos numerosos cômodos do piso térreo, quando, de relance, teve a impressão de ter visto um homem que avançava ligeiro pelo corredor. Assombrada, a mulher correu para o corredor. Para sua surpresa, o corredor não estava vazio. Era sua mãe, que se encontrava de pé, em meio a uma pequena sala ao fim daquela passagem.

Valdira encarava o nada, quando, subitamente, seus pequenos olhos focaram em algo no corredor, a pobre mulher berrou uma ofensa, desferindo uma tapa em pleno ar, como se tentasse em vão atingir um rosto.


Assinatura_Crônicas - Ricargo Old Folk-09

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