Skaron — o pacífico

Skaron foi um personagem que eu criei quando a Manoela, aqui do Crônicas, me falou sobre uma personagem tiefling que ela tem chamada Margoth. Eu nunca havia dado muita atenção a essa raça, mas fui pesquisar mais sobre e achei bem interessante. Esse personagem inaugura uma nova série de personagens que vou apresentar aqui que possuem seus backgrounds conectados por um “mentor” comum, a quem dei o nome de Colecionador e que foi inspirado em um espírito guardião de Avatar – A lenda de Aang.


 

 

Pacificador

Skaron ouviu o barulho de risadas enquanto caminhava pelo bosque. Ele subiu em uma árvore próxima e enrolou sua cauda em um galho para equilibrar-se. Lá de cima ele viu crianças humanas brincando com galhos secos como se fossem espadas. Era a primeira vez que via humanos tão pequenos, não faria mal se chegasse mais perto.

Ele desceu da árvore e caminhou sorrateiramente até perto de onde elas brincavam. Escondeu-se em um arbusto e ficou observando o duelo travado entre os pequenos. Mais próximo a ele, um garoto loiro desferira um golpe fatal no seu colega duelista. A encenação da morte do seu oponente era engraçada: o menino girou sobre os próprios pés e caiu deitado na grama com a língua para fora da boca e os braços esticados.

Skaron riu mais alto do que deveria e os humanos perceberam a sua presença no arbusto.

— Quem está aí? — O garoto loiro estendeu o graveto na direção do arbusto. — Revele-se agora!

O coração do pequeno tiefling acelerou. Ele não tinha permissão para falar com humanos, seus pais o haviam proibido. Era perigoso, mas que mal um humano pequeno com um graveto poderia lhe causar? Ele levantou-se e deu um aceno tímido com a mão. As crianças gritaram e correram assustadas, menos o rapaz de cabelos amarelos, este permaneceu firme.

— Quem é você? — perguntou o humano.

— Meu nome é Skaron. — respondeu o tiefling. — E o seu?

— Meu nome é Dalton Galleryn. — O rapaz deixou o graveto cair no chão. — O que há de errado com você? Está doente?

A pele de Skaron era acinzentada. Certamente Dalton nunca havia visto um tiefling antes.

— Não tem nada de errado comigo. Não estou doente.

— É que eu nunca vi ninguém assim.

— Eu não sou como você, sou um tiefling.

— O que é um tiefling? — Dalton era curioso.

— Somos pessoas com cores diferentes. — Skaron respondeu inocentemente.

— E você também tem uma cauda.

— Ah sim, verdade. — Skaron sorriu. — É muito útil para subir em árvores.

— Eu aposto que consigo subir no topo daquela árvore mais rápido do que você, mesmo sem ter uma cauda.

— Não consegue não.

A tarde se desenrolou com os dois garotos brincando de subir em árvores. Apesar da cauda ser um ponto a favor de Skaron, ele era desengonçado. Dalton, por sua vez, parecia ter mais experiência e ganhava todas as vezes em que Skaron pedia revanche. Os garotos só se despediram quando o Sol estava se pondo.

— Tenho que ir, meus pais não gostam que eu fique fora de casa à noite. — disse Dalton.

— Eu também.

— Você vai vir aqui no bosque amanhã à tarde? Pode brincar de espadas comigo e com meus amigos.

Skaron assentiu e sorriu. Os dois se despediram e seguiram caminhos opostos para suas casas. Apesar de estar cansado, o tiefling não conseguia dormir pensando no garoto humano que havia conhecido. Ele não era nada perigoso como seus pais diziam. Talvez os humanos não fossem seres ruins afinal.

No dia seguinte, quando Skaron chegou no bosque, Dalton estava sozinho, não havia sinal das outras crianças.

— Eles não puderam vir. — disse Dalton.

— Tudo bem. Ainda quer brincar?

Os dois garotos passaram a tarde brincando com galhos secos transformados em espadas. Dalton ensinou a Skaron como manejar a arma e os conceitos básicos da esgrima e do duelo, segundo havia contado ao recente amigo, era filho de um paladino e o pai lhe ensinava a duelar com espadas de madeira quando estava em casa.

O tempo passou e a amizade entre os garotos cresceu. Fizeram daquele bosque um santuário, um lugar seguro para se encontrarem e compartilharem experiências. Quando se tornaram adolescentes, sabiam bem que aquela amizade era praticamente impossível de existir além daquelas árvores. Dalton avançava cada vez mais no seu treinamento para se tornar um paladino enquanto Skaron ajudava seus pais a cuidar da pequena plantação de vegetais que tinham. Eles pertenciam a mundos diferentes.

Apesar disso, quando estavam no bosque, as diferenças eram ignoradas e os amigos mergulhavam em uma realidade onde eram iguais. A confiança e o respeito eram mútuos. Skaron havia ficado bom em manejar uma espada de madeira, mas seu treinamento informal não permitia que ele chegasse ao nível de Dalton.

Quando os garotos estavam prestes a completar vinte anos, as coisas começaram a mudar. Dalton estava quase pronto para fazer seu juramento de paladino e seu pai havia intensificado seu treinamento nos últimos meses, fazendo com que eles raramente conseguissem se encontrar. Por outro lado, a vida pacata que Skaron levava com seus pais se mantinha a mesma. Todas as tardes o tiefling esperava pelo seu amigo sob a sombra de alguma árvore, pensando em quais novidades Dalton iria contar sobre o treinamento ou qual novo golpe iria lhe ensinar.

Acontece que com o tempo, os dois deixaram de se encontrar. Dalton fez seu juramento como paladino e foi cumprir sua primeira missão, deixando o amigo sem saber. A amizade que florescera entre eles acabara esfriando e se transformando em pó.

Skaron agora vendia o que ele e seus pais produziam. Geralmente seus fregueses eram outros tiefling, anões ou viajantes. Os humanos que viviam na vila tinham medo de comprar deles, como se fossem contrair alguma doença que faria chifres e uma calda crescer.

Havia se passado um dia comum no mercado quando o Sol se punha. Skaron vendera toda a mercadoria aquele dia. Já estava voltando para casa quando esbarrou sem querer em um homem gordo, outro comerciante.

— Fique longe de mim, sua criatura impura! — O gordo o derrubou no chão.

A bolsa de pano que Skaron carregava com o dinheiro das vendas daquele dia se rompeu e as moedas se espalharam pelo chão. As pessoas se aglomeraram ao redor para ver o que estava acontecendo.

— De quem você roubou isso, seu ladrão? — esbravejou o comerciante. — Não tem como um tiefling ter todo esse dinheiro.

Skaron estava assustado e tentava recolher as moedas do chão antes que as perdesse, mas o homem o acertou com o chute na barriga que fez seu estômago revirar. O tiefling se encolheu no chão devido a dor e permaneceu naquela posição para se proteger de potenciais investidas de seu agressor.

— Senhora, é melhor ver se o seu dinheiro não foi roubado. — disse o comerciante para uma mulher próximo a ele. — Todos devem olhar. Esses imundos não são honestos, vivem para nos roubar.

A multidão começou a olhar seus pertences e murmurar afrontas para Skaron. Alguns o chamavam de ladrão, outros de amaldiçoado e outros ainda se referiam a ele como demônio. As pessoas só se acalmaram quando três homens de armadura e lança em riste atravessaram até o centro da multidão. Um deles carregava um estandarte branco com uma flor vermelha no centro.

O som de metal contra pedra ecoou aos passos de um quarto homem quando ele se colocou no centro da multidão. Ele usava uma armadura dourada completa com adornos verdes e uma capa branca que exibia o mesmo brasão do estandarte.

— O que está acontecendo aqui? — perguntou o homem sob o elmo.

— Um tiefling ladrão, senhor. — disse o comerciante gordo. — Olha só o tanto de dinheiro que ele carregava consigo.

O homem encarou Skaron no chão e então tirou o elmo. Seu cabelo era tão dourado quanto a armadura. O tiefling sorriu ante a presença do amigo, era bom reencontrar Dalton, mesmo que a situação fosse aquela.

Os dois permaneceram se encarando em silêncio. Ambos haviam crescido, estavam diferentes de quando se encontraram pela última vez. Em vez de lhe estender a mão, Dalton desembainhou a espada de metal dobrado e aproximou sua lâmina do pescoço de Skaron. A multidão prendeu a respiração por um tempo e então começaram a gritar pedindo que o paladino matasse o tiefling.

Skaron sentiu o coração bater descompassado e sua respiração acelerar. Embora ele acreditasse que o amigo jamais lhe faria mal, a expressão no rosto de Dalton inspirava-lhe certa desconfiança deixando-o nervoso. Havia algo no olhar do amigo que lhe dava medo.

— Prendam-no. — ordenou Dalton. — Já passou da hora de expurgamos essa escória de nossa cidade.

O paladino recolheu a espada na bainha e dois dos guardas que lhe acompanhavam pegaram Skaron pelos braços. A multidão deu espaço para que passassem com o tiefling enquanto repetiam a fala de Dalton como um mantra.

Skaron fora jogado em uma cela fedorenta onde ficou por dias seguidos, mergulhado na escuridão. Não levavam para ele nem as sobras de comida. Skaron chegara a pensar que morreria de fome naquele lugar. Ser culpado injustamente e privado de comida não doía tanto quanto ter sido traído pelo seu amigo, o único humano em que confiara durante toda sua vida.

Imaginar seus pais sozinhos, sem o dinheiro da venda daquele dia, também o entristecia. O que será que pensam ter acontecido com ele? Será que foram até o mercado atrás dele quando perceberam que era tarde da noite e ainda não havia voltado? Seu sono naquela noite foi turbulento. Ele só despertou quando chamaram seu nome.

— Skaron! Skaron!

Ele abriu os olhos. Demorou um pouco para que se acostumasse com a claridade. Era Dalton que o chamava, mas dessa vez usava roupas comuns em vez da armadura.

— Dalton…

— Eu sinto muito por ter feito isso, Skaron. — Dalton colocou o archote na parede atrás dele e sentou-se no chão ao lado da cela. — Eu não podia fazer diferente, entende?

— Você acha que eu roubei aquele dinheiro?

— Eu sei que não roubou.

— Então eu não entendo.

Os dois se encararam, Dalton parecia envergonhado.

— Se o tivesse deixado livre, iriam atrás de você e sua família. — disse ele. — Eu vim te tirar daqui. Seu julgamento está marcado para amanhã.

— Eu sou inocente, quando me julgarem serei liberto.

— Você confia mesmo na justiça dos homens? — Dalton se levantou e tirou a chave da sela de um bolso. — Somos todos falhos, Skaron. Usamos a justiça para servir aos nossos próprios interesses. Você irá morrer amanhã.

Dalton abriu a porta da cela e deixou o caminho livre para Skaron.

— Isso não vai funcionar. Vão atrás de mim e se não me pegarem, vão atrás dos meus.

O paladino assentiu.

— Pelo menos assim terá a chance de sobreviver, mas a escolha é sua.

Skaron pensou por um momento, não sabia se podia confiar em Dalton. O olhar do paladino estava diferente de quando se encontraram no mercado dias atrás. Se era a morte que o esperava na manhã seguinte, então ele iria arriscar.

O tiefling deixou a prisão escondido e com a ajuda do paladino, conseguiu retornar para a mesma floresta onde os dois costumavam brincar quando eram crianças. A lua lançava sua luz entre as folhas formando sombras dançantes no chão.

— Você está certo que vai me deixar fugir? — perguntou Skaron.

— Nunca estive tão certo de algo na minha vida. — disse Dalton. — O que vai fazer agora?

— Não posso voltar para meus pais, porque se for pego, também matarão eles. —Skaron olhou triste na direção onde ficava sua casa. — Queria ao menos ter tido a chance de me despedir.

— Eu cuido deles. — disse Dalton. — Vou protege-los, palavra de paladino.

— Posso confiar em você?

— Nunca te prometi nada que não fosse cumprir.

Os amigos se abraçaram. Não era um abraço de despedida, mas uma promessa de que se encontrariam de novo.

Skaron deixou a floresta com os olhos marejados. Estava na hora de traçar um novo rumo para sua vida. Não esperava que aquilo fosse acontecer de forma tão súbita, mas ele acolheu seu destino e deixou sua cidade natal rumando sempre para o leste. Ele seguiu por dias seguidos dormindo o mínimo possível e parando apenas para se alimentar.

— Você parece precisar de ajuda. — disse uma voz suave como seda enquanto Skaron bebia a água de um lago.

A repentina companhia o pegou de surpresa, quase fazendo com que ele engasgasse. Um outro tiefling de pele clara e cabelos negros balançava freneticamente sua cauda enquanto sorria para Skaron.

— Quem é você?

— Pode me chamar de Colecionador. Vamos, eu vou te levar até minha casa. Tenho muita comida lá, posso dividir com você.

Skaron não discutiu, estava morrendo de fome. Havia dias que não conseguia caçar ou pescar nada. Ele seguiu o Colecionador por entre as raízes das árvores até as ruínas de um antigo templo cercado por ervas daninhas. Ele foi conduzido por entre as pedras caídas até uma escada que levava ao subterrâneo do templo. Para surpresa de Skaron, ele se encontrava agora em um grandioso salão iluminado por archotes nas paredes. Várias portas de madeira conduziam a outros aposentos.

O Colecionador o levou através de uma dessas portas onde uma grande mesa estava preparada com comidas e bebidas tão fartas que Skaron não sabia por onde começar a comer. Os dois passaram a noite na sala até que estivessem fartos pelo grandioso banquete. O Colecionador contava sobre todos os tesouros que havia acumulado sob as ruínas daquele templo.

— Você pode ir onde quiser e ver todos os meus tesouros, mas só vou compartilhar com você um deles. O mais precioso, venha ver.

Skaron e o Colecionador deixaram a sala do banquete e atravessaram outra porta no grande salão. Eles estavam agora em uma biblioteca catedrática com livros e pergaminhos que preenchiam todas as estantes do piso ao teto.

— Essa é minha coleção de magia. Vou deixar que você use todos esses livros e pergaminhos para aprender as magias que desejar.

— Aprender magia? — Skaron estava confuso.

— Você precisa de minha ajuda, eu o observei enquanto dormia e acredito que você tenha uma missão nobre, jovem tiefling. Aliás, você não me disse seu nome.

— Me chamo Skaron.

— Skaron? Bom, eu vou te chamar de Pacificador.


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