A Menina Submersa: Memórias

Título: A Menina Submersa: Memórias | Autor:  Caitlin R. Kiernan | Editora: Darkside | Gênero: fantasia | Páginas: 320 páginas | Ano de publicação: 2012 | Nota: 4,5/5


Antes de qualquer coisa, quero fazer um alerta importante: se você está passando por momentos difíceis, não leia o livro aqui comentado. O conteúdo pode ativar os chamados trigger warnings ou gatilhos para pensamentos ruins.


Feito este alerta, vamos à resenha!

A maioria das pessoas tem uma boa relação com sua memória. Elas conseguem reunir experiências numa narrativa cronologicamente ordenada e contar a outros sobre o que viveram em algum momento do passado. Isso parece bastante plausível, certo? Sim, mas como apontado, isso acontece apenas para a maioria das pessoas. Existe uma minoria para a qual a memória pode ser um martírio.

É a essa faceta do universo que Caitlín R. Kiernan nos traz. Em A Menina Submersa: Memórias, uma de suas obras mais aclamadas, a autora nos apresenta um mundo recortado por dramas específicos, que apesar de sua identidade definida, carregam também questões universais que embalam o leitor até o fim. Elogiado por Neil Gaiman, que foi um dos leitores beta de Kiernan, o livro ganhou cerca de seis prêmios literários, dentre eles, o Bram Stoker e o Nebula, muitíssimo cobiçados.

A história é narrada por India Morgan Phelps, ou como ela própria se apresenta, Imp. India é uma jovem que sofre para lidar com a esquizofrenia, e que usa vários mecanismos para organizar suas memórias, suas perdas e principalmente, seus fantasmas. O que lemos é o livro que Imp decidiu redigir para “aprisionar” essas assombrações e se livrar da influência delas em sua vida.

Imp nos explica que tem alguns tipos de monstros diferentes perturbando sua mente: as sereias, os pintores, a herança familiar e o descompasso entre suas lembranças e a realidade. Desde pequena, ela tem enorme interesse por histórias de sereias em livros, quadros e canções, e ao mesmo tempo, demonstra total pavor de Chapeuzinho Vermelho e suas derivações.

Nós acompanhamos na escrita de seu livro uma de suas maiores dificuldades e o ponto alto da narrativa construída por Kiernan: é muito difícil para a nossa protagonista definir o que é real e o que é fantasia em suas memórias. São tantos reboots, que Imp nos desafia a continuar coletando evidências para descobrirmos quais elementos de sua vasta rede de fatos são reais. Além disso, ela nos coloca numa posição muitíssimo filosófica: o que é a realidade? Se acreditamos em algo, isso o torna real?

Apesar dessa faceta do questionamento sobre realidade/fantasia, essa história é sobretudo, sobre fantasmas e sua possível existência. Caitlín consegue segurar essa dúvida até o final, enchendo-nos a cada capítulo de mais e mais referências, a ponto de não sabermos o que fazer com elas. É uma narrativa de idas e vindas que enriquece muito o tema da saúde mental e de como alguém com o quadro de Imp teria de fato que encarar muitas barreiras pessoais para conseguir exorcizar esses espíritos.

Considero como um dos pontos altos dessa narrativa o fato de Kiernan trazer como relacionamento central da obra o namoro de India com Abalyn, uma mulher trans. Os diálogos de ambas são uma ode à diversidade e uma apresentação honesta de um relacionamento amoroso, que passa por agruras cotidianas, sem grandes eloquências ou “textão”.

Outro ponto positivo é como a autora entrelaça pintura, música e cinema ao livro, criando várias imagens importantes em nossa cabeça leitora, e PASMEM, tem muitas coisas INVENTADAS pela Caitlín. Imagina ter o talento de criar um pintor em sua biografia e portfólio só para ancorar sua história de fantasmas?

Uma última provocação da autora é: as histórias “oficiais” que ouvimos correspondem de fato ao que realmente aconteceu ou elas são as histórias possíveis, as histórias que as pessoas puderam lembrar?

O ponto alto, que também pode ser considerado baixo por alguns (daí a nota 4,5), é o formato da narrativa. Kiernan consegue reconstruir com maestria as idas e vindas de uma narradora que luta com a esquizofrenia, mas isso lhe custa algum fôlego. Há momentos em que a narrativa se perde nos surtos de Imp e que fica difícil acompanhar os próximos passos.

É um livro corajoso e original, que merece desafiar muitas pessoas a uma aventura pelo complicado mundo da mente humana. Deem uma chance, vocês vão gostar de ouvir o canto da sereia!

Você pode encontrar o livro “A Menina Submersa: Memórias” aqui.


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