Joshua – O Barão de Opus

Parte 1

Encontrava-se em um aposento, um homem de vestimenta negra, repousava preguiçoso em uma confortável cadeira de madeira de aspecto rústico, de estrutura pesada. Ele tomava assento por detrás de uma escrivaninha, sobre esta, um extravagante candelabro de prata para uma solitária vela, único ponto luminoso no recinto. O cômodo era oval, continha uma única janela que se encontrava trancada, o vento a fazia reverberar perante seus golpes em rajadas.

O sujeito estava imerso em pensamentos, atento ao vazio de uma de parede. Ele era alto e magro, de tez pálida, e rosto bem proporcionado. Seus traços se completavam com uma postura elegante, como se esperasse para ser enquadrado por um importante fisionomista. Seu rosto se igualava ao de um anjo, com seu nariz e boca pequenos, de proporções ideais para os padrões representados pelos escultores. Seus olhos negros eram perturbadoramente profundos, guarnecidos por sobrancelhas quase retas, que pouco ou nada revelavam do seu estado de espírito, como se o rapaz estivesse em indefinito estado de reflexão. E por fim, suas madeixas eram conservadas longas, e eram negras como a noite, similar a um véu que lhe escorria pelas espáduas até terminava nos quadris.

Este era o Barão Joshua, de Opus.

Seus olhos de opala rumaram para algo no piso, a sua frente, havia um jovem casal; largados no piso, sem vida. Seus rostos estavam assustadoramente pálidos, junto com lábios escuros, indicavam que todo o sangue de seus corpos havia sido retirado de alguma forma. Para o homem que os observava com sádico interesse, aquilo devia ser necessário para levar adiante seus engenhos durante aquela noite congelante de inverno.

Abandonou a sala escura, descendo por uma escadaria em espiral, atingindo um corredor estreito, todo o ambiente pelo qual passara estava envolto por completa escuridão, mas Joshua caminhava pelo lugar despreocupado, devia enxergar perfeitamente.

Após um curto período pelo lúgubre trajeto, Joshua se detivera junto a uma parede, tocando-a com ambas as mãos; seguiu-se o ruído de grande rocha sendo arrastada; em seguida, o Barão mergulhou por uma passagem oculta, descendo por outro lance de escadas estreitas até alcançar o que seria uma masmorra. Esse, um lugar repleto de inúmeras celas com suas barras espeças, paredes negras e úmidas. Parecia averiguar a quantidade e a qualidade dos encarcerados que tinha em seu poder, para fazer deles o que bem quisesse — estava abarrotada deles.

Ocasionalmente, costumava encarcerar todo àquele que se opunha a sua vontade, assim como aos criminosos e os raros forasteiros que ousassem adentrar seu território sem se anunciarem, tendo que justificar sua presença. Muito raramente algum dos prisioneiros era vistos novamente. Pessoas próximas aos apenados recebiam uma carta oficial informando a transgressão e a punição, que muitas vezes culminava no exílio ou em trabalhos forçados nas minas de Carlyle. Execuções públicas não ocorriam. O que de fato acontecia: o Barão consumia suas vítimas e desovava seus restos em abismos no fundo de cavernas; enquanto outras eram arrastadas para uma das suas inúmeras câmaras secretas, onde realizava experimentos que consistiam em testar suas habilidades sobre-humanas contra os condenados.

O tirano havia mobilizado quatro dentre os mais fortes e confiáveis dentre os seus mercenários. Aos pares, retiravam das celas e arrastavam prisioneiros para uma sala ao fim do corredor, por onde eram suspensos pelos tornozelos e sangrados até o limite da vida com a morte; não bastando, em seguida, os quase mortos eram forçados a entornar um líquido negro de um dentre muitos vasos de cerâmica estocados na sala imunda, que cheirava a carne e sangue. Após o consumo do líquido, a vítima mergulhava em um estado de entorpecimento. Os corpos adquiriam um aspecto pálido, arroxeado, ou verde. Podendo o corpo enxague ser dados como mortos, contudo, um olhar minucioso revelava uma fraca respiração, assim como funções vitais mínimas.

O líquido de aspecto betuminoso era o sangue de Joshua; envasava por ele próprio, deixado escorrer livre através de um profundo ferimento a faca em seu pulso. A torrente negra e viscosa que caia nos vasos se encerrava toda vez que nova carga humana chegava ao tenebroso aposento, conduzida pelos seus lacaios.

Sangradas e forçadas a ingerir todo o tenebroso conteúdo, assim Joshua procedeu durante toda a noite, auxiliado a todo o momento pelos quatro silenciosos capangas.

Ao todo, havia contaminado mais de quarenta prisioneiros. E ainda havia outros tantos a passar pelo terrível processo.

Seus corpos eram depositados ordenadamente em gavetas de pedra, em uma única gaveta, poderia conter de três a sete corpos. Mas antes que fossem guardados, todos eram inspecionados pelo cruel Barão; o que buscava ao encará-los, uma a uma, as faces doentes das suas vítimas, era impossível concluir.

E quando chegada a poucas horas do amanhecer, Joshua escorria para seu degradado aposento, sobre uma torre de única janela, na qual havia somente uma janela que nunca era vista aberta.

Já em seu aposento, o déspota empurrava uma pesada porta de ferro, — único acesso ao quarto — girava sua tranca barulhenta com uma enorme chave presa a um imenso molho delas.

Mais uma vez, encarou o par de corpos abandonados no piso, parecia que haviam morrido congelados. Trajavam roupas simplórias típicas dos desafortunados camponeses. Gastou mais algum tempo de pé, ao lado deles, observando-os no mais completo silêncio.

Como dito, como uma estatua de mármore, nada revelava de si mesmo. Em seguida, pousou seu braço esquerdo às costas, enquanto que, com a mão direita roçava o próprio queixo, liso e delicado.

Mas então, de algum lugar do aposento, se ouviu o barulho de tecido tremulando ao vento. Em seguida, surgiu de uma parede ao lado da cama, um ser de contorno humano, mas propriamente constituído de escuridão, um ser que se movia devagar, ganhando espaço no aposento gradualmente. Dirigiu-se aos mortos no piso.

Joshua assistiu a tudo impassível. Parecia que aquilo uma obra sua, e que de fato era fruto da sua vontade. Ele era um Imortal, seu sangue negro junto com a linhagem que o precedia o permitia controlar a escuridão como se esta fosse uma substância materializada, e que agia conforme os desígnios do seu conjurador.

Por fim, a sombra apanhou os corpos, ignorando completamente seus pesos, para em seguida, regressar à parede da qual havia surgido instante antes. Assim desapareceu, mergulhando com os mortos no que parecia uma poça negra de superfície pastosa.

Joshua, agora inteiramente só, se dirigiu a cama, onde caiu pesado sobre um colchão de palha mofado, sem cobertor ou travesseiro.

Aquilo lhe bastava.

Ele adormeceu.


Assinatura_Crônicas - Ricargo Old Folk-09

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