Yvan Cataran — O ilusionista

Quando decidimos jogar o RPG Filhos do Éden, de Eduardo Sphor, combinamos algumas coisas antes de criar nossos personagens. A primeira, é que todos deveriam ser humanos (essa foi uma exigência do mestre para a aventura que ele havia planejado) e a segunda, foi que todos deveriam ter um passado que fosse, de alguma forma, conectado.

O primeiro personagem que apresentei para vocês aqui no Crônicas Fantásticas, foi Theophilus Yardley, o mago com o qual eu joguei a maior parte dessa campanha. Logo em seguida, apresentei a capitã Verna Shamira e o contrabandista Hector Dumont. Hoje, apresento-lhes Yvan Cataran, o penúltimo personagem dessa série.

Yvan foi criado pelo meu primo Raul. Ele permitiu que eu escrevesse o background do personagem no estilo storytelling que venho fazendo e publicasse aqui.

Respeitável público, com vocês, o grande ilusionista Yvan Cataran!


A proposta

Meu pai era um inventor. Quando criança, passava horas com ele na oficina assistindo-o trabalhar em suas criações. Ele me ensinou muito do que eu sei, foi o responsável pelo que me tornaria no futuro. Mesmo ele tendo parado de falar comigo desde aquele dia, eu ainda sou muito grato por tudo que fez por mim.

Ele usava sua imaginação e criatividade para construir coisas que seriam úteis às pessoas, como um limpador de chaminé automático ou um engraxate que polia o seu sapato enquanto tocava a música que você escolhesse. Bom, eu segui por um caminho diferente. Aprendi criar máquinas que impressionavam, iludiam e confundiam a mente.

Quando fui expulso de casa, me juntei a um circo itinerante. A princípio, eu era algo como um mecânico, responsável por manter os automóveis movidos a vapor em pleno funcionamento. No meu tempo livre, trabalhava nos meus inventos e alguns meses depois, o dono do circo me contratou como seu novo mágico ilusionista.

Eu criei um picadeiro movido pelas engrenagens de uma máquina térmica que respondia a comandos sutis, como uma leve batida do pé na parte certa da madeira ou ganchos presos na barra da minha calça que ativavam alavancas escondidas. Com isso, eu consegui montar um espetáculo que encantava o público por onde passávamos. Eu levitava preso a fios invisíveis e desaparecia do picadeiro para aparecer em outro lugar do circo, apenas passando por caminhos apertados sob a madeira. Na época, isso era mais impressionante do que tirar um coelho da cartola.

Viajamos por todo o oeste do continente. Visitávamos várias cidades e minha fama cresceu muito rápido. Foi em Paris que conheci Ariel, me lembro bem daquele dia. Os ingressos para a apresentação da noite haviam se esgotado após duas horas que a bilheteria havia sido aberta. Era o maior público para o qual já tínhamos nos apresentado.

Quando fecho os olhos ainda escuto os gritos do público. Estavam encantados com o que o circo tinha a oferecer. Subir no picadeiro sempre me dava um frio no estômago, mas eu ia assim mesmo. A energia da plateia era simplesmente contagiante. Embora eu nunca tenha sonhado fazer parte de um circo, sentia que havia encontrado meu lugar no mundo.

Depois do espetáculo, eu estava em meu camarim tirando a maquiagem e alguém bateu à porta. Pensei que fosse o senhorio, mas era um homem que eu não conhecia. Ele sorriu ao me ver e eu franzi o cenho.

— Desculpe, mas não atendemos os fãs depois do espetáculo. — disse. — Se quiser, pode voltar amanhã na…

— Eu não sou um fã. — Ele me respondeu. — Na verdade, eu vim fazer algumas críticas.

Ele me pegou de surpresa. Abri a porta e deixei que ele entrasse. Mostrei uma cadeira onde pudesse se sentar e fui preparar um chá.

— Você tem críticas à minha apresentação? — perguntei-lhe enquanto enchia a chaleira de água.

—Sim, muitas. — Ele respondeu. — Percebi que você é mais inteligente do que outros ilusionistas que eu conheci, usar máquinas para fazer a maior parte do trabalho é genial. Tenho que reconhecer isso, mas seus truques são muito superficiais.

— Superficiais? — Aquele comentário me deixou nervoso.

— Não se ofenda, mas sim. No truque do espelho, por exemplo, eu vi que você estava usando uma superfície de prata polida na horizontal enquanto os tecidos colocados no truque anterior no teto estavam trançados para funcionarem como polarizador na vertical. Ou seja, sua imagem não era refletida no espelho porque o espelho só era capaz de refletir luz na horizontal.

— Você está certo, mas chama isso de um truque superficial?

— Talvez não tenha sido tão superficial assim, posso ter exagerado um pouco. A questão é que eu acredito que seus truques possam melhorar.

O chá ficou pronto e servi as duas xícaras. Conversamos durante a noite toda. Ariel tinha boas ideias, ele já havia trabalhado com outros mágicos ilusionistas antes e havia aprendido bastante. Meus truques eram todos baseados nas minhas máquinas, e não na habilidade de ludibriar a mente, desviar a atenção e confundir os sentidos. No fim, percebi que ele não era tão pretensioso quanto pensei ser no começo e acabamos nos dando bem. Eu o convidei para se juntar a mim no circo, mas ele recusou.

Ficamos em Paris por quase uma semana. Todas as noites eu fiz o mesmo show que Ariel havia assistido, mas não estava mais contente com meu trabalho, sentia que a qualquer momento, qualquer um que estava na plateia poderia levantar-se e me desmascarar. Quando a última apresentação terminou, foi um alívio. Demoraria alguns dias até chegarmos em Nice, onde nos apresentaríamos a seguir e isso me daria tempo para recriar meu espetáculo.

Apesar de ter me dado boas ideias, Ariel não havia falado de soluções práticas para meus truques. Eu teria que descobrir sozinho e aquilo me irritava um pouco, porque por mais que eu pensasse, nada parecia ser bom o suficiente. Sempre faltava algo.

Estava dobrando alguns tecidos e guardando-os em um baú, preparando-me para partir, quando fui surpreendido.

— Eu pensei melhor. — Quando me virei, Ariel estava atrás de mim usando um terno marrom com uma pequena maleta em uma das mãos. Ele sorriu. — Sua proposta ainda está de pé?

Depois daquele dia, nos tornamos amigos. Trabalhamos por semanas na criação de um novo espetáculo que misturava minhas máquinas com o conhecimento técnico dele. A estreia foi em Londres. O dono do circo nos colocou como a atração principal e o resultado foi fenomenal. Deveríamos ficar na cidade por uma semana, mas acabamos ficando por um mês, sempre com bilheteria esgotada.

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Ariel e Yvan

Minha admiração e respeito por Ariel só aumentaram. Formávamos uma bela dupla, tínhamos sincronia e parecia que sabíamos o que o outro pensava apenas com uma troca de olhar. Ele me encantava com sua simplicidade e seu talento. Nos tornamos bons amigos fora do picadeiro também. Quando percebi que nos olhavam desconfiados, eu tive medo. Não queria que ele passasse por nenhum constrangimento ou que fossemos expulsos do circo.

Com o tempo isso mudou. Depois de dois anos trabalhando juntos, nosso sucesso era tão grande que decidimos deixar o circo por conta própria. Um picadeiro não era o bastante para fazermos o que tínhamos em mente, precisávamos de uma instalação fixa. Estávamos em Barcelona, mas fizemos planos de viver em Londres, a cidade onde nos apresentamos juntos pela primeira vez. Tínhamos umas economias e decidimos comprar um pequeno teatro, longe do centro, mas em uma boa área.

Quando o circo voltou para Londres, se instalou na beira do Tâmisa. Nossa ideia de deixar o circo não agradou muito ao proprietário, mas prometemos que faríamos o último show ser o mais grandioso da história daquela companhia. Havíamos preparado um final emocionante, com truques inéditos que deixariam a plateia sem fôlego. Seria um gran finale digno, um agradecimento pelos tempos incríveis que tivemos naquele lugar.

A última noite da companhia na cidade havia chegado. Como seria nossa despedida, faríamos o encerramento das apresentações. Estávamos atrás das cortinas ouvindo a plateia gritar nossos nomes, de olhos fechados e com o coração apertado, eu acabei chorando. Era mais difícil dizer adeus do que havia pensado. Aquelas pessoas me acolheram, foram uma família para mim.

— Digníssimo público! — A voz do proprietário ecoou por todos os cantos. — Está na hora do espetáculo mais aguardado da noite. Essa é a última vez que eu anuncio neste picadeiro a maior dupla de ilusionistas que este mundo já viu. Com vocês, Ariel e Yvan!

Eu abri os olhos, Ariel estava sorrindo. As cortinas se abriram e entramos no picadeiro, estávamos felizes. A plateia se levantou e o som dos aplausos se misturou aos gritos de euforia. Nos colocamos no centro do picadeiro, onde estavam nossas marcas. Entretanto, não houve tempo de realizarmos nem o primeiro ato. Antes de entrarmos, o domador de feras havia se apresentado. Aparentemente, a jaula do leão fora acidentalmente deixada destrancada. O felino escapou.

Eu estava concentrado olhando para a plateia e não vi quando ele atacou. Quando percebi que os gritos de admiração se transformaram em horror, eu olhei para o lado e compreendi. O leão havia pulado sobre Ariel agarrando-o no braço e puxado para fora do picadeiro deixando um rastro de sangue pelo caminho.

Corri desesperado para tentar ajudá-lo. Não havia nada ao alcance das minhas mãos que pudesse usar, então avancei no leão com meu próprio corpo tentando tirá-lo de cima do meu amigo. A fera soltou Ariel, mas me agarrou na perna. Senti seus dentes dilacerando minha carne, músculos e até mesmo ossos com a mesma facilidade que comemos um pedaço de galinha. A dor era intensa. Ele me arrastou para longe e com a força de sua mordida, me lançou no ar. Quando eu caí, só me lembro de tê-lo visto voltar para perto de Ariel, então eu apaguei.

Acordei dias depois em um quarto de hospital que cheirava mal, não me lembrava de nada. Minha memória voltou como um sonho enquanto eu dormia. Acordei e gritei por ajuda, não conseguia me levantar. A enfermeira que foi ao meu socorro disse que o leão havia dilacerado minha perna e eles tiveram que amputá-la.

— E Ariel, ele está bem? — perguntei quando me acalmei. — Ele também teve que amputar algum membro?

— Ariel era seu parceiro? — A voz da mulher era sombria. — Ele morreu lá no circo mesmo.

Levou semanas até que eu fosse liberado do hospital. Quando saí pela porta, o circo já havia partido há muito tempo. Eu não tinha mais nada o que fazer e este era o único local para onde eu poderia vir. Costumo passar o dia todo sentado ali no palco, olhando para as cadeiras vazias da plateia imaginando como teria sido nos apresentar aqui.

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Yvan terminou seu relato e ficou em silêncio encarando o chão. Theophilus reparou que seu coração estava muito mais carregado de sofrimento do que suas palavras deixaram transparecer. Não havia nada que pudesse falar naquele momento, então respeitou o silêncio do seu anfitrião e apenas bebeu um pouco do seu chá e aguardou.

— Não é fácil reviver isso, mesmo depois de tantos anos. — disse Yvan depois de alguns minutos. — Peço desculpas pelo longo relato, senhor Yardley.

— Não há pelo que se desculpar. Sinto muito pela sua perda, senhor Cataran, mas você tem um talento excepcional. — disse Theophilus.

Yvan se levantou indo até o outro lado do pequeno camarim que lhe servia de casa e tornou a encher sua xícara com chá. Sua perna mecânica rangia a cada passo.

— Talento… — Ele sorriu amargo. — Talento não é tudo na vida, rapaz. Meu talento custou a vida de um amigo e a minha perna.

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Yvan Cataran

— Compreendo. — Theophilus achou que seria melhor não discordar dele.

— O que busca aqui, senhor Yardley?

— Um mentor. — Ele respondeu. — Gostaria muito que me ensinasse o que sabe.

Yvan o encarou em silêncio por muito tempo, Theophilus sustentou seu olhar.

— Quantos anos tem? — perguntou Yvan.

— Dezesseis, senhor.

— O que lorde Yardley, seu pai, vai pensar sobre isso?

— Desde que eu cumpra com minhas obrigações na corte, ele não se importa com o que eu faço no meu tempo livre.

— Tenho que pensar. — Yvan voltou a se sentar fazendo uma careta de dor.

Theophilus deixou a xícara de chá vazia sobre a mesinha de centro e olhou para Yvan.

— Por favor, senhor Cataran. Eu li muito sobre o senhor, não há onde buscar um mestre melhor.

— Não quero ser rude, rapaz, mas será que poderia me deixar sozinho? — Yvan apontou para a porta do camarim. — Isso é muita coisa para um velho como eu.

Ele não discutiu, apenas assentiu e se levantou.

— Obrigado pelo chá. Vou ficar em Londres por mais uma semana, caso o senhor mude de ideia, estou nos aposentos do meu pai no parlamento. — Theophilus sorriu e deixou o teatro.

Uma semana se passou. Theophilus estava pronto para deixar o parlamento e voltar para casa. O motorista já havia dado ignição no automóvel e ele esperava do lado de fora enquanto suas malas eram colocadas no bagageiro. Ele olhou para os dois lados da rua, sua respiração condensava ao contato com o ar frio, não havia sinal de Yvan, então ele entrou e deu ordem para o motorista partir.

Uma batida no vidro ao seu lado o surpreendeu. Ele abriu a porta.

— Eu pensei melhor. — Theophilus se virou e viu Yvan em um terno marrom carregando uma pequena maleta em uma das mãos. Ele sorriu. — Sua proposta ainda está de pé?


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