Filhos de sangue e osso – O legado de Orisha

Título: Filhos de sangue e osso – O legado de Orisha | Autor: Tomi Adeyemi | Editora: Rocco | Gênero: fantasia | Páginas: 560 páginas | Ano de publicação: 2018 | Nota: 2,5/5


A África está mais em alta do que nunca na cultura ​pop​. Nos cinemas, quadrinhos, e claro, na literatura, as tradições africanas são cada vez mais eleitas como tema de grandes aventuras. A parte mais importante desse ​hype​ talvez seja que essa tendência se constrói de uma perspectiva muito importante: a dos autores negros, africanos ou não. A roupagem com que a cultura africana tem sido tratada nos últimos anos na cultura ​pop​ é uma plataforma de empoderamento necessária e que traz à tona a África no lugar de fala correto: o dos africanos e negros ao redor do mundo, que partilham uma rica ancestralidade.

Tomi Adeyemi é uma das autoras dessa geração. Aos 25 anos, a norte-americana de ascendência nigeriana, formada em literatura inglesa, teve inspiração em estudos realizados na cidade de Salvador, Bahia, para construir a narrativa de ​Filhos de sangue e osso​. O material será uma trilogia, e o primeiro volume, ​O legado de Orisha​, do qual trataremos aqui, já teve os direitos comprados para se tornar filme. Isso que é sucesso, hein?

Bom, agora vamos ao que interessa! Você está interessado em uma aventura com lutas, reviravoltas, magia e superpoderes? Pensou em quê? Marvel? DC Comics? Indiana Jones? Esquece! Agora entram em cena os ​maji​ e os orixás! Bem-vindos a Orisha!

Filhos de sangue e osso – O legado de Orisha​ conta a história de um reino comandado por um governante cruel que acredita ter eliminado, há algumas décadas, todos os maji – pessoas que manifestam e manipulam o ​axé​ dos orixás ​-​ num sangrento massacre conhecido como Ofensiva. O rei lida com seus súditos da forma mais tirana possível, cobrando impostos absurdos, tomando decisões arbitrárias e também mantendo como cidadãos de segunda classe aqueles que se rebelam ou não conseguem financiar suas dívidas.

É nesse estado bastante injusto e opressivo (sensação de opressão que Tomi Adeyemi consegue trazer com maestria à narrativa) que encontramos a nossa protagonista e primeira narradora, a maravilhosa Zélie Adebola. Adolescente, filha de pescadores e marcada pela herança ​maji​, representada por um fio de cabelo prateado, a menina é treinada duramente por Mama Agba, sua mentora, para uma revolução que nunca acontece. Até o dia em que Zélie não suporta mais. Impostos que os peixes não pagam mais, guardas reais maliciosos, um corpo preparado para lutar, um bastão de agilidade inimaginável… Não tinha outro jeito, a não ser lutar por uma vida onde a opressão não fosse a realidade.

Os outros dois narradores – secundários, a meu ver, se comparados a Zélie, mas que nos fornecem perspectivas importantes da história – são os irmãos Inan e Amari. Eles são os príncipes de Orisha e pensam de formas muito diferentes sobre Zélie, o axé e os ​maji​. Alguns argumentos dos personagens de fato nos fazem refletir sobre as consequências da religião e da magia naquela sociedade, mas logo fica evidente quem “tem razão”. Adianto que vocês vão amar um e odiar o outro, descubram quem, rs!

Não vou dar mais detalhes de enredo para não virar spoiler, mas para encerrar essa apresentação, posso dizer que temos personagens fortes, bem estruturados, e principalmente, com os quais conseguimos nos identificar. Eu me identifiquei muito com a angústia da Zélie em resolver as questões pessoais dela, como a insegurança, a fragilidade diante do desconhecido, os sustos diante de forças poderosas e uma sensação enorme de fracasso ao olhar para o mundo ao seu redor. É uma personagem que fala à alma do leitor, linda, incrível. Inan e Amari também me comoveram, mas nada comparado à Zélie. É bastante subjetivo, mas posso garantir que vão gostar dessas figuras de modo geral.

Explicando a nota 2,5, que eu entendo como uma boa nota para um ótimo livro, mas não um livro espetacular: é uma aventura bem gostosa de ler, mas que fica um pouco repetitiva e traz alguns clichês.

Sob um olhar genérico, e com isso quero dizer, notando coisas que eu não entendo como reflexo de uma experiência pessoal minha, esse livro tem dois pontos altos que fazem dele uma aventura digna de ser lida. O primeiro é que a ação é maravilhosa, temos muitas cenas de luta bem construídas, que empolgam e deixam a história com essa leveza bacana do aventuresco. O segundo é que os orixás e o axé são tratados com muito respeito nessas cenas, e ao mesmo tempo, traduzidos de uma forma muito inteligível ao leitor que não conhece as religiões. Achei muito bacana a forma como os poderes, a sacralidade e a força foram mantidos sem que isso virasse um tratado teológico ou que o popular costuma chamar de “textão” sobre religião. A inserção dessas entidades na história é bastante leve, oportuna e comovente, mas não apelativa. É encantador, e mesmo para quem não é muito ligado a crenças em geral, há um impacto positivo.

Embora, no geral, seja uma aventura bem fluída, que traz entretenimento e vontade de continuar passando para a próxima página, preciso avisar: é uma narrativa longa, que passou apenas um pouquinho do ponto em alguns momentos. São quase 600 páginas, e em certos trechos, algumas questões dos personagens parecem estar se arrastando demais, e começam a ficar cansativas. Essas idas e vindas, no último quarto do livro, perdem um pouco o sentido para quem já está acompanhando essas dúvidas há um bom tempo. Outra coisa é que o livro tem vários clichês narrativos que um leitor mais experiente vai sacar de forma um pouco antecipada. Sabe aquele parágrafo que você começa e já sabe o andamento das próximas 3 páginas? Pois é, nada grave, mas que pode desagradar algumas pessoas.

Agora, meu último parágrafo é o meu momento (hahaha!): esse livro me levou ÀS LÁGRIMAS! Eu me comovi demais com a experiência da Zélie, com as aparições dos orixás para ela, com as perdas que ela sofre e também com a forma como o axé é descrito. É arrepiante para quem é ligado à espiritualidade, e seja na forma que for, ali você entende que está acima de dogmas, é sua conexão com o seu sagrado. E isso é representado pela Adeyemi na vida da Zélie, na forma mais linda. Ah, e leiam o prefácio. Ainda vai rolar mais umas gotinhas de choro.


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