A Vingança de Gwallter Kembler

Ele era um exemplar masculino pertencente à raça dos anões, figura que mal ultrapassava um metro e vinte de altura. Apesar da baixa estatura, era robusto. Mantinha, na maior parte do tempo, expressão carrancuda e postura altiva. Provido de juba e barba castanha-avermelhada. Vestido com uma bem ornada armadura de couro, tendo nas mãos um ameaçador machado de dois gumes, de cabo curto e acabamento grosseiro.

O guerreiro encontrava-se assentado sobre uma grande rocha à sombra de frondosos arvoredos que formavam um extenso bosque. O sol brilhava naquela tarde enquanto a brisa agradável percorria a paisagem, assim como uma diversidade de pássaros e borboletas coloridas.

Vindo por uma estrada de terra que entrecortava o mencionado bosque, aproximava-se lentamente uma comitiva. Uma multidão de caminhar pesado, cabeça baixa e ombros caídos.

Quando se achegaram às vistas da figura sisuda e armada, o pequeno guerreiro bocejou. Em seguida saltou da rocha, firmou os pés no solo, aprumando a arma em suas mãos. Depois de bem instalado, aguardou que se aproximassem um pouco mais.

Então, quando a comitiva vinda pela estrada finalmente cruzou o minúsculo e corpulento guerreiro que a mirava com atenção, alguns na multidão notaram que o desconhecido às margens da estrada buscava por alguém entre eles. Destacava-se na aglomeração um homem idoso sentado em um trono apoiado por duas varas de madeira, e era carregado por um par de escravos vestidos em trapos.

Mas então, anunciou-se o anão:

— Sou Gwallter Kembler, filho de Mukonry Kembler, da casa dos Kembler! — Disse a plenos pulmões. — Prepara-te para ajustar contas comigo! Venho diante de ti, e em nome do meu pai, para dar resposta às tuas ofensas!

Desse modo, toda a multidão estancou, voltando-se para o responsável por aquelas palavras. O ancião remexeu-se no assento, intrigado com as palavras inesperadas.

Certo cavaleiro dentre os presentes, compreendendo que as palavras proferidas pelo estranho eram dirigidas ao idoso — pois lhe tinha por mais importante dentre os presentes —, tomou as dores pra ele.

— Respeita este momento, criatura vil! Não percebes o que fazes? Acaso sofres de algum desajuste do juízo?

— Digo-vos apenas a verdade. — Ressaltou Gwallter. — Não há engano nem loucura em minhas palavras. O próprio Tybalt poderá confirmá-las! — Disse, indicando o idoso sobre o trono.

O cavaleiro, ainda confuso, tentava em vão encontrar argumento em sua mente cheia de pesar, mas então, acabou por se voltar para o velho à espera de algum esclarecimento.

Tão rápido quanto possível para um homem de idade, Tybalt falou:

— Meu rapaz! — Entrelaçava os dedos e franzia sua testa enrugada. — Creio que me confundes com algum outro… No decorrer da minha longa existência, nunca ofendi ninguém que não merecesse ser ultrajado. E tenho total certeza de que me recordaria de tal ocasião.

— Pois faço questão de reavivar a tua memória! — Avisou, sem modos, Gwallter.

Ainda aguardava por explicação o impetuoso cavaleiro, enquanto isso, Tybalt teve seu assento colocado no solo.

Impaciente, o cavaleiro não se conteve:

— Meu senhor! Deixa-me dar cabo desse atrevido que o ofende em momento tão inapropriado! — Clamou o varão de armadura.

— Espera. — Tybalt ordenou. Logo, avançou para a extremidade do seu assento. Mirou com olhar severo o audaz guerreiro. — Fala então, Gwallter! Mas aviso: se estiveres incorrido em algum enganado, lhe farei pagar caro pelo insulto.

— De acordo — concordou Gwallter.

— Então, prossiga. — Autorizou Tybalt, retomando uma posição mais confortável em seu trono.

— Muito bem… — se seguiu uma breve pausa onde Gwalter respirou fundo e, por um instante, pareceu mastigar algo. — O nome de meu pai não lhe parece familiar, mas certo acontecimento lhe trouxe grande sofrimento.

— Prossiga. — Falou Tybalt com olhar voltado para o chão, mas com os ouvidos atentos.

— Certa vez, estava seu pai a proclamar uma balada na taverna do famigerado Wood, o Ingrato. Neste dia, Mukonry (era seu nome) lamentava-se de problemas de ordem financeira. Era certo que havia se excedido na cerveja, mesmo assim, tal fato não justificava o que passou sob suas garras. Mukonry teceu certo comentário relacionado à qualidade da vossa canção, ou da forma como era executada. Enfim, revoltado com o julgamento de um bêbado, o senhor foi tomar satisfação, e isso não o agradou. Em seguida Mukonry foi agredido por você e um bando de covardes que o acompanhavam…

Tomado de grande emoção, Gwallter vacilou.

— Vamos, prossiga — incentivou Tybalt.

— Meu pai perdeu a visão em um dos olhos, também sofreu tamanho trauma em um dos braços que não foi mais capaz de empunhar o machado. O desejo de vingança o afligiu por décadas. Mas agora, eu, seu primogênito, adquiri o direito de representá-lo. E por isso… Estou aqui para vingá-lo! — Dito isso, seu rosto se tornara rubro, e seus olhos ficaram pretos como o carvão.

— Ora, meu rapaz… Admira-me a tua intrepidez. Contudo, lamento informá-lo de que não se tratava da minha pessoa, mas sim do meu pai, que acabo de sepultar — explicava Tybalt. — Deve entender que se trata de fato ocorrido há mais de cinquenta anos. Lamento não poder reparar tal questão…

O velho foi sincero em suas palavras, que eram embargadas pela tristeza. Contudo, aquilo não foi suficiente para tocar o espírito obstinado, tomado pelo espírito da vingança. Um dos guardas, mais atento que o restante, lera certas mudanças na face do anão, e por precaução, posicionou-se bem na frente do pequeno e perigoso guerreiro.

Irado como estava, Gwallter não hesitou em tomar iniciativa: ergueu seu machado a espantosa velocidade. Enquanto isso, o cavaleiro à sua frente maldispôs de tempo para se firmar no solo, muito menos para sacar sua espada. Entretanto, Gwallter não o golpeou, apenas fingiu que o atacaria.  Com o susto, foi fácil para o baixote deslocar o oponente com uma finta, para no fim saltar na diagonal, desobstruindo seu campo visual. Avistando o branco dos olhos arregalados do ancião, que contraía seus velhos músculos, agarrando-se ao seu trono, incapaz de reagir.

Outros cavaleiros se lançaram a fim de proteger seu senhor. Iniciou-se um tumulto onde mulheres, crianças, cortesãs e serviçais dispararam em fuga por todas as direções. Os próprios empregados, aqueles encarregados de transportar o velho Tybalt, foram os primeiros a debandar.

Gwallter, ainda em pleno ar, atirou seu machado, atingindo no peito o indefeso Tybalt, pregando-o em seu assento. O ancião soltou um pavoroso gemido, o que fez com que alguns daqueles que fugiam se voltassem para testemunhar seus espasmos.

Os cavaleiros sacaram suas espadas. Investiriam contra Gwallter, mas ciente disso, ele apanhou uma adaga larga à cintura, desferindo um golpe certeiro na coxa do inimigo mais próximo, desequilibrando-o. Enquanto esse mesmo inimigo se entregava à dor, o pequeno guerreiro o apanhou e o segurou pelas fretas da armadura, ergueu-o por sobre a cabeça, por fim o arremessou sobre seus companheiros que se agrupavam a fim de combatê-lo.

Os cavaleiros acabaram confusos e aturdidos com o camarada atirado sobre eles, não sabiam se ficavam para aparar sua queda ou se desviavam dele.

Enfim, Gwallter Kembler arremeteu para a floresta, embrenhando-se por entre arbustos, desaparecendo das vistas dos inimigos.

Sua vingança estava consumada. Isso foi motivo de orgulho entre os seus parentes, ainda que tenha provocado uma guerra entre aquelas duas famílias.


Assinatura_Crônicas - Ricargo Old Folk-09

Siga o Ricardo no Facebook.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s