Treves Pashar Monsporti

Treves é um bruxo de comportamento duvidoso. A ideia para criá-lo surgiu quando eu olhava algumas publicações de um grupo no Facebook sobre RPG e um tópico em que o pessoal discutia sobre uma aventura “ao contrário” de D&D. Nessa aventura, os jogadores seriam os vilões.

Foi então que eu decidi fazer um personagem que tivesse um alinhamento caótico e mau para uma aventura nesse estilo, que ao meu ver, seria muito interessante de ser jogada.

ATENÇÃO: O texto a seguir apresenta cenas de violência e sexo que não são adequadas para todos os públicos. Siga por sua conta e risco.


Coração Partido

Monsporti era o sobrenome de uma das famílias mais ricas do reino. Eram conhecidos pelas minas de prata que possuíam em suas propriedades e por selarem vários pactos matrimoniais com a realeza. Dos que habitavam as terras naquela região, Treves era o caçula de três irmãos. Olive, a mais velha, diziam estar destinada a se casar com o filho de seu tio que morava nas terras altas ao norte. Ura, a filha do meio, fora prometida desde o nascimento para um dos filhos do rei.

Treves, por ser o único filho homem, deveria levar o nome da família para frente. Provavelmente se casaria com a filha de um nobre local ou, se tivesse sorte, com a nona princesa na linha de sucessão ao trono. Entretanto, isso não o preocupava. Ele não estava interessado em se casar, tinha outros planos para sua vida. Planos mais interessantes.

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Treves P. Monsporti, art by LoranDeSore

Enquanto andava pelo mercado da cidade com os braços cruzados nas costas, dois guardas, designados pelo seu pai, iam ao seu lado. As pessoas nas barracas o cumprimentavam quando passava. Ele era querido pelo povo daquela cidade, viam nele um grande potencial para se tornar um governante bondoso e justo.

— Bom dia lorde Treves! Gostaria de uma maçã? — perguntou uma senhorinha.

Ele parou ao lado da mulher e sorriu.

— Como sempre, muito generosa Ima. — Ele respondeu pegando a maçã dando uma mordida generosa.

Ela ficava satisfeita quando a maçã era aceita, era um bom sinal.

Quando viraram a esquina, chegaram à praça onde leiloava-se leitões gordos prontos para o abate. Vários homens gritavam seus lances enquanto outros contavam moedas e alguns simplesmente assistiam o espetáculo. Treves entrou no meio da multidão, para desespero dos seu guardas. Eles os seguiram por alguns metros, mas não eram tão espertos quanto pensavam e logo o perderam de vista.

Sagaz, Treves escapou de seus vigias. Ele tinha outros planos para aquele dia e tinha que terminar tudo o que precisava fazer antes que o jantar fosse servido no castelo. A cozinheira havia lhe prometido que faria peixe salgado com batatas cozidas, a refeição perfeita para aquele dia. Ele então abandonou a multidão que assistia ao leilão e caminhou por um beco estreito com cheiro de urina e fezes humanas até uma rua mais larga, não tão movimentada quanto o mercado ou a praça, mas cheia o suficiente para andar sem ser reconhecido. Seus pés o levaram até o batente da porta de madeira da infame taverna Espinha de Peixe.

O local não possuía janelas e sua única fonte de iluminação era devido às velas penduradas a uma estrutura de metal negro no teto e aos archotes fracos pendurados nas paredes de pedra. Ele olhou ao redor e não viu mais do que duas pessoas sentadas em uma mesa próximo ao balcão. Ele foi até a mesa costumeira ao fundo e sentou-se. O atendente serviu-lhe uma caneca de hidromel e se afastou fazendo uma reverência. Agora ele só precisava esperar.

Não demorou muito para que a porta se abrisse mais uma vez. Uma mulher de cabelo negro, pele caramelada e olhos verdes cheios de vida entrou. Ela sorriu ao ver Treves e ele retribuiu o gesto levantando-se. Os dois se abraçaram por longos segundos, contentes demais com a presença um do outro para se separarem.

Um encontro daqueles certamente não era apropriado para um Monsporti. Aquela mulher se chamava Marin, filha de pescadores, crescera nas ruas da cidade e aprendera desde cedo a sobreviver sem precisar de ninguém. Já faz algum tempo, talvez dois meses em que ela e Treves se conheceram em uma de suas visitas ao mercado. Naquele dia, o pai e os irmãos dela precisaram fazer reparos de urgência no barco e deixaram-na encarregada de vender a mercadoria. Ela só precisou olhar para Treves uma vez para se apaixonar por ele.

— Está tudo pronto. — disse ele quando os dois se sentaram. — Consegui lugar para nós em um barco que partirá hoje ao pôr do sol, mas teremos que ir como clandestinos então não será muito confortável.

Marin levou uma das mãos até o rosto dele, acariciou e sorriu.

— Desde que esteja com você, eu não me importo. — disse ela — Onde quer que estejamos, serei feliz.

Os dois trocaram um olhar cúmplice e seguraram suas mãos sobre a mesa. Treves pediu e o atendente serviu-lhes com mais hidromel e pão com especiarias (a melhor comida que tinham naquela taverna). Os dois comeram e conversaram durante horas até a tarde cair e os archotes e velas que iluminavam o local serem substituídos por novos. Já estava quase na hora do barco partir quando eles foram embora. Treves deixou uma moeda de prata para pagar pela refeição e pelo silêncio do atendente. Se perguntassem, ele nunca passou por ali.

O casal correu nas sombras, se esgueirando de beco em beco e misturando-se a multidões, onde era possível, até chegarem a uma viela próxima ao porto. De lá era possível ver as ondas que quebravam nas pedras produzindo um estalido e o Sol já estava quase tocando o oceano. Treves apontou para um barco de porte médio ancorado alguns metros à frente. Marin sorriu.

— Eu te amo, Treves! — A moça o puxou para um beijo.

Os dois corpos se entrelaçaram e Treves a jogou contra a parede. Os amantes desejavam-se naquele momento e, embora o tempo fosse curto, não podiam evitar. As roupas foram tiradas com facilidade e os dois esgueiraram até o chão. Treves segurou Marin pelos dois punhos com uma das mãos acima da cabeça e jogou seu corpo em cima do dela. Eles já haviam começado o ato quando ele usou sua mão livre para sacar o punhal de lâmina curva que estava próximo de suas roupas. Com o coração acelerado e mordendo o lábio inferior, ele exibia um brilho no olhar que a assustou.

— O que é isso, Treves?

— Marin… — A voz dele era suave como o toque de veludo na pele. — Marin, a verdade é que eu não a amo.

Ele sorriu friamente. A moça presa sob seu corpo tentava se libertar.

— Foi tudo mentira. Como  alguém como eu, um nobre, poderia me apaixonar por uma pescadora?

— Treves… — As lágrimas começaram a escorrer pelos olhos da mulher. — Por favor…

Ele levou o punhal até a garganta dela e pressionou a lâmina contra a pele. Um filete de sangue escorreu sobre o metal frio. Marin gritou, mas não havia ninguém por perto. Treves não queria matá-la, não ainda. Ele lambeu a lâmina do punhal por onde o sangue havia escorrido.

— Seu sangue é o mais doce que já provei.

Marin tremia e chorava sob o corpo de seu agressor. Ele não interrompeu o ato e quanto mais desesperada a mulher ficava, mais prazer ele sentia. O céu já estava pintado de vermelho e laranja quando ele atingiu o orgasmo. Como recompensa, presenteou Marin com um beijo seco e frio nos lábios antes de deferir-lhe o corte fatal na garganta. O sangue esguichou por todos os lados.

Depois de experimentar o sangue dela mais uma vez, ele terminou de cortar a cabeça da mulher e saiu do beco ainda nu. Caminhou até ao barco que estava ancorado no cais e pegou um líquido inflamável que havia deixado lá dentro na noite anterior. Arrastou o corpo da mulher para o meio da rua deserta e fez uma pilha com as roupas dos dois, deixando a cabeça dela por cima jogando o líquido. Atritou duas pedras até produzirem faíscas e o fogo se alastrar.

Depois de limpar-se no mar e vestir as roupas limpas que havia deixado no barco, Treves voltou para o castelo. Estava contente, aquela havia sido uma grande tarde e conseguira terminar tudo a tempo do jantar, o peixe que serviriam certamente valeria a pena.

— Está atrasado. — sentenciou Daman, pai de Treves quando ele sentou-se na mesa para jantar.

— Me desculpe, pai.

— Por onde esteve? Você fugiu dos guardas de novo, não é?

— Não senhor, eles se perderam de mim enquanto eu observava um leilão na praça próxima ao mercado.

— Deveria ter voltado para o castelo imediatamente. — disse Olive.

— Sua irmã tem razão.

— Peço perdão. Não vai acontecer de novo.

O jantar fora servido. O peixe, assim como Treves havia previsto, estava delicioso. Todos comeram até se fartarem, mas as portas do salão foram abertas e um guarda entrou correndo no lugar colocando-se de joelhos em frente à mesa.

— Meu senhor, perdão pela intromissão.

— O que aconteceu? — perguntou Daman.

— Mais um corpo de mulher decapitado foi encontrado, meu senhor. Dessa vez nas proximidades do porto. A cabeça foi queimada junto com as roupas.

— Isso já está indo longe demais.

— Pai, quem está fazendo isso precisa pagar por seus crimes. — disse Olive. — Por favor, reforce a segurança.

— Reforçar a segurança? — esbravejou Daman esmurrando a mesa— Tudo o que eu faço é reforçar a segurança, mas o maldito responsável parece estar sempre um passo a nossa frente.

Lorde Daman Monsporti levantou-se da mesa e saiu andando pelo salão até a porta principal murmurando consigo mesmo sobre buscar medidas mais eficazes. Sua solução não demorou a chegar. Duas semanas depois do assassinato de Marin, uma presença sinistra chegou no grande salão do castelo.

Uma mulher de cabelos ruivos trançados com perfeição e vestindo uma armadura completa de metal polido brilhante com arabescos dourados e com o elmo sobre um dos braços ajoelhou-se perante lorde Daman. Sua espada desembainhada foi colocada aos pés dele. Todas os cidadãos mais dignitários estavam lá para ver a cena. Uma luz sobrenatural parecia pairar sobre ela. Treves observava a cena do alto do tablado com sua mãe e irmãs. Um arrepio percorreu o seu corpo.

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Priscila Kinderheart, artista desconhecido

— Meu nome é Priscila Kinderheart. Minha vida é dedicada à luz, a ordem e a justiça. Estou aqui para trazer alento a esta cidade que sofre vendo suas mulheres cruelmente assassinadas e abusadas. — A voz dela ecoava pelo salão. — Juro por minha honra como paladina que este mal será expurgado de uma vez por todas.

O silêncio se rompeu em um ruidoso aplauso e gritos de esperança. A visão da mulher deixava Treves encantado e ao mesmo tempo temeroso. Talvez tenha agido de forma demasiada e acabara chamando a atenção de uma poderosa oponente. Sua cede pelo sangue das mulheres de coração partido não estava nem perto de ser saciada, mas até que ponto ele poderia continuar se arriscando sem que a paladina o descobrisse?

As semanas passaram enquanto Priscila investigava por toda a cidade. Lorde Monsporti dera carta branca para que ela tomasse qualquer atitude que julgasse necessária. Ela dispunha de total controle de seus homens armados e podia tomar as decisões que fossem cabíveis. Treves esperou por um tempo enquanto pensava em um plano. A cidade estava mais vigiada do que nunca, mas ele precisava escapar das vistas da lei e matar sua sede de sangue. Ele então decidiu usar o último recurso que tinha.

Havia uma passagem secreta no castelo que fora desativada há mais de um século. Ela estava precária e ameaçando desabar a qualquer momento, mas desde que estivesse inteira, ele poderia se esquivar da segurança do castelo e escapar por ela até a praia. E assim ele fez, com a ajuda de um único archote que roubara nas masmorras. Ele caminhou por metros em túneis apertados e sujos, repletos de ratos e insetos até ver a luz da lua e ouvir o barulho das ondas do mar.

A praia ficava próxima a um bordel pequeno para onde ele se dirigiu. Certamente que não haveria tempo de fazer uma das mulheres que lá trabalhavam se apaixonar por ele, mas encontraria alguma que já tivesse seu coração partido. O sangue não teria o mesmo gosto, mas serviria para matar sua sede imediata. Quando abriu a porta do lugar, para sua surpresa, já estava sendo esperado.

A paladina Priscila estava com a espada desembainhada apontando para ele. Guardas haviam sido postos ao lado da porta e o agarraram com prontidão. As mulheres encolhidas na parede oposta o olhavam com desprezo e medo. Priscila não tardou a sentenciá-lo.

— Treves Pashar Monsporti, herdeiro do senhorio desta cidade, você está preso acusado da morte de pelo menos quinze mulheres no último ano. — Então ela se dirigiu aos guardas. — Levem-no para as masmorras do castelo.

Na manhã seguinte a cidade toda já estava sabendo da prisão de Treves. Uma multidão dirigiu-se aos portões do castelo exigindo sua libertação, não acreditavam que o amável filho dos Monsporti poderia ser responsável por ato tão hediondo. Por mais que a mãe implorasse, lorde Monsporti não quis liberá-lo. Se fosse outra pessoa qualquer, teria sido executo naquela mesma noite, mas por se tratar de seu filho, haveria primeiramente um tribunal que deveria sentenciá-lo a morte caso a culpa fosse comprovada.

O julgamento aconteceu no meio do salão principal do castelo. Treves era mantido algemado e vigiado por três guardas fortemente armados do lado esquerdo do estrado enquanto a paladina Priscila estava do lado direito. O pai, que faria as vezes do juiz, estava sentado no centro. A mãe do lado esquerdo e as duas filhas de olhos inchados pelo choro sem fim da noite passada estavam em pé ao lado dela. Da metade do salão até a porta, uma pequena multidão de senhores importantes e suas famílias assistiam o evento.

— Estamos aqui hoje para o julgamento de Treves Pashar Monsporti. — disse lorde Monsporti como se não houvesse nenhuma familiaridade com o réu. — Acusado pela violação e morte de mais de uma dezena de mulheres.

— Pai, eu sou inocente! — Treves anunciou deixando algumas lágrimas escorrerem pelo rosto.

As irmãs voltaram a chorar, a boca da mãe tremia contendo as próprias lágrimas. Os demais presentes no salão gritaram em apoio ao réu. Repudiavam a paladina pela audácia de prender seu futuro governante. Priscila, entretanto, mantinha-se impassível em seu lugar.

— Silêncio! — bradou lorde Monsporti.

Os gritos pararam. Priscila colocou-se de frente para os presentes no salão e começou a falar.

— Quando cheguei aqui, fui tratada como heroína. Jurei na frente de lorde Monsporti que trabalharia até encontrar o mal que estava assombrando esse lugar. E assim eu o fiz. — Ela olhou para Treves. — Acontece, que as vezes, as coisas não são como esperamos. O senhor Treves é culpado e pela minha honra irei provar isso.

Houve murmúrios entre os presentes. A fala da paladina era convincente. Treves notou alguns olhares enviesados dos senhores que antes gritavam a seu favor. Lorde Monsporti fechou os punhos. Priscila fez sinal com a cabeça para um dos guardas e ele abriu uma das portas laterais do salão.

Um homem e uma mulher entraram algemados. Treves os reconheceu de imediato. O homem era aquele que trabalhava na Espinha de Peixe, a taverna onde se encontrara com sua última vítima e a mulher era Ima, a comerciante. Ele manteve seu rosto impassível, não podia deixar transparecer que conhecia os dois.

Priscila pediu para que o homem falasse primeiro.

— Ele levava a mulher para comer na minha taverna. — A voz era trêmula e seus olhos se mantinham fixos no chão. — Parecia sempre amoroso com ela, mas eu não desconfiava. Ele pedia segredo e até pagava mais por isso, mas pensei que era porque não queriam que descobrissem que ele se relacionava com mulheres pobres. A última vez que o vi foi no dia quem encontraram o corpo no porto.

— Eu passava os recados dele para as mulheres. Ele sempre me visitava no mercado e eu lhe oferecia uma maçã. Eu não sabia que ele era assim. — Ima começou a chorar. Levou um tempo até Priscila a acalmar para que ela pudesse continuar. — Eu só pensava que ele não tinha sorte no amor, era só isso. Fui boba, queria que conhecesse minha neta.

Quando os dois terminaram seus relatos, a paladina virou-se para o pai de Treves e disse que já havia terminado. Lorde Monsporti colocou-se de pé e olhou para os senhores que aguardavam seu julgamento.

— Belíssimos relatos, eu devo dizer. — Ele desceu do estrado colocando-se ao lado do filho. — Mas nada convincentes. Tudo bem que meu filho é chegado ao sexo feminino, mas isso mostra que ele é culpado? Onde foi mesmo que o encontrou, paladina?

— Em um bordel, meu senhor.

— Em um bordel. — Ele repetiu. — Jovens aventuram-se por todos os lados buscando prazer. Ele é apenas um rapaz de alma doce e coração nobre, não seria capaz de tais atos violentos.

Os senhores que assistiam ao julgamento concordaram com veemência. As irmãs de Treves enxugavam as lágrimas e a mãe sorria confiante no marido.

— Pai… — Treves começou a falar.

— Não precisa dizer nada, meu filho. — O lorde o interrompeu. — Como senhor desta cidade, eu o ino…

— Pai, deixa de ser estúpido. — Treves continuou a falar. — Eu estou cansado disso aqui, cansado de viver me escondendo. Eu matei aquelas mulheres, cada uma delas e provei do seu sangue. O doce sabor do coração partido de uma mulher, melhor do que qualquer vinho que seu dinheiro poderia comprar.

Conforme falava, sua voz mantinha-se calma. Treves sentia-se em paz. Era seu momento de libertação.

— Treves…

— Não, mãe. Já chega. O filho de vocês é um monstro. Eu sou um monstro. Esse tempo todo, esses anos todos, e vocês só enxergaram o que eu quis que vissem. Agora, quando olho ao redor… — Treves passou pelo meio dos guardas e levantou suas mãos algemadas para a plateia nobre que o assistia. — Só consigo pensar no gosto do sangue de uma virgem de alta classe…

— Basta! — Lorde Monsporti acertou-lhe uma bofetada no lado direito do rosto derrubando-o no chão. — Eu o condeno a morte. Será enforcado na frente dos portões do castelo ao fim do dia. Tirem-no daqui.

Os guardas levaram Treves de volta para a masmorra onde ele foi deixado no escuro, largado no meio das fezes secas de prisioneiros que ali estiveram antes dele. Ele ficava imaginando o reboliço que causara, era engraçado. Quais consequências aquilo teria para sua família? Será que o rei faria alguma coisa quando ficasse sabendo? Bom, ele acreditava que não estaria vivo para ver o desfecho final dessa história.

O barulho de metal ecoando pelos corredores sombrios o despertou dos devaneios. Já estava na hora de sua execução? Da grade da cela, ele viu uma luz se aproximando, o brilho da tocha quase o deixava cego. Ele distinguiu a paladina Priscila quando se acostumou com a luz.

— Você fez um belo trabalho. — Ele admitiu. — Mas se não fosse por mim, meu pai teria decretado a sua sentença. Veríamos o seu belo corpo pendurado por uma corda, ou talvez queimado. Acha que ele vai me queimar? Eu gostaria de morrer assim.

— Por que você confessou? — perguntou ela sem nenhuma cordialidade.

— Não queria vê-la morrer. Seria um desperdício, é muito bonita. Bom, talvez se tivéssemos nos conhecido em outras circunstâncias eu mesmo a mataria. Mas seria diferente, entende? Fico imaginando o seu gosto. É verdade que o sangue dos paladinos é sagrado? Nunca provei nada assim.

Eles se encararam por um tempo. Priscila tentava verificar se havia algum traço de bondade naquele homem. Treves, por sua vez, só imaginava o corpo dilacerado da mulher no chão daquela cela. A paladina se retirou em silêncio abandonando-o na escuridão.

As horas se passaram e quando o dia estava quase no fim, dois homens encapuzados buscaram Treves. Colocaram-lhe um saco na cabeça e o arrastaram até o estrado na frente do portão principal do castelo. Ele ouvia a multidão gritar e alguns atiravam coisas. Amarram-no em cima de uma pilha de feno e madeira quando retiraram-lhe a venda.

De uma lateral, distante de onde ele seria executado, estava sua família com Priscila em guarda ao lado de seu pai. Treves sorriu para eles, mas não houve retribuição então ele encarou a multidão. Pareciam estar animados para ouvi-lo gritando. É impressionante como a opinião pública muda tão facilmente.

— Quais são suas últimas palavras? — perguntou um dos homens que já segurava uma tocha.

Treves apenas sorriu e negou com a cabeça. Não daria um gostinho extra a eles. O outro carrasco despejou óleo em cima dele e o primeiro abandonou a tocha no monte de feno que rapidamente se incendiou. As chamas dançavam animadas e se espalharam até começarem a subir pelas pernas de Treves. Ele gritou.

Quando seu corpo estava totalmente em chamas, sua pele parecia ter desaparecido deixando a carne exposta às chamas. A dor era cruciante e parecia que nunca teria fim. Para surpresa da multidão, as chamas laranjas e vermelhas mudaram de cor e se tornaram brancas. Uma explosão as elevou a dezenas de metros de altura e quando elas desapareceram, Treves não estava mais lá. Não havia sinal do seu corpo queimado ou cordas que o amarravam ao tronco.

— Treves… — A voz ecoava em sua cabeça. — Acorde, meu bem.

Treves abriu os olhos e percebeu estar nu em uma caverna. Uma mulher de pele avermelhada, asas escuras e olhos brancos estava deitada ao lado dele.

— Minha senhora… foi tudo um sonho?

— Um sonho? — Ela o puxou para um abraço colocando sua cabeça entre os seios. — Pobre humano, não não. Foi tudo real. Você quase morreu queimado pela sua própria família.

Ela falava com uma voz meiga.

— Você cresceu tanto desde que nos conhecemos. — Continuou a mulher demoníaca. — Estou tão orgulhosa.

— Eu fiz tudo como queria, não foi?

— É claro que fez. E viu como isso é bom. — Ela se levantou e foi até um canto escuro da caverna. Quando voltou, entregou a Treves um objeto enrolado em um pano vermelho. — Você merece uma recompensa.

Ele pegou seu prêmio e o abriu. Encontrou o que parecia ser um pedaço de osso longo e fino, havia pequenos furos na sua extensão e uma das pontas era oca.

— É uma flauta feita com osso de uma elfa. — Ela anunciou. — Será útil no que o futuro lhe reserva.

— Senhora Zariel, o que eu devo fazer agora? — Treves perguntou? — Para onde devo ir?

Zariel colocou-se a caminho do fundo da caverna. Seu corpo parecia feito em chamas e iluminava o caminho por onde passava. Treves seguiu-a.

— Vá viver sua vida, homem. — Ela respondeu com serenidade. — Aproveite os dons que ganhou. Voltaremos a nos encontrar em breve, quando eu quiser.

Ela continuou caminhando até desaparecer por completo na escuridão. Treves tateou a sua frente, mas tudo o que encontrou foi a rocha áspera e fria. Ele então deu as costas para a rocha e caminhou para a outra direção. Quando chegou na claridade, estava livre. Havia finalmente deixado a caverna.


 

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