Ander Scarwhite

Ander teve a sorte de sobreviver a uma terrível praga  que matou sua família e amigos. A história dele acontece em um cenário que eu já apresentei anteriormente no background de outro personagem. Mas apesar de compartilharem uma motivação, eles acabam tomando rumos diferentes para alcançar seus objetivos.


 

Cicatriz branca

Ander ainda era uma criança quando a praga chegou na sua vila. Era como um turbilhão, um vento gelado e agonizante carregado de negatividade que deixava tudo o que tocava amaldiçoado, uma maldição de morte. As pessoas ficaram fracas, as plantas e os animais não resistiram por muito tempo. Até mesmo a água do ribeirão secou.

Depois disso, eles vieram e atacaram os poucos que haviam sobrevivido. Estavam todos fracos, esqueléticos, não havia como resistir. Os atacantes usavam mantos brancos que lhes cobriam o rosto e arrastavam no chão. Suas lanças de madeira tinham um brilho prateado na ponta afiada. Todos que eram atingidos por elas transformavam-se em pó.

O pequeno garoto fugiu, correu o mais rápido que pode, assim como fora instruído pelo pai enfermo. Deveria ir para longe, buscar outro lugar para viver, outra vila onde pudesse crescer, outras pessoas em quem pudesse confiar. Mas não adiantou, suas pequenas pernas de criança logo se cansaram e eles conseguiram pegá-lo. Uma das criaturas brancas o feriu no lado esquerdo do tórax com a ponta brilhante de sua lança.

O ferimento queimava, mas não havia sangue escorrendo. A dor era muito pior, parecia perfurar a alma e sugar o espírito. Sua pele começou a calcificar e enrijecer como a dos seus amigos. Ele estava fraco, com fome e não aguentou muito. Seu corpo tombou sobre o terreno lamacento. Por último, viu os dentes animalescos de seu agressor sob o manto, ele sorria satisfeito.

Quando Ander acordou, estava deitado em uma cama, sua visão ainda estava turva e as vozes ao seu redor pareciam ecos distantes, fantasmagóricos. Estavam todos alvoraçados e repetiam sem sessar que o menino havia acordado. Grandes mãos brancas tocaram-lhe a testa, estavam frias. Ele assustou-se, pensou ter sido capturado, mas a voz feminina o acalmou e ele voltou a dormir. Seria ela uma fada?

O sono do garoto foi interrompido quando um raio luminoso preencheu o quarto. A claraboia no teto permitia que a luz do sol penetrasse no lugar. Dessa vez ele estava sozinho deitado na sua cama, com o tórax coberto por folhas e unguentos. A porta se abriu e uma mulher usando uma roupa tecida de penas coloridas e segurando uma bandeja de madeira entrou no quarto, ela sorriu ao vê-lo acordado.

— Bom dia. — Ander reconheceu sua voz, mas ela era uma humana assim como ele, e não uma fada. — Imagino que esteja com fome.

Ele apenas acenou com a cabeça e ela deixou a bandeja em seu colo. O garoto comeu como nunca fizera antes, o ensopado era sem dúvidas a melhor coisa que ele já havia experimentado.

— Eu sou Kara. — disse ela enquanto o garoto se fartava. — Encontrei você na floresta, estava quase morrendo.

— Ander. — Ele respondeu limpando a boca com as costas da mão. — Meu nome é Ander.

— É um prazer conhece-lo, Ander. — A moça sorriu mais uma vez.

— Obrigado por me salvar. — Ele levou a mão sobre as folhas que lhe cobriam o tórax. — Pensei que iria virar pó.

Ela sorriu.

— Não fui eu que te salvei. Foram os druidas.

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Círculo druídico, art by Seb McKinnon

Depois de satisfeito, Kara o levou para fora e o conduziu entre as árvores até uma clareira onde vários seres se reuniam em um círculo. Havia uma águia, um lobo, um cervo, dois elfos, um humano e uma criatura que Ander nunca havia visto antes. Eles falavam em uma língua que o garoto não entendia, mas o círculo fez silêncio quando perceberam que estavam sendo observados.

— O garoto parece bem. — A voz ecoou de um carvalho próximo.

— É uma surpresa. — respondeu o elfo que parecia mais jovem enquanto o lobo se aproximava dele e farejava o local onde a lança o havia ferido.

— Qual é o seu nome, criança? — disse novamente o carvalho.

— Ander. — Ele respondeu procurando quem falara com ele.

— Por favor, Kara, pode retirar o curativo? Queremos ver o ferimento.

Kara sorriu para Ander e removeu as folhas medicinais que lhe cobriam o tórax. Os presentes murmuraram. O garoto olhava de um para outro sem entender.

— Só ficou uma cicatriz. — disse o humano.

— Uma cicatriz branca. — completou o carvalho.

— Palo, o que isso significa? — perguntou o elfo jovem.

Para surpresa de Ander, a voz que antes parecia ecoar de um carvalho agora vinha de uma criatura humanoide. Ele não havia percebido sua presença antes, era preciso olhar muito atentamente para distinguir aquele ser que se misturava tão perfeitamente com a vegetação a sua volta. Palo se aproximou do garoto e lhe sorriu, seus olhos brancos refletiam o rosto assustado de Ander.

— Eu não sei, Tharedan. Eu não sei.

O tempo passou e o mistério da cicatriz branca não foi solucionado. Apesar de confiantes e seguros de que o garoto teria sido curado daquela horrenda praga, eles não sabiam dizer se aquilo havia sido, de fato, mérito deles. Alguns pensavam ter sido obra de alguma divindade da floresta.

 Ander afeiçoou-se a Kara e ela, por sua vez, viu no rapaz o filho que a natureza havia lhe negado. O jovem tornou-se aprendiz da patrulheira. Ela o ensinou a caçar, rastrear e até mesmo a se camuflar nos mais diversos ambientes.

Os druidas os enviavam em missões para recolher informações sobre a praga da morte quando obtinham notícias de que ela havia chegado a mais lugares. Tudo que encontravam era desolação, morte, tristeza e solidão. Agora, seis anos depois de Ander ter sido ferido, eles pareciam estar mais perto do que nunca das respostas que buscavam.

— Chegamos! — anunciou Kara.

Os dois estavam parados em cima de um penhasco. À sua frente, erguia-se um imenso vale onde um rio corria ruidosamente entre as pedras no fundo e às costas, uma planície de grama verde.

— Parece que tudo está bem. — disse Ander olhando ao redor. — Não há sinal da praga aqui. É esse mesmo o lugar?

Kara assentiu. Ela tinha certeza que chegaram no lugar correto, mas as observações de seu aprendiz faziam sentido. Os druidas não costumavam errar, era melhor que eles verificassem com mais atenção.

— Talvez devêssemos descer até o fundo do vale e olhar mais de perto. — Ele sugeriu — Pode ser que a praga esteja no começo.

Um vento frio agitou a grama onde pisavam, fazendo com que sentissem um forte odor de carne em decomposição. Kara virou-se de costas e logo sacou uma flecha de sua aljava retesando-a no arco. Ander sentiu um arrepio na espinha quando viu no que sua tutora mirava: três criaturas cobertas com capas brancas esvoaçantes estavam paradas a alguns metros deles. A que estava no centro trazia um cajado em uma das mãos com o crânio de um cervo morto pendurado na ponta enquanto que as duas das laterais traziam as lanças de ponta brilhante.

O rapaz levou a mão instintivamente na sua cicatriz e segurou sua própria lança com força. O líder do bando macabro acenou com seu cajado e os dois capangas avançaram movendo-se tão rapidamente que pareciam não tocar o chão. Kara disparou a primeira flecha acertando a criatura da esquerda na altura da cintura e antes mesmo que Ander pudesse pensar, ela já havia preparado outra flecha e disparado, mas dessa vez o alvo desviou.

Ander foi atacado e usou o cabo de sua lança para se defender empurrando seu agressor para trás. Kara abandonou o arco e passou a manejar um punhal de pedra lascada, mas os oponentes eram ágeis demais para serem atingidos no combate corpo a corpo. Tudo que os dois conseguiam fazer era desviar das lanças mortais.

Ela então se colocou na frente de Ander e fincou seu punhal de pedra no chão. Do seu cabo, uma fumaça densa surgiu e circundou as criaturas que atacavam os patrulheiros. Aos poucos, a névoa foi tomando a forma de quatro bestas, lobos que rosnavam ferozmente. Estavam prontos para atacar os seres de manto branco. As criaturas puseram-se em posição de defesa aguardando o avanço deles.

— Ander, preciso que me faça um favor. — disse Kara colocando uma das mãos no ombro do rapaz. — Quero que volte para o círculo.

Ele arregalou os olhos com a possibilidade de deixar sua mentora sozinha para enfrentar aquelas criaturas.

— Eu não vou sem você.

— Não discuta comigo, meu jovem. — O tom de voz dela era mais ríspido que o normal. — Eu vou segurá-los aqui e você vai relatar aos druidas. Fim de conversa, agora vai.

Ander deu um passo para trás relutante, seu coração doía, mas ele fez como ela disse e saiu correndo para o sul, acompanhando as curvas do vale. Ele correu para longe, sentia as lágrimas escorrerem pelos seus olhos. Correu até chegar a uma enorme pedra entalhada na fissura do vale e se escondeu atrás dela. De lá, com o peito arfando e o rosto molhado, ele podia ver de longe a cena que se seguiu à sua fuga.

Kara ordenou e os lobos avançaram nas criaturas de lança brilhante. O manto de uma delas se rasgou revelando sua verdadeira aparência, era humano. Mas tinha sua carne putrefata, sua cabeça estava sem cabelos e, mesmo à distância, Ander conseguiu ver marcas brancas calcificadas semelhantes à sua cicatriz espalhadas por todo o corpo.

As bestas conjuradas pela patrulheira eram fortes o suficiente para lidar com os humanoides de lança enquanto ela travava uma batalha corpo a corpo com o líder deles. Os lobos eram superiores em força, conseguiram arrancar os membros de um dos lanceiros, mas ao custo da perda de dois deles quando foram atingidos pelas pontas das lanças.

Para Kara, a situação era mais complicada. O líder daquelas criaturas era versado em combate corpo a corpo e manejava seu cajado com facilidade. Cada investida da mulher era defendida e rapidamente seguida de contra-ataque. Foi em um desses em que ela acabou caindo e perdendo o punhal que usava. Ander prendeu a respiração enquanto Kara tentava se levantar e foi atingida por um golpe na barriga que a lançou ao ar. Ela caiu no chão alguns metros à frente com um poderoso estrondo.

Os lobos que ainda lutavam contra o lanceiro sobrevivente desapareceram. O líder dos humanoides se aproximou da mulher e ergueu seu cajado no ar. Ander reparou que a ponta inferior era afiada e tinha o mesmo brilho que as lanças dos capangas. Kara rastejou lentamente, tentando se afastar do agressor.

O sacerdote balançou o cajado no ar fazendo o crânio do cervo dançar e então desferiu o golpe letal. Sua arma perfurou a patrulheira no tórax e a prendeu na terra, incapaz de se mover. Uma poça de sangue se formou ao seu redor. Do cajado daquela sinistra criatura, uma mancha negra e disforme ergueu-se no ar, barulhenta como mil homens sofrendo em tortura, ela avançou para o vale e desapareceu no seu interior.

Quando a visão clareou, Ander estava sozinho. Não havia sinal de Kara, do sacerdote ou do seu capanga que havia sobrevivo aos lobos. Seu coração palpitava intensamente quando se dera conta do que havia acabado de acontecer. Ele não tinha certeza de que os inimigos haviam desaparecido com aquela mancha, então decidiu que deveria se afastar dali o máximo que pudesse. Ele correu por horas, suas forças se esgotaram. Já estava na floresta onde o círculo de druidas se reunia quando a noite caiu. Uma dor pontiaguda no peito ao respirar era o sinal de que seu corpo havia se esforçado demais. Sua visão ficou turva e seus sentidos se esvaíram.

Quando ele acordou, estava de volta no quarto com a claraboia no teto que deixava a luz do Sol entrar no aposento. A janela aberta deixava uma brisa leve e morna entrar. Dessa vez, Kara não estava lá para alimentá-lo, mas próximo a porta, um elfo de olhos dourados o encarava friamente.

— Finalmente você acordou. — disse ele.

— Tharedan… — Ander respondeu erguendo o corpo da cama. — Ela, Kara…

Era difícil pronunciar as palavras que vinham a seguir, então o druida o ajudou.

— Morreu. Quando o encontramos na floresta, fomos até o local onde estavam investigando. A vida está morrendo lá também, infectada pela mesma praga que nos assombra dia após dia. Não encontramos vestígios de sua tutora, então concluímos o pior.

Ander sentiu as lágrimas escorrerem no seu rosto. Tharedan revirou os olhos e continuou a falar.

— Não adianta chorar. A morte é parte natural da vida, Kara terminou sua jornada. É melhor se arrumar logo, estão esperando por você lá na clareira.

Quando ele chegou até o círculo, os druidas já estavam dispostos em seus lugares. Palo ocupava o trono de carvalho, quase tornando-se um com a árvore. Eles encaram Ander e se puseram de pé. Pediram que ele relatasse o que havia acontecido e ele contou tudo o que vira no fatídico dia. No final, ele não sabia dizer se os druidas estavam contentes ou temerosos com as descobertas que havia feito.

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Ander, art by Heroes of Camelot

 

Dois anos depois da morte de sua tutora, Ander havia finalmente se tornado um adulto. O inverno deu seu lugar à primavera e a neve derretera deixando a terra da floresta úmida, propícia para a nova vida que estava surgindo. O rapazote treinava com seu arco e flecha quando foi surpreendido pela presença do druida do carvalho.

— A cada dia que passa, eu fico mais velho. — disse Palo. — E você, mais forte, mais focado, mais destemido, Ander.

— Eu não tenho escolha, Palo. — respondeu ele realizando mais um disparo no alvo que estava a cinquenta metros de distância. — Um dia irei encontrar aquelas criaturas novamente. Preciso estar preparado.

— É verdade que desde aquele dia não tínhamos mais notícias deles. — A voz de Palo era rouca, como o farfalhar das folhas tocadas pela brisa.

Ander devolveu a flecha que já estava retesada no seu arco para a aljava e virou-se para o druida.

— Tínhamos? — disse o patrulheiro. — Quer dizer então que temos novas pistas?

Palo o encarou com tristeza e assentiu.

— A praga está se movendo para leste. Está cada vez mais próxima das grandes cidades humanas. Se chegar até elas, o número de mortes pode ser gigantesco. Talvez você deva investigar.

Ander o encarou em silêncio. Aquela era a oportunidade que esperava. Estava mais forte e preparado do que nunca, talvez estivesse pronto para vingar a morte de seus pais e de sua tutora. Poderia chegar à fonte daquele mal e pôr um fim na praga para sempre.

— Eu vou. — Ele disse.

— Mas não vai sozinho. — Um outro druida surgiu dentre as árvores. Seus olhos dourados pareciam vasculhar a alma de Ander.

Ele encarou Tharedan e assentiu. Embora não gostasse muito do druida, sabia que ele seria um aliado precioso no que estava prestes a enfrentar. O mundo de Ander nunca fora tão escuro e sombrio quanto agora, qualquer ajuda poderia fazer a diferença. E ele estava disposto a fazer de tudo para permanecer vivo.

 


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