O caixeiro que virava bicho

caixeiro viajante

Certa vez o caixeiro passou mais de um ano sem dar notícias, e quando finalmente retornou de viagem, se encontrava muito magro e abatido. Nada revelou à sua senhora sobre sua desventura nas estradas do sul do país. Desse modo, adoentado, acabou sendo aposentado.

De homem ativo e comunicativo a quieto e de poucas palavras. A vida boa foi decaindo. A aposentadoria mal dava para comer e vestir. Até que mudaram para uma casa menor e mais barata, fora da cidade onde moravam. Ocuparam um triste casebre no campo, um lugar sem vizinhança, com muita mata ao redor.

O caixeiro tomou gosto por passear pelas redondezas, já que não tinha mais ocupação. A mulher fazia as tarefas de casa e a comida. Assim o tempo corria tranquilo.

Foi em uma noite qualquer que a esposa despertou e deu por falta o marido que não estava na cama. Era madrugada: para onde teria ido? A esposa levantou, acendeu o lampião e foi para a porta da frente — estava apenas encostada. Abriu e deu uma volta pela varanda, circulando também pelo quintal. Deu uma olhada por todo o terreiro ao redor — nada do marido.

Voltou para dentro. Pegou no sono.

Quando a preocupada esposa despertou, encontrou o marido roncando ao seu lado. Apesar do acontecido, nada comentou com ele.

Mais de um mês se passou. Então, em algum momento durante aquela noite, o homem sumiu novamente. Notando o acontecido, a pobre mulher apenas o aguardou entre as cobertas — adormeceu antes que ele chegasse.

Pela manhã, nada comentou. Ela planejava como descobrir o motivo para o repentino sumiço do marido no meio da noite.

Semanas se passaram depois daquele dia.

Então despertou com o reboliço do marido sobre a cama. Fingia dormir, observava o caixeiro que se levantava na escuridão. Ele calçou suas botas e sumiu na noite.

A esposa seguiu em seu encalço, adentrando o matagal, acompanhando o caixeiro. Devia ser mais de meia-noite. A lua estava cheia, brilhando no topo.

Adiante, depois de uns quinze minutos de caminhada, o homem parou perto de uma casa velha e abandonada. Da moradia restavam apenas as paredes. A mulher, resignada, vigiava de uma moita. Viu seu marido adentrar a tal construção. Depois de breve momento de quietude, surgiu do casebre, a toda velocidade, um enorme porco preto e olhos vermelhos como brasas.

Não sei como, mas a criatura corajosa saiu do seu esconderijo, adiantando-se até a velha morada. Ali, deixadas no chão, avistou as roupas e calçado do marido. Muito apavorada, ela voltou para sua casa. Mal conseguiu dormir.

Quando ela despertou, encontrou o marido ao seu lado. Roncava pela boca enorme e escancarada. A esposa aflita olhou para o caixeiro, horrorizada ao ver suas unhas sujas de terra e seus dentes cheios de fiapos de tecido. Ainda assim, com tantas coisas sem explicação, a mulher continuou sem fazer perguntas.

Naquele mesmo dia à tarde, inventou uma estória para o marido, partindo em busca de ajuda na cidade.

Primeiro consultou o padre. Ele disse não saber de nada sobre aquele tipo de assunto e alertou que as pessoas comuns iriam zombar dela, trazendo má fama para sua casa. Foi então que lhe veio à ideia de consultar uma cigana que vivia afastada do povoado, em uma serra pelas redondezas.

Na conversa com a cigana, relatou seu problema. Por algum motivo, a feiticeira se demorou a dar seu parecer. Então revelou que o caixeiro estava “virando bicho”. Também lhe deu a solução para o problema, que seria, supostamente, apanhar as roupas do marido assim que ele “virasse” porco e corresse para longe. Por fim, deu alguns cruzeiros pela orientação e sigilo.

Algumas semanas depois, quando a lua cheia surgiu, a mulher vigiava o marido — foi na terceira noite que ele partiu às escondidas. E ela, mais uma vez, o acompanhou de longe.

O infeliz adentrou o casebre, ressurgindo na forma do porco agigantado, e correu para a mata. A esposa, corajosamente, avançou para a construção, apanhando em seu interior as vestes do marido. Voltou para casa sem olhar para trás. Quase sufocada de tanto medo, imaginando o animal medonho lhe perseguindo. Mas nada viu ou ouviu além do que contei. Além disso, a pobre mulher passou o restante da noite em claro.

Pela manhã, deitada na cama, fingindo dormir, a esposa avistou seu marido adentrando na casa. Seu rosto estava deformado. Tinha a boca escancarada, com dentição grande e afiada. Parecia possuído por um espírito das trevas. Ela permaneceu quieta e encolhida debaixo do lençol.

O caixeiro, sem roupas, caminhava de um lado para o outro furioso. Bufava pelas ventas. Depois de muito andar em círculo, chegou perto da cama. Sentou-se na cama. Depois, deitou. No fim, roncava alto. O homem tinha terrível cheiro carniça.

Quando despertou — perto do meio-dia —, o caixeiro agiu normalmente. Mais uma vez, a esposa nada conversou sobre o acontecido. E ele parecia de nada lembrar.

Dias se passaram sem nada estranho acontecer. Ficaram visíveis as mudanças no semblante do marido, que havia corado, recuperado seu vigor de sempre, além do costumeiro bom humor.

Passada uma semana, o caixeiro foi até a cidade fazer feira na mercearia. Quando voltou, contou para a esposa os boatos que ouviu de amigos que estavam no estabelecimento. Falavam de um bicho que surgiu, cavou por debaixo do portão do cemitério e violou algumas covas, roendo os ossos dos defuntos. Ela, naturalmente, deu de ombros, afirmou que aquilo não passava de invenção do povo.

 


Assinatura_Crônicas - Ricargo Old Folk-09

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