Hector Dumont – O contrabandista

Hector Dumond é um personagem que pertence ao mesmo mundo de Theophilus Yardley e da capitã Verna Shamira cujos background eu já apresentei anteriormente. Todos os três personagens fizeram parte de uma aventura steampunk baseada nas diretrizes de RPG de Filhos do Éden. Theophilus é uma espécie de mago e Verna uma guerreira. Hector, por sua vez, pode ser definido como um ladino contrabandista de informações (talvez algo próximo a um espião).

Para escrever o background dele, me inspirei na minha cena preferida de Vingadores, aquela em que a Viúva Negra descobre os planos de Loki.



A verdade

A sala cinza mal iluminada por lamparinas a gás dava um ar ainda mais sinistro à situação. Aquela era a sala para onde os homens do general Frederick Jay-Knivetton levavam as pessoas que capturavam para depor. No centro da sala, apenas uma mesa com duas cadeiras em lados opostos formava o conjunto decorativo.

Aghata estava sentada em uma delas segurando uma xícara de chá oolong em uma das mãos. Embora não apreciasse o sabor daquela bebida, sentia-se confortável com seu cheiro que lhe trazia recordações do seu passado em Singapura. A porta da pequena sala se abriu e dois homens entraram trazendo consigo um terceiro indivíduo magrelo, de cabelo desgrenhado e barba por fazer. Provavelmente aquele homem passara mais de duas semanas na prisão.

Os soldados deixaram o prisioneiro na cadeira vazia e se retiraram da sala. Aghata ajustou seus óculos de meia-lua e encarou o homem. Se ele tremia de frio ou de medo, ela não sabia dizer, mas certamente aquilo seria usado a seu favor. Seus olhares se cruzaram por um instante e ela quase sentiu pena dele, mas sabia que deveria mantar-se imparcial naquela situação como fizera incontáveis vezes antes.

— Eu sou Aghata Patel, estou aqui por ordens do general Frederick Jay-Knivetton para lhe fazer algumas perguntas. — Ela tentou exibir um sorriso amistoso.

— Não tenho nada a dizer. — disse o homem cuja voz soava fraca como um sussurro.

— Todos têm algo a dizer. — Ela rebateu. — Garanto que eu sou a forma mais indolor e tranquila que o capitão dispõe para conseguir as informações que deseja. Ele tem métodos mais persuasivos, caso esteja interessado.

Aghata aguardou pela resposta do prisioneiro, mas este manteve-se em silêncio encarando as mãos algemadas. Ela interpretou como um sinal para que continuasse.

— Muito bem. Vamos começar com uma pergunta simples então. — disse a interrogadora. — Qual é o seu nome?

O prisioneiro a encarou novamente antes de responder. Seu lábio superior se movia involuntariamente.

— Hector Dumont.

— Certo, senhor Dumont. — Aghata percebeu um leve sotaque na voz do homem, ela levou a xícara de chá próximo ao nariz antes de fazer a próxima pergunta. — Onde o senhor nasceu?

— Paris.

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Paris De Nuit, by Brassai

— Cidade magnífica. Sinto falta de Paris, mesmo que só tenha estado lá duas vezes. — Aghata olhou para o teto, sorriu distante em suas recordações e então voltou a olhar Hector. — Para você deve ser ainda mais difícil, não é?  Poderia me contar um pouco sobre sua infância? Sou fascinada por histórias nas quais Paris é o cenário.

Aghata era a melhor interrogadora que o general dispunha. Ela sabia ser persuasiva e quase nunca falhava em obter as informações que queria. Tudo isso graças a uma vida dedicada ao ofício de manipular, enganar e seduzir. Ela nunca estivera tão em forma como estava agora, mesmo que dissessem o contrário. Não havia muitas pessoas no mundo conhecido capazes de resistir ao seu interrogatório. Com aquele pobre homem moribundo não seria diferente.

Ela sorria discretamente ao perceber os sinais de que o criminoso estava caindo em seus truques. Com os homens era mais fácil, sempre atraídos pela sua aparência. Ela se considerava uma das mulheres mais belas do país e nem mesmo cinco décadas haviam sido capazes de dar fim a sua beleza. Usava sempre seu cabelo grisalho preso em um coque em cima da cabeça e nunca se separava do colar que ganhara de aniversário de quinze anos do já falecido padrasto. O nariz curvado era desproporcional ao seu rosto e as orelhas ostentavam brincos pesados com pingentes nas pontas que as fazia sacudir tal qual pêndulos de relógio arrítmico.

— Fui o mais velho de cinco irmãos. — Hector disse por fim. Parecia estar um pouco mais tranquilo agora. — Um dia acordamos e meu pai havia nos abandonados. Tive que trabalhar desde cedo para não morrermos de forme.

— E com o que você trabalhava?

— Uma das poucas coisas que as crianças podiam fazer melhor que os adultos: limpar chaminés. — Seu olhar ainda estava fixo em suas mãos. — Eu ainda tinha a vantagem de ser muito magro, ou desnutrido dependendo do ponto de vista. Então era ágil e cabia em praticamente qualquer chaminé.

Nessa altura, o chá oolong da interrogadora já havia esfriado e ela perdeu o interesse no seu odor, deixando a xícara sobre a mesa e concentrando-se ainda mais no que o prisioneiro a contava. Ela não estava interessada em ouvir o passado daquele homem, mas sabia que conseguiria obter as informações que precisava cedo ou tarde. Seu método era lento, mas eficaz.

— Entendi. Isso deve ter deixado sequelas. Talvez por isso os homens do general o tenham pego tão facilmente. Correr deve ser um problema para você.

Hector assentiu. O contato com a sujeira das chaminés o havia deixado com sérios problemas respiratórios, ficava cansado rapidamente e as vezes tinha falta de ar.

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Hector Dumont, by BentalaSalon

— Como foi que você veio para a Inglaterra?

— Tudo começou quando eu tinha treze anos. Foi quando conheci Jaques, um garoto morador das ruas de Paris. Nós nos tornamos amigos muito rapidamente, éramos inseparáveis. Um dia, enquanto estávamos próximo ao Sena, ele me contou que havia ficado sabendo de uma empresa de autômatos londrina que estava buscando por mão de obra. O cartaz que ele me mostrou dizia que o salário era muito bom. Fiquei empolgado com a possibilidade de conseguir dar uma vida melhor para minha mãe e meus irmãos. Calculei que se trabalhasse por alguns meses nessa fábrica, poderia juntar dinheiro suficiente para trazê-los para Londres. Pensava que seríamos felizes aqui.

— Pelo seu tom eu posso deduzir que não foi assim que aconteceu. — Disse Aghata descruzando as pernas. — O que foi que deu errado?

Hector a encarou brevemente, como se avaliasse se devesse ou não contar. O sorriso da interrogadora parecia deixa-lo encabulado.

— Contei a minha mãe sobre a oportunidade. Ela não queria que eu visse. Deveria tê-la ouvido, mas eu havia ficado empolgado com a ideia e não dei atenção aos seus temores. Com muita dificuldade eu consegui juntar o dinheiro para comprar uma passagem como clandestino em um navio de carga que Jaques havia me indicado. O capitão do navio havia garantido que seria uma viagem segura, com duas refeições ao dia e com o mínimo de conforto que um navio daqueles pudesse dar, mas fui enganado. Jogaram a mim e outras dezenas de homens, mulheres e crianças em um porão imundo, infestado por ratos e com cheiro de urina e fezes. Não víamos a luz do dia e tudo o que nos davam, era uma sopa rala de nabos que jogavam por uma portinhola durante a noite.

Aghata cruzou as mãos sobre a mesa e inclinou seu corpo um pouco para frente na direção de Hector.

— Parece que você foi parar em um navio escravocrata. — comentou ela. Sua expressão era de júbilo, estava finalmente ficando interessada na história do prisioneiro.

Hector sorriu triste.

— Também foi essa a impressão que tive, mas estava enganado. — Ele continuou. — Eu estava de fato em um navio de carga. Mas em vez de ir para Londres, como havíamos combinado, o navio acabou parando em Ipswich. Muitos não sobreviveram à viagem e os que chegaram em terra firme estavam à beira da desnutrição. Os que conseguiram terminar a viagem foram levados para uma fábrica de botões, onde tivemos que trabalhar por um salário que mais parecia ser esmola. Nos colocaram em cortiços que nos deixavam com saudade dos porões do navio.

A interrogadora esticou uma das mãos sobre a mesa segurando a de Hector por cima. O prisioneiro pareceu-se assustar com o gesto da mulher, mas não recuou. Aghata sentia-se triunfante, seu plano estava funcionando.

— O importante é que você está bem agora. — Ela disse sorrindo amavelmente. — Como foi que saiu de lá?

— Eu me cansei. — Hector fechou as mãos em punho. — Não passávamos de animais para eles e, mesmo não tenho para onde ir, eu resolvi fugir.

— Você foi muito corajoso. — Aghata comentou. — E quando foi que chegou em Londres?

Hector a encarou desconfiado, mas a interrogadora estava certa de que estava fazendo progresso. Estavam finalmente chegando no ponto em que ela desejava e ver a incerteza no rosto do interrogado significava que a informação que ele guardava faria seu tempo valer a pena.

— Isso foi há muitos anos atrás, eu não me lembro direito. — Ele mentiu.

— Vamos lá, senhor Dumont. — A voz da interrogadora soava tranquila. — Pode confiar em mim. Estou aqui para ajudá-lo.

Hector tentou respirar fundo, mas o ar fez seu corpo tremer. Para Aghata, ele estava prestes a falar algo importante.

— Cheguei a Londres no verão de 1880. Estava sozinho na cidade, dormindo em becos e comendo lixo. Eu valia menos do que um pedaço de cobre. Foi quando eu conheci uma pessoa, bom, não era necessariamente uma pessoa. — Hector fez uma pausa e encarou o chão da sala pensativo. — Você não vai acreditar em mim.

Era aquilo que Aghata queria ouvir. Um sorriso lateral iluminou seu semblante ante a revelação e com a mão direita ela ajustou os óculos sobre o nariz. Mas ela precisa de mais, ela queria mais.

— Prometo que confiarei em cada palavra que me disser. Qual o nome dele? — Ela perguntou como se estivesse pouco interessada.

Hector mantinha o olhar fixo na mulher.

— Ele era um anjo caído, um belial. Pedia que o chamasse de Gamonal. — disse ele analisando-a.  — Você não parece surpresa.

— Digamos que eu já saiba muito bem que não estamos sozinhos neste mundo. — Aghata sorriu sinceramente. — Tanto eu quanto meus superiores estão cientes da presença de anjos e demônios na Terra. Mas agora, conte-me mais sobre sua relação com esse tal de Gamonal.

Hector assentiu e respirou fundo.

— Ele prometeu que me daria uma vida digna na cidade, eu poderia até trazer minha família para viver comigo. Tudo o que eu precisava fazer era realizar alguns serviços para ele. Me arrependo de tudo o que eu fiz.

— Você fez um pacto. — A interrogadora concluiu. — Isso está ficando cada vez mais comum. Senhor Dumont, o que teve que fazer para ele?

Hector abriu a boca para falar, mas seus lábios tremiam. Ele tentou respirar fundo, mas não conseguiu conter as lágrimas que jorravam com facilidade. Foram necessários alguns minutos para que Aghata conseguisse acalmá-lo.

— Eu fiz coisas horríveis. — Ele falou em meio a soluços. — Não há uma única vez que eu não acorde no meio da noite pensando nisso.

Aghata cerrou os punhos sobre a mesa e fixou seu olhar em Hector. Ele já estava um pouco mais tranquilo quando ela tirou os óculos colocando-os sobre a mesa. Certamente aquela situação a incomodava mais do que deveria.

— As coisas não estão certas. — Ela disse. — Nosso livre arbítrio é sagrado, esses demônios não têm o direito de interferir nas nossas vidas. É nosso dever sagrado livrar o mundo criado por Deus dessas aberrações infiéis.

A interrogadora estava visivelmente exaltada e aquilo era estranhamente agradável a Hector. Pela primeira vez desde que o interrogatório havia começado, ele sorriu com sinceridade. Reclinou-se na cadeira e assumiu uma posição mais confortável, sentia-se vitorioso. Aghata o encarava sem entender o que estava acontecendo.

— Então quer dizer que o general Jay-Knivetton e seus homens servem aos céus? — Hector perguntou. — Bom, isso explica o desaparecimento de alguns dos meus amigos.

Até mesmo seu tom de voz estava diferente, não havia mais sinal de medo ou insegurança. Cada palavra era pronunciada impecavelmente. Sua atitude confiante deixava Aghata desconfortável. Até aquele momento ela havia pensado estar no controle total da situação, mas estava enganada.

— O que?

— Tudo bem, não precisa dizer mais nada. Eu já descobri o que queria saber. — disse Hector. —Os legalistas devem estar desesperados para começarem a trabalhar com humanos. Agradeço muito por ter contribuído comigo. Era tudo o que eu precisava saber.

Aghata não entendia o que havia acabado de acontecer, mas Hector a havia manipulado desde o começo para extrair as informações que precisava. Aquilo nunca havia acontecido antes, ela nunca havia perdido daquele modo.

— Não importa! — O desconforto dera lugar à ira e a uma veia pulsante na testa de Aghata. — Não tem como você sair daqui.

— É isso que acha? — Hector caçoou. — Agora mesmo aquela porta será aberta, um homem armado irá aparecer usando o uniforme do exército e me escoltará para fora daqui em segurança.

— Isso não vai dar certo. Não vai dar certo. — A interrogadora balançava a cabeça em negação.

— Repita isso quantas vezes forem necessárias para acreditar. — Ele rebateu sorrindo. — Mas acho que o que mais te incomoda, Aghata Patel, é que você foi vencida no seu próprio jogo.

Não houve tempo para a réplica, a porta da sala de interrogatórios se abriu e um homem armado com uma pistola de éter-líquido entrou. Hector deixou a sala acompanhado por ele e trancou a porta do lado de fora. Demoraria algum tempo até que alguém notasse a falta da interrogadora e fosse procurar por ela.

O tempo foi mais que o suficiente para que Hector deixasse as instalações da Torre de Londres e fugisse em um barco a vapor pelo Tâmisa até o porto, onde um homem careca de pele acinzentada e com sobretudo preto o aguardava próximo a um container de metal fumando um cigarro.

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Gamonal, by yefumm

— Conseguiu, Hector? — Ele perguntou jogando o cigarro no chão e pisando nele. — Ela falou?

— Falou tudo o que precisávamos saber, Gamonal. Nossas suspeitas foram confirmadas. — Hector estava contente. — Sabe como é, contrabando de informações é minha especialidade.

O demônio sorriu e contemplou o rio de água lamacenta.

— Bom trabalho. Como fez para ela dizer o que queria?

— Não foi difícil. Eu só precisei falar a verdade.


 

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