Antes de acordar

Certo homem negro refletia sobre a própria vida. Estava assentado nos degraus de uma ampla escadaria, era o casarão do seu proprietário. O desmazelado escravo havia acabado de varrer suas imediações — sua incumbência diária, antes que amanhecesse.

Encontrava-se naquela situação havia muito tempo, era escravo antigo, nascera nessa condição. E havia se acostumado com ela. Velho como estava, depois dos seus afazeres, lhe foi permitido vadiar pela propriedade. Ganhara a confiança do senhor da casa, afinal era chamado de “nego sabido”, melhor elogio que já recebera.

  Estava velho demais para tentar qualquer coisa que pudesse melhorar a situação em que se encontrava. No tempo em que dispunha de força, não tinha coragem, e agora que tem coragem, já não dispõe da força, além do mais, estava quase cego. Dessa forma, só lhe restava lamentar em silêncio, viajar através de sonhos que nunca chegaria a realizar. Pensava: se pudesse voltar no tempo, teria se atirado no mar como o pai um dia o fez, ou teria se rebelado contra seu feitor, seu sofrimento teria chegado ao fim.

  Mas então, o galo cantou, e ele voltou a si. Escondeu uma lágrima que lhe escorreu no rosto, bateu com a mão no fundilho da sua calça de saco e foi para o campo.

Durante a madrugada, quando estava trancado com seus iguais, dormindo no quarto coletivo que ficava abaixo do casarão, o velho homem negro despertara com o barulho de gemidos proveniente de muitas direções. Ergueu-se por curiosidade, e em meio a vultos e luzes de alguns poucos candeeiros que ainda permaneciam acesos, dera-se conta de que o vulto era de uma pessoa de grande estatura, tão alto que caminhava muito curvado por conta do teto baixo daquele cômodo. Não lhe bastando, aquela forma sombria tinha contornos arroxeados, perambulava entre aqueles que dormiam amontoados em suas esteiras de palha sobre o chão frio e batido.

Era perturbador para ele mesmo ser capaz de enxergar aquilo que definitivamente não era gente, contudo, não lhe era tão estranho perceber luzes ao redor das pessoas, mas nunca comentara nada com ninguém sobre essa sua qualidade.

Ele havia escapado do submundo, e assim, finalmente, regressando a Terra depois de muitos séculos. Contornou as regras e conseguira a liberdade, muito embora não soubesse por quanto tempo usufruiria dela. Mas estava decidido a desfrutar daquele instante o melhor que pudesse.

Em seu íntimo, sabia a verdade. Apreciador do luxo, conduzido pela vaidade e a soberba contidas em seu coração, algum desses pecados o levaria a mais completa ruína, uma vez mais. Tudo era só uma questão de tempo.

Aquele ser perambulava sem destino, vagava pela imensidão verde de uma selva, tão vasta que tocava o céu no horizonte. E quando não fazia ideia de para onde ia, encontrou-se com homens que viviam nus naquela terra. Com sua malícia, apresentou-se como um espírito da terra, enganando-os para em seguida lhes furtar o saber prático, corrompendo-os e os desencaminhando antes de deixá-los. Assim era Ele que viera de lugar nenhum.

Agora, graças ao povo simples de pele vermelha que deixara para trás, sabia que caminho tomar. Ele caminhou sem descanso por vários dias, até que finalmente se deparou com pequenas propriedades, fazendas. Aproveitando-se da capacidade de ficar invisível aos olhos dos homens, passeou livremente por entre os habitantes do lugar.

O andarilho se deparou com homens de pele clara, sujos, barbados, gordos e propensos à impiedade. Existiam também outros, de pele escura e feições grosseiras, acorrentados e reduzidos a escravos. Mesmo tendo passado incontável tempo desde que caminhara como homem livre sobre a Terra, acabou mergulhado nas trevas, alheio ao que acontecia no mundo; Ele encontrara apenas mais do mesmo: práticas violentas. O que presenciara era análogo ao inferno pelo qual passara. Também não era diferente da vida munda anterior ao seu desencarne, onde era um mancebo grego que usufruía do seu domínio da vida e morte dos derrotados em batalha, convertidos a escravos.

O pobre homem ficou de olhos arregalados quando se dera conta tardiamente de que o vulto arroxeado o encarava. E antes que o velho pudesse reagir — seja lá como fosse — aquele fantasma já se encontrava sobre ele.

— Venho em paz… — disse uma vós límpida que lhe chegara à cabeça não por meio da sua alquebrada audição.

— Quem fala? —o escravo interpelou.

— Sou um Espírito da Terra. Um guardião.

— De onde vem?

— Você nunca entenderia.

— O que faz por aqui?

— Estava de passagem. Quis ver de perto o que se passava.

— E o que achou disso tudo?

— Triste. Lamento por vocês. Vejo alguns nobres e guerreiros entre vocês.

— Deve haver algum. Mas por que todo esse sofrimento?

— Vocês devem pagar o preço que lhes foi imposto. Parece injusto, e talvez seja. Ainda mais quando se ignora o valor, não se conhece o credor.

— Meu senhor… Isso parece muito complicado. — revelou o escravo, confuso com aquelas palavras.

— Isso mesmo — reforçou o desconhecido — Não é assunto para agora.

O velho homem pousou as palmas das suas mãos na testa, encarava o vazio entre os seus pés descalços e rachados. E antes que ele pudesse desabafar a entidade o impediu continuando com seu falar misterioso.

— Como prova de que me compadeço do seu sofrimento, ei de lhe conceder um único desejo. É algo proibido pelo meu… Digamos: rei. Mas como se trata de causa justa, serei perdoado por interceder em seu favor.

—O que lhe pediria que pudesse mudar minha vida? — indagou a si mesmo. Rápido lhe veio à resposta — Gostaria de uma segunda chance, acho que é isso…

— Considere feito! Use sua segunda chance com muita sabedoria.

O velho homem sentiu o vazio de seu velho corpo ser preenchido com vigor e disposição da juventude. Entretanto um sono profundo lhe tomou a consciência, e o pobre desfaleceu.

Antes de acordar teve seus mais belos sonhos da sua vida, onde nadava num rio e corria livre pelos campos; este sempre foi seu desejo.

Ao amanhecer, levantara como sempre fazia, porém sentira a força em seus músculos e ossos, estava disposto até para lutar, se necessário fosse. Uma nova história seria escrita por ele a partir daquele dia.

O demônio vagou em busca de um lugar onde pudesse repousar, muito embora não necessitasse de descanso, queria se deleitar com a liberdade ainda que provisória. Foi somente ao entardecer que brotou em seu coração o desejo de saber como passava aquele homem, que de bom grado havia auxiliado pela madrugada.

Chegando a fazenda encontrara aquele para quem havia estendido a mão, o escravo se encontrava suspenso pelos pulsos em um tronco, havia sido surrado até a morte.

Alguns capatazes que conversavam entre si sobre o ocorrido, comentavam que o infeliz havia comprovado ser o velho conhecido que varria as escadarias todas as manhãs, entretanto, foi incapaz de explicar como havia conseguido ficar jovem outra vez, não passava de mais uma artimanha do Diabo.


Assinatura_Crônicas - Ricargo Old Folk-09

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