Presente vazio

Havia uma mulher, ela tinha grande talento, pois conseguiu vencer as barreiras sociais, sendo uma mulher negra e pobre.

A qualidade da sua atuação a levou do status de mera figurante à uma atriz com pequenos papéis, mas que a permitiu juntar uma bela fortuna, e obter reconhecimento das pessoas, que a elogiavam quando a encontravam na rua.

Mas um certo dia, essa vida de “glamour” a cansou. Nada mais era tão prazeroso como antes, sequer sabia como gastaria sua inestimada fortuna… Então, ela abandonou seus últimos trabalhos.

Seu marido a deixou, disse que o casamento esfriou. Os filhos estavam ocupados com viagens e festas. Se sentiu só.

Pensou muito sobre o que faria a partir daquele ponto. Afinal, quem se importava? Então colocou todas as suas contas no débito automático, comprou um apartamento em um subúrbio, e desapareceu da ida dos seus parentes e amigos. Claro que eles nem iam perceber a ausência dela! Assim, aquela mulher extraordinária desapareceu do mapa.

Os únicos trabalhos que realizava eram os domésticos, além de fazer compras do que precisava nas lojas das imediações. Também assistia muita televisão, adorava os programas de palco.

Certa vez, aquela mulher reclusa estava em uma grande loja de departamento, quando um velho conhecido a avistou. Tentou falar com ela, mas a mesma se escondeu e desapareceu na rua. Seu velho conhecido não entendeu o porque daquilo, e foi embora, chateado.

Se passou muito tempo desde o encontro com sua amiga famosa. Ela ficou rica e não falou mais com o seu velho amigo. Aquilo não parecia ser uma coisa do feitio dela, era muito estranho.

O amigo preocupado resolveu investigar, e perambulando pelas redondezas do bairro onde havia avistado ela pela última vez, ele acabou encontrando o apartamento onde ela se escondia de todos, fazia alguns anos.

Por mais que desejasse, ele não invadiu a privacidade da antiga amiga e vizinha.

E quando voltava para casa, viu em uma banca de revistas, o que para a época era uma novidade: Depressão, o mal do século. Comprou a revista e se informou, e relacionou a sua amiga, isolada e esquecida, ou que talvez, desejasse viver assim, anônima.

No dia seguinte, de consciência pesada, avisou a um dos três filhos da sua amiga, que um dia já fora uma estrela.

Fazia muitos anos que não via a sua mãe. Ele e os irmãos se preocuparam em aproveitar a boa vida que ela deu a eles. Tanto que não se preocuparam com a ausência dela.

Mas quando ele, o filho mais velho, teve seu primogênito, ele se deu conta de quanto sua mãe fazia.

Certo dia, recebeu uma ligação não identificada que dizia onde vivia sua reclusa mãe.

Parecia simples ir ao encontro dela, mas ele teve vergonha, pois foi um mau filho.

Permaneceu nesse dilema por alguns anos, guardou o segredo. Mas certo dia contou a sua esposa, ela o repreendeu.

Com muito esforço, por causa da vergonha e arrependimento, os irmãos se decidiram. Foram ao endereço da mãe deles.

Os filhos cansaram de bater na porta do apartamento de subúrbio, onde supostamente, sua mãe vivia.

A TV estava ligada, as luzes estavam todas acesas, fora isso, tudo estava quieto. Os vizinhos não viam a mãe deles fazia muito tempo. Sua caixa de correio estava quase vazia, e suas contas estavam todas em dia.

Mas algo estava errado.

Os filhos, aflitos, solicitaram um chaveiro. Quando a porta foi aberta, encontraram um esqueleto, caído de bruços, em meio a muitas caixas de presentes, cartões de Natal, e um pedido de desculpas para os seus filhos, parentes e amigos.

Em uma carta, se justificava pela ausência. Dizia que tinha certa doença, mas que já estava curada. A carta estava datada com a data de exatos três anos atrás.


Assinatura_Crônicas - Ricargo Old Folk-09

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1 comentário Adicione o seu

  1. VitorBarra disse:

    Natal sem ar macabro não seria certo.

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