A Batalha antes do Natal

Ainda era meados de abril e, para a maioria das pessoas, muito cedo para se preocupar com o Natal. No entanto, São Nicolau pensava nessa data o ano inteiro e estava preocupado com a diminuição incomum de crianças. Tanto as boas quanto as más. Achava estranha a quantidade de nomes que saíam da lista, como acontece quando alguém morre. Perguntou a Arastor, o chefe dos elfos artesãos, se havia alguma epidemia ou guerra que estivesse causando tantas mortes.

— Já verificamos, senhor Noel. Não há nada que afete o mundo dessa maneira. As crianças estão, simplesmente, desaparecendo — o senhor idoso de corpo liliputiano tentava manter a calma, mas as longas e pontudas orelhas tremiam deixando escapar a tensão — Não se preocupe. Mandei meus melhores elfos investigarem.

As notícias começaram a chegar no final de junho, quase junto com a mudança das estações, e foram piores que a de qualquer doença! Ejall voltara ao Palácio do Norte como se regressasse de uma guerra. Ferido e transtornado.

— Eles estão roubando as crianças! Mataram Jallon!

— Eles quem? — perguntou São Nicolau, erguendo o pequeno homem pela cintura.

— Os goblins, senhor Noel! Os goblins!

Nos dias seguintes, outros elfos retornaram da missão trazendo mais informações. Os seres das profundezas da noite não agiam por eles mesmos. Não se atreveriam a roubar tantas crianças e levantar a ira dos Protetores. Não! Eles eram covardes demais para isso. Mas seguiam as ordens de algo que temiam ainda mais… Erathay, o Dragão Bruxo, há muito tempo adormecido, despertara faminto!

Durante um dia inteiro, São Nicolau não saiu de sua sala, planejando o que iria fazer. Sempre tenso, pois a cada minuto mais crianças eram roubadas. Não querendo preocupar a esposa, deu ordens aos elfos de não contarem nada ela, mas a língua desses seres parece maior que o resto do corpo!

— O que será que aconteceu com o Noel? Ele nunca recusa meus biscoitos — Mary sempre servia uma bandeja cheia das guloseimas crocantes, acompanhadas de um copo de leite — Talvez se eu levar um pouco de hidromel…

— Não se preocupe, senhora Noel — disse Dindy, a elfa auxiliar de cozinha — Ele vai ficar melhor logo que descobrir uma maneira de se livrar do Erathay… — quando a pequena percebeu, já havia falado mais do que devia. Justificando-se, colocou a culpa em Peppe, o guarda, que lhe contara o que ela não precisava saber.

— Erathay? O que tem aquela serpente?

Os elfos, acostumados com a gentil velhinha que cuidava apenas da organização do Palácio, em especial da cozinha, ficaram surpresos com a fúria e determinação da mulher que arrastava dois pequenos ajudantes agarrados à barra da saia, enquanto outros três tentavam bloquear seu caminho, fechando o corredor.

— Deixem-me passar! — e passou derrubando todos.

— Mary, eu falei…

— Eu quero saber o que você pretende fazer com o dragão — a mulher não deu tempo para o marido falar enquanto entrava, ou melhor, invadia a sala reservada.

— Eu não sei…

— Pois eu sei o que você deve fazer! Você precisa acabar com ele de uma vez por todas! Esse demônio não pode matar mais nenhuma criança!

— Eu sei… Mas… Como?

— Querido… — e nessa hora a voz da mulher ficou suave como era de costume — Cristo nos ensinou a perdoar. Não a aceitar o mal! Erathay é um demônio, assim como os gigantes que Odin combatia. Ele precisa morrer! — e encerrou a frase dando um murro na mesa que fez a sala inteira tremer.

— Tem certeza? Ele é seu…

— Ele não é nada meu! — a voz da mulher explodiu em fúria — Nunca foi!

Com o mesmo ímpeto com o qual entrou, Mary saiu da sala, deixando o marido com muito o que pensar.

Nicolau, o cristão escolhido como um dos Protetores da antiga crença pagã, ainda mantinha na parede, abaixo da Cruz de Cristo, uma réplica o martelo de Thor. Lembrara que ele tinha o sangue dos guerreiros nórdicos. Mas seus antigos deuses já não o ouviam.

— Reze para o seu deus! — era a única resposta aos apelos a Odin. São Nicolau, porém, enxergou, nas palavras de abandono, um conselho. E, com ou sem a bênção dos deuses antigos, estava decidido a ir à guerra e dar orgulho aos seus ancestrais que chegaram à Groelândia séculos antes.

Ao sair da sala, mandou interromper toda a produção de brinquedos e começar a forjar armas e armaduras. Noel não deu maiores informações, apenas mandou que preparassem as renas imediatamente e seguiu para o sul e para o leste.

Não havia estrela para guiar, mas até os animais que puxavam o trenó conheciam o caminho para Belém. Diante do local onde nascera Jesus, rezou pedindo auxílio na batalha que iria travar. Em resposta à súplica, surgiu um clarão que ofuscou os olhos do santo e da luz saíram Baltasar, Melchior e Gaspar trazendo presentes. Não era mirra, nem incenso ou ouro, mas algo que seria realmente útil naquele momento.

— Tome. Esta capa irá protegê-lo do fogo — nas mãos de Melchior havia o manto vermelho brilhante bordado de branco.

— Este é Kalloan, o rei das renas voadoras — disse Gaspar, ao lado do mais excepcional e grandioso animal daquela espécie.

— Não há osso, aço ou escama que esta lâmina não corte — Baltasar entregou um machado digno da força de Sansão. Ao segurá-lo, Noel percebeu várias runas inscritas.

— Quem enviou isso? — perguntou confuso.

— Frigga — Baltasar respondeu sorridente — A capa e a rena também. Ela pediu apenas uma coisa…

— Segredo?

— Frigga não se importa que Odin descubra. O que está feito, está feito. Ela quer que você corte a cabeça daquele filho da mãe!

E assim, montado em Kalloan, protegido pela capa e armado com o machado, Noel voltou ao Palácio do Norte. Nos meses que se seguiram, travaram várias batalhas contra os goblins, enquanto procuravam o esconderijo da fera. Até que, finalmente, na véspera de Natal, durante o um segundo que o tempo para antes da meia-noite, seu exército partiu em renas voadoras para covil no extremo sul da Patagônia. Não foi possível impedir que Mary seguisse para a batalha. Acompanhada por mais três ajudantes no trenó, a mulher empunhava uma lança feita especialmente para ela.

A horda de goblins saiu das profundezas das cavernas disparando flechas contra os elfos, enquanto milhares de morcegos avançavam no céu mordendo e derrubando as renas e seus cavaleiros. São Nicolau abria caminho entre a nuvem negra, abatendo os pequenos vampiros com seu machado que lembrava o próprio Mjolnir pelos relâmpagos que soltava. Das bolsas mágicas, os soldados do Natal retiravam uma quantidade infinita de lanças e bombas que caiam como uma tempestade sobre as criaturas.

Erathay escondia-se no coração da caverna, quando foi avisado que seus escravos estavam sendo derrotados e logo seus inimigos chegariam até ele. O mensageiro foi morto apenas por dar a má notícia. Furioso, o dragão atravessou a terra, explodindo pelo cume de uma montanha como a lava de um vulcão.

— Noel! — urrou cuspindo fogo.

Mary foi à frente de um grupo que tentou atacar a fera. Enquanto os elfos rodeavam o inimigo, a mulher tentou feri-lo no peito. A lança, porém, foi incapaz de perfurar as escamas e as chamas consumiram os guerreiros, as renas e o trenó…

— Ho! Ho! Ho! — zombou a serpente.

Enquanto Noel chorava assistindo a queda de sua esposa, Kalloan, vendo tantos de seu povo caindo feito moscas, enfureceu-se de tal maneira que ignorou as ordens de seu cavaleiro e investiu contra Erathay. Seus chifres conseguiram atravessar a couraça, mas por pouco não foram parar, os dois, entre os dentes do gigantesco réptil. Salvaram-se graças a Peppe que avançou contra o inimigo e recebeu o ataque. O elfo seria lembrado para sempre como “Aquele que salvou o Natal”.

Aproveitando a distração do inimigo, o guerreiro nórdico desapareceu entre as nuvens e reapareceu voando acima do dragão. São Nicolau saltou de sua montaria, mergulhando no fogo para atender ao pedido de Frigga. A lâmina do machado encontrou o pescoço escamado e aquele único golpe decapitou Erathay. Os goblins fugiram pelas montanhas geladas ao verem a cabeça e o corpo de seu mestre, caídos e separados. Nem ao menos pararam para comemorar a queda fatal do Protetor.

Os elfos, sem ânimo para comemorar a vitória, vasculharam as cavernas e encontraram muitas crianças ainda vivas. Cada uma foi devolvida à sua casa, sem lembranças do que acontecera, por isso não entenderam terem ido dormir em agosto e acordarem em dezembro e nem porque, naquele ano, não houve presentes debaixo das árvores. Os pais, no entanto, ignoraram as reclamações infantis e agradeceram ao milagre por encontrarem seus filhos em casa na manhã de Natal.

Quando abriu os olhos, Noel era carregado por Brunhilde, a mais bela valkyria. A honra foi ainda maior, pois o próprio Odin fora recebê-lo nos portões de Valhalla.

— Você morreu em batalha como um verdadeiro guerreiro nórdico. Você merece estar aqui! — e assim São Nicolau foi para junto dos outros que esperavam a Ragnarök, desaparecendo do mundo, mas deixando a lenda do bom velhinho que entregava presentes a todas as crianças.

***

Mas a história ainda não havia terminado…

Depois de devolverem as crianças a suas casas, os elfos perceberam que faltava uma.

— Onde é sua casa, garoto? — perguntou Arastor que assumira o comando daquela função.

— Eu não tenho casa, senhor — respondeu o menino timidamente.

— Quem são seus pais?

— Eu sou órfão…

O elfo não sabia o que fazer. Havia conseguido encaminhar todas as outras crianças, mas aquela não tinha para onde ir. O chefe dos artesãos reuniu um pequeno conselho. E, só depois de um longo tempo, pensaram na solução que resolveria o problema de todos.

— Estão loucos!? — mesmo de longe o garoto ouviu a voz exaltada quando alguém foi contra a ideia que parecia ser absurda, mas no final todos concordaram e foram até ele comunicar a decisão.

— Qual é o seu nome, meu jovem?

— Kris, senhor. Kris Kringle*.


*Kris Kringle é um dos nomes de Papai Noel


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