Dom Serafim – O arauto da morte

Dom Serafim foi um personagem criado a partir da música El Valsecito de Don Serafin, do grupo Paté De Fuá e o seu background eu escrevi na forma de um conto. Serafim foi um homem normal que sonhava em se tornar um músico famoso, mas acabou se transformando em um clérigo a serviço de um deus da morte, sendo por vezes controlado por essa divindade e perdendo o controle sobre seu corpo. O conto abaixo narra essa transformação e a primeira vítima do arauto da morte.


 

Era uma vez um músico que se tornou muito famoso pelas suas canções e maestria em lidar com seu instrumento. O seu nome era Serafim, mas todos o tratavam prestigiosamente de Dom Serafim, o acordeonista.

Serafim fora um rapaz magro de cabelos negros encaracolados e apresentava-se sempre usando um terno preto com uma gravata amarela sobre a camisa branca e um chapéu que lhe garantia um ar boêmio. Seus dedos moviam-se no teclado do acordeom como se possuíssem vida própria e Serafim era capaz de executar as mais belas canções. A fama de Serafim crescera tão rapidamente quanto desaparecera e logo em seguida, ele tornou-se lenda.

Ninguém sabe ao certo como essa lenda nasceu e cada um conta sua própria versão. Mas o que todos sabem é que havia um acordeom, um beco escuro e uma canção agonizante e um pacto suspeito.

Antes de toda a glória que a fama lhe trouxe, Serafim era apenas um filho caçula. Estava destinado, assim como o irmão mais velho, a assumir os negócios da família quando chegasse a hora. O garoto, entretanto, não tinha aptidão para os trâmites de um escritório e estava decidido a tornar-se músico. O problema, entretanto, seria como dizer aos pais que sua decisão já havia sido tomada. Ele escolheu o pior momento: o jantar em família.

— Não criei filho para ser vagabundo. — esbravejou o pai.

— Ser músico não irá lhe sustentar, meu filho. — disse a mãe tentando apaziguar a situação.

Miguel, o irmão mais velho, apenas ria da ideia ridícula de Serafim. Entretanto, não importava o que diziam, o garoto estava certo do que fazia.

— Ou muda de ideia, ou suma da minha casa! — Sentenciou o pai enfurecido.

No dia seguinte, a mãe inconsolável derramava-se em pranto quando o portão da mansão se fechou às costas de Serafim. O que ele haveria de fazer agora? Com algumas trocas de roupa na maleta, Serafim vagou sem rumo pela cidade e acabou indo para um bairro de fama duvidosa que abrigava um circo permanente de apresentações noturnas.

Sem opções, Serafim chegou até o circo oferecendo trabalho em troca de comida e abrigo.

— Não precisamos de você. — disse o senhor Tarim, o dono.

Madame Aurora, a vidente do grupo, decidiu intervir e apelou pelo jovem, convencendo o homem a deixar Serafim ficar no circo.

— O que procuras aqui? — Ela queria saber.

— Fui expulso de casa quando revelei que desejava ser músico. — confidenciou Serafim.

— Ora, ora. Isso parece perfeito! — disse Aurora. — Quando meu marido morreu, o único bem que deixou foi seu acordeom. Gostaria de ficar com ele, rapaz? Se for mesmo bom, talvez Tarim o deixe se apresentar no circo.

Serafim mal podia acreditar na sua sorte e aceitou o instrumento. Quando o retirou da caixa, o acordeom parecia brilhar na fraca luz das lamparinas que iluminavam o interior da carroça de dona Aurora.

— Vamos lá, rapaz, toque para mim. — pediu a vidente.

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Serafim amarrou bem o acordeom no tórax e respirando fundo, dez o seu primeiro Dó maior no instrumento. O som o agradou e, sorrindo, o tolo rapaz tocou uma melodia inteira para a mulher que observava a cena com os olhos brilhando.

— É como ver o melhor Adão tocando. — Ela afirmou.

Serafim começou a se apresentar na entrada da tenda do circo onde os ingressos para as apresentações eram vendidos. Passou-se um tempo até que ele fosse reconhecido pelo seu talento e se destacasse. De fato, isso aconteceu quando um grande empresário o viu se apresentar e convidou-o para tocar em seu restaurante.

O restaurante, chamado de Memorables, ficava no centro da cidade e o rapaz fora vestido com seu melhor terno: um preto de risco fino, camisa branca, gravata amarela e um chapéu. Essa foi a apresentação que abriu as portas da cidade ao seu talento.

— Gostaria que se apresentasse aqui semanalmente. — Pediu o dono do restaurante. — Posso pagar muito bem por isso.

Certamente que Serafim concordou. Do Memorables para o sucesso foram poucos meses. Ele recebeu convite de outros restaurantes e depois para festivais, apresentações em teatros e casas de show. A fama lhe subiu à cabeça e o dinheiro que ganhava já era suficiente para mantê-lo com uma vida de nível razoável. Ele havia alugado um pequeno apartamento onde vivia e ensaiava.

— As mulheres fazem fila para minha cama. — Declarou certo dia em uma entrevista para o Diário Central.

Seu pai soubera do sucesso que o filho fazia e tentou uma reconciliação. Serafim recusou, afinal, não precisava dele nem de sua família agora que estava fazendo fama e ficando rico com a música, como sonhara desde o começo.

A fama de Serafim, ou melhor Dom Serafim, como era apresentado antes de começar seus shows, entrou em declínio após poucos anos. Ele havia se apresentado em todas as casas de show da cidade e nos melhores restaurantes. No seu auge, os clientes dos restaurantes começaram a enjoar de suas músicas e as casas de show pareciam estar sempre com as agendas lotadas para recebe-lo. Com o tempo, Dom Serafim foi esquecido.

Ele estava desesperado. Viu sua fila de mulheres diminuir aos poucos até minguar por completo. Não demorou para que tivesse que desocupar o apartamento onde morara pois não podia mais pagar pelo aluguel. O pouco dinheiro que ainda ganhava nas apresentações que fazia nas estações de trem não era o suficiente para sustentar o vício que havia desenvolvido em bebidas e cigarros.

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Quando pediu abrigo ao irmão, que acabara de se casar, este fechou a porta na sua cara.

— Não queremos de você aqui. — disse Miguel.

Aquele deveria ser o fim do jovem acordeonista. Não havia para onde ir, não havia espaço para ele no meio artístico e o circo que o acolhera quando fora despejado, fechara as portas meses atrás. Não havia mais vida para Serafim, era melhor se entregar à morte de uma vez por todas. Enterrou o acordeom no lugar onde o circo costumava ficar e seguiu melancólico pelas ruas da cidade.

Estava chovendo quando chegou no beco escuro e úmido onde havia decidido ceifar sua vida. Penduraria a corda nas grades da escada de incêndio de um dos prédios e saltaria do banquinho. O nó já estava feito e pronto para ser usado.

— Serafim. — Uma voz o chamou do fundo do beco escuro.

O breu que o cercava limitava sua visão e ele não era capaz de ver quem o chamava. “Devo estar ficando louco”, pensou ele.

— Serafim! — Chamou a voz com mais intensidade.

Serafim desceu do banquinho quando retirou a corda do pescoço e caminhou em direção a escuridão.

— Quem está aí? — perguntou ele.

— Eu sou a solução para seus problemas. — respondeu a voz. — Você quer voltar a ser famoso, não é mesmo? Pois eu posso te ajudar.

— Por acaso é algum empresário? — questionou Serafim.

— Podemos dizer que sim.

Serafim caminhava pelo beco escuro apoiando-se nas paredes com uma das mãos.

— O que eu preciso fazer?

— Tudo tem um preço. — disse a voz que agora parecia estar ficando mais próxima — Em troca da fama, você terá que trabalhar para mim.

— Quer que eu me apresente em algum lugar?

— Não apenas um lugar, mas em vários. — disse a voz — Tenho alguns serviços que não posso executar pessoalmente e que acredito que você possa.

— Tudo bem, eu aceito. — respondeu o imprudente rapaz.

— Era isso que eu queria ouvir. Aperte aqui.

A escuridão dissipou como fumaça e Serafim viu um homem baixinho de cabelos oleosos penteados para trás com um fino bigode com a mão estendida para ele. Ele apertou sua mão.

Os olhos do homem brilharam e um sorriso maléfico se formou em seus lábios. O ar ao redor dos dois girou como em um redemoinho e o pequeno homem desapareceu.

— Vá para onde escondeu o seu acordeom, Dom Serafim, e o toque. — Disse a voz antes que o redemoinho desaparecesse. — Você saberá o que fazer.

Assim ele fez. Quando chegou no local onde havia deixado o acordeom, Serafim o colocou nos ombros, suspirou fundo e tocou. Os dedos de Serafim começaram então a deslizar pelo teclado do instrumento com extrema agilidade que o deixou espantado. Apesar de ser muito habilidoso, ele sabia que não era capaz de tocar daquela forma. Seus dedos pararam de lhe obedecer e ele não conseguia mais parar de tocar. A melodia lhe era estranha, onde foi que havia aprendido aquela música? O vapor amarelado que exalava do instrumento amorteceu os seus sentidos. Seus olhos castanhos tornaram-se completamente brancos e a sua energia foi sugada. Seu corpo perdeu massa tornando-se esquelético e seus lábios desapareceram transformando sua boca em uma fresta. Os cachos negros era a única característica que ainda permitia reconhecê-lo.

Aquela foi a morte de Serafim. O rapaz, ou o que sobrara dele, saiu pelas ruas da cidade tocando em seu acordeom um triste lamento de arrepiar até mesmo o mais insensível dos homens. As pessoas que por ele passavam não notavam mais sua presença. Dom Serafim parecia invisível e sua triste melodia espalhava-se aos ventos por toda a cidade.

Sem saber o que fazia, Dom Serafim caminhou até uma casa na periferia onde uma mulher estava dando à luz. Portas fechadas e paredes não o impediam. Ele entrou e foi até o quarto. Sua cabeça estava inclinada e seus olhos brancos miravam a mulher que parecia fraca e vulnerável. O menino havia acabado de nascer e chorava muito alto. Aquele era o som da vida e ele incomodava Dom Serafim, que tratou logo de resolver o que o levara até ali.akkordeonbl_1024x1024

Quando tocou seu acordeom, uma melodia que mais parecia o grito de cem almas em sofrimento ecoou pelo casebre chamando a atenção dos presentes. Notaram a presença de Dom Serafim quando já era muito tarde. A melodia fizera desprender do corpo a alma da mulher que acabara de dar à luz e ela se juntou ao coro dos lamentos que o acordeom orquestrava. As parteiras ficaram em choque e gritavam em desespero enquanto corriam para longe daquele quarto amaldiçoado levando o recém-nascido com elas.

O único homem que havia ficado ali o reconheceu.

— Se-Serafim? — gaguejou.

O espectro de Dom Serafim o encarou em silêncio e tirou os dedos do teclado do acordeom fazendo a melodia agourenta cessar.

— Sou eu! — disse o homem — Miguel, seu irmão. O que foi que lhe aconteceu?

Serafim nada disse, era incapaz de sentir algo e suas cordas vocais haviam se calado para sempre após aquele sinistro encontro no beco. Sua única forma de comunicação era a música. E com o acordeom, ele fez soar uma leve canção de ninar que sua mãe costumava cantar para que ele e seu irmão dormissem quando eram pequenos. Miguel sorria apreensivo e chamou as parteiras.

— Está tudo bem. — disse ele às mulheres — É meu irmão, Serafim.

Uma delas se aventurou a voltar para o quarto. Serafim queria testemunhas.

A canção de ninar que ele estava tocando logo se transformou naquele terrível lamento das almas. Miguel era o único que escutava a canção e gritava em agonia. A parteira que nada ouvia tentava socorrê-lo, mas suas tentativas eram inúteis. Ela pode ver quando a alma de Miguel deixou o corpo e fora tragada pelo acordeom tornando-se parte do coro infernal. A mulher correu desesperada quando o corpo inerte de seu patrão caiu no chão e Serafim saiu da casa da mesma forma como havia entrado. Seu trabalho estava concluído.

A notícia da morte de Miguel e sua mulher se espalhou rapidamente e a fama de Serafim logo voltou a crescer na cidade. A parteira havia jurado de pé junto para todos que a quiseram ouvir, que Miguel morrera ouvindo a música que seu irmão tocava no acordeom e que pôde ver com os próprios olhos a alma deixando seu corpo. Depois desse dia, houve várias das aparições de Dom Serafim, o arauto da morte.


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