O cavaleiro, o caçador e a bruxa | Parte 2

Este é o segundo episódio de mais uma antologia escrita pelo Ricardo Old Folk, que já escreveu a antologia “Ídolo de barro” que você pode conferir aqui.

Neste segundo episódio Leon e Ulrich encontram uma velha bruxa em uma vila distante. Quais mistérios envolvem aquela vila? O que Abigaiu ouviu dos espíritos sobre Leon? E o que ou quem é exatamente esse Leon? Descubra a resposta para algumas dessas perguntas no texto a seguir.


Duas noites depois

            Naquela noite Sir Leon chegou à taverna, foi recepcionado calorosamente pelos seus conhecidos, mas logo se desvencilhou deles com uma nova rodada de vinho e dirigiu-se a mesa onde estava o caçador a sua espera.

– Está pronto Ulrich? Vamos dar uma volta pelos arredores – olhou o caçador dos pés a cabeça, observou seu equipamento e continuou – porque não compro o corselete, apenas a arma?

– Senhor, já o encomendei, estará pronto em alguns dias – explicou-se o caçador.

– Muito bem, vamos!

            Saíram rapidamente da taverna, na rua estava um imponente cavalo negro aguardando seu nobre dono. O caçador logo falou:

– Não possuo mais montaria, precisei vendê-la recentemente.

– Isso não é problema, pegue essas moedas – lançou nas mãos do caçador uma pequena bolsa de veludo – entregue-as ao dono deste animal e diga que fui eu quem mandou e vamos!

            Logo seguiam o caçador e seu senhor a cavalo pelas ruas escuras da vila em direção há uma trilha entre as arvores, impossível de ser localizada a noite por alguém que já não a conhecesse.

            Seguiram por um bom tempo pela trilha ate uma bifurcação, tomando o caminho da direita, e depois de mais algum tempo Leon percebeu que já não existia mais trilha. Estavam vagando entre arvores e arbustos, aparentemente sem nenhuma referência de para onde se dirigiam, apenas havia arvores negras em todas as direções em que olhava, todas iguais. E ate mesmo as estrelas estavam ocultas. Não era possível entender como aquele homem se orientava naquele ambiente.

            Após mais algum tempo foi possível reconhecer entre as arvores uma iluminação e ouvir um som diferente do sacudir das folhas ao vento e do trote dos cavalos no solo lamacento. Surgia uma vila entre as arvores, surgia também uma montanha atrás desta vila que ficava em sua base rochosa.

            Logo Ulrich fez sinal para que Leon parasse, e continuou só. Ao se aproximar da vila desmontou do cavalo, seguiu puxando-o pela rédea calmamente, fez sinal para alguém entre as casas e logo desapareceu entre elas.

            Leon aguardava pacientemente entre as arvores na escuridão da floresta.

            Ulrich reapareceu e fez sinal para que Leon pudesse se aproximar. Leon agiu da mesma forma que Ulrich, desmontando ao aproximar-se da vila. No centro da vila estavam iluminados por uma pequena fogueira Ulrich e outro homem, este estava coberto por um capuz, sendo visível apenas uma longa barba avermelhada imergindo das sombras do capuz sobre sua cabeça. Leon não se aproximou deles, parou assim que saiu da cobertura das arvores.

            De onde estava, o homem de barba avermelhada pareceu observá-lo, e ia começar a se aproximar quando Ulrich mergulhou a mão na sombra de sua capa e apresentou-a ao homem, agora na sua mão havia algumas moedas rapidamente extinguiram a curiosidade do homem, este parou e segui em direção contraria.

            Ulrich aproximou-se de Leon e logo falou:

            – Chegamos senhor. O que mais deseja conhecer?

            – Muito bem, é bom saber que o ouro também tem poder sobre esse povo – olhou ao redor, como quem busca algo ou alguém na escuridão – quem mora ali? Naquela casa mais afastada, naquela direção… – apontou Leon.

            – Uma mulher estranha. Acho que é uma bruxa. Só negociei com ela durante o dia, nunca fui lá durante a noite. Dizem que ela pode saber o passado, o presente e o futuro somente olhando suas mãos. Não acredito nisso…

            – Uma bruxa, que interessante! – uma expressão de prazer surgiu no rosto de Leon – preciso conhecê-la. Vamos! – ordenou Leon.

            Ulrich baixou a cabeça, guardando sua insatisfação para si mesmo e começou a caminhar em direção a casa da bruxa, acompanhado por Leon.

            Ao chegarem próximos da casa, prenderam seus cavalos e novamente Ulrich foi à frente prepara o terreno para a entrada de seu senhor. Bateu a porta e logo foi respondido por uma voz feminina autorizando sua entrada. Ele entrou na casa, demorou algum instante e logo reapareceu fazendo sinal positivo para Leon enquanto saia da casa aguardando no lado de fora. Leon se aproxima, bate a porta que esta entreaberta e adentra a casa.

            Uma espécie de organização exótica fascinou Leon ao primeiro e rápido olhar ao ambiente em que chegava. Pôde notar muitas ervas amarradas em molhos, ressecados ou verdes, alinhados e amarrados em fitas coloridas nas paredes e em algumas prateleiras. O ar do local era tomado pelo aroma das ervas. Havia também muitas panelas e caldeirões sobrepostos entre sua humilde e rara mobília. Adiante, sentada a mesa, em um miserável banco, uma senhora de cabelos avermelhados que ainda guardava um pouco de sua beleza de uma época a pouco passado. Leon a observou com interesse e de modos rápido e exagerado aproximou-se dela, e começou a falar:

            – Boa noite senhora! Chamo-me Sir Leon, recém chegado à região, vindo de tantos lugares do mundo que a senhora não acreditaria! – um sorriso largo e sincero brotou em sua face, logo continuou – vim ate aqui porque estou na busca de um bom lugar para empregar meus recursos, quero prosperar e ver os outros prosperarem, este é meu prazer! Ulrich falou-me da senhora, fiquei curioso e aproveitei o ensejo para conhecê-la e as suas habilidades. Não sou um individuo comum, percebe-se facilmente. Admiro as artes exóticas, conheço muitas, dificilmente haverá alguma novidade no que vai me apresentar, mas anseio por ver seus poderes em ação.

            – Fico grata senhor pela admiração, me deixa lisonjeia por tanta admiração sem conhecer-me ou a minhas habilidades senhor… – um sorriso acompanhado do rubor de sua face confirmou suas palavras – temo não atender suas expectativas.

            – Como se chama minha senhora?

            – Abigail, aos seus serviços meu senhor!

            – é impossível ludibriar-me, nunca me engano quanto a uma pessoa, seja na capacidade ou no seu caráter. É como um sentido a mais que os outros indivíduos, uma espécie de faro. Poderia passar noite inteira descrevendo esta habilidade, mas este não é o caso. Quero saber o que pode dizer sobre a minha pessoa, mais precisamente sobre meu futuro.

            – vou tentar, aproxime-se, sente-se.

            – obrigado.

            Abigail levantou-se, apanhou um de seus utensílios entre a aparente desorganização de sua residência. Era uma espécie de bandeja de madeira ornamentada com figuras que se assemelhavam a animais e a letras de um alfabeto desconhecido. Apanhou também uma bolsa de pele e despejou seu conteúdo na mesa, havia pedras negras com letras semelhantes as da bandeja. Contou-as rapidamente e as colocou de volta na sacola. Abigail olhou fixamente para Leon e falou:

            – Senhor Leon, devo consultar os espíritos antes de tentar saber algo sobre a sua pessoa, pois eles podem não estar dispostos a ajudar.

            – Muito bem, comece.

            A feiticeira inclinou sua cabeça ate tocar seu peito com o queixo, respirou fundo e permaneceu assim por algum tempo, é como se estivesse fazendo alguma prece, depois ergueu sua cabeça, pegou sua bolsa e dela retirou uma pedra, colocou-a num lugar especifico na bandeja, logo retirou outra e a colocou também em outro local da bandeja, repetiu o processo uma terceira vez. Passou algum tempo analisando o resultado.

            Abigail pareceu não entender o resultado apresentado.

            – O homem diante de mim já não existe mais, teve uma vida triste e sem propósito aparente. Era um homem apreciador de prazeres mundanos. Era justo. Não entendo… Há algo errado. Eles devem estar pregando alguma peça em nos! – uma expressão preocupada e confusa apareceu no rosto da feiticeira.

            – talvez não haja nada de errado com seus espíritos – disse Leon tentando acalmá-la.

            – é como se eu pudesse ver apenas o seu passado.

            – Talvez porque eu não devesse ou pudesse estar aqui, vivo… – um ar de riso e satisfação na face de Leon.

            – estou confusa senhor! O senhor poderia voltar aqui outra vez para eu refazer a consulta. Talvez eu deva me preparar melhor…

            – já me dou por satisfeito, retornarei aqui outra vez para tratar de outros negócios com a senhora e seu povo.

            – insisto senhor! Deixe-me refazer a consulta aos espíritos.

            – logo vou conceder outra incursão sua em minha alma. Chegarei mais cedo e mais preparado. Avisarei da minha visita uma noite antes.

            Leon ergueu-se do acento, apanhou a mão da senhora ainda confusa com o que havia acabado de acontecer, beijou-lhe a mão. A pobre mulher despertou de sua confusão, enrubesceu involuntariamente sua face pálida, revelando seu encantamento diante do atraente cavalheiro. Elegantemente retirou-se da casa da bruxa.

            Ela tocou sua mão, para garantir que aquilo realmente havia acontecido. Logo algo reluzente sobre a mesa atraiu sua atenção. Havia duas peças de ouro sobre a mesa. Presentes do nobre que acabou de sair.

            No lado de fora da casa Leon pegava sua montaria e preparava-se para partir com seu servo. Quando começou a falar:

            – Ulrich, o que há mais de interessante nesta região. Talvez algum lugar a mais que os homens comuns evitem. Algum lugar antigo? Alguma outra vila?

            Pensou por um momento, logo respondeu:

            – Senhor, existe um lugar, só não tenho certeza se ira interessar ao senhor: antigas pedras numa colina, não muito distante daqui.

            – isso seria mais interessante que esta pobre vila! Amanhã você me guiará ate estas ruínas. Isso muito me fascina! – olhou para o céu, respirou fundo e continuou – pelo que vejo vamos viajar muito por essas redondezas, espero que esteja bem melhor preparado Ulrich!

            – estarei sim, meu senhor. Apenas aguardo que aprontem meu equipamento.

            – assim espero. Por enquanto vamos retornar as nossas casas! Já esta muito tarde para você. Vamos!

            Os cavaleiros adentraram na floresta sombria de volta a cidade.


O terceiro episódio sai próximo sábado, então fica ligado pra conferir o desenrolar dessa história.


Assinatura_Crônicas - Ricargo Old Folk-09

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1 comentário Adicione o seu

  1. Boa tarde !
    Estou começando com o Blog agora e queria saber se você podia me ajudar me seguindo que eu te sigo na mesma hora.
    Desculpa incomodar.

    Curtir

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