O cavaleiro, o caçador e a bruxa

Este é o primeiro episódio de mais uma antologia escrita pelo Ricardo Old Folk, que já escreveu a antologia “Ídolo de barro” que você pode conferir aqui. Neste primeiro episódio conheceremos um humilde caçado que é contratado para um misterioso serviço. Quem será o nobre que aparece na taverna todas as noites e paga a bebida de todos? e o porque ele quer conhecer a família do caçador? confira no texto a segui:


Um nobre senhor recém instalado na região, desejava contratar os serviços de um caçador hábil, buscava o melhor da região. Corria o boato de que este senhor não poupava seu ouro. Ele era freqüentemente visto na taverna a noite, passava todo o dia vagando nos campos e na floresta explorando-os, com que intenção não se sabe. A noite distraia-se conversando ate a madrugada na única taverna da Villa. Normalmente pagava bebida a todos os presentes e isso fazia com que muitos ficassem ate não haver mais nada a discutir ou fartar-se de beber retribuindo apenas com uma conversa, o que ocorresse primeiro. A generosidade deste senhor era comentário popular entre os desocupados e trabalhadores, ou mais precisamente entre os apreciadores da taverna e seus atrativos. Este senhor era uma pessoa muito agradável, pois os frequentadores da taverna não se sentiam intimidados na presença do nobre senhor, ele parecia entender um pouco de tudo e de todo tipo de assunto falado, e para toda situação possuía um bom conselho ou historia a contar. Apesar da aparência jovem mostrava-se muito sábio e experiente no mundo. Contava aos populares historias sobre suas viagens e aventuras românticas, todos acompanhavam atentamente as narrativas fantásticas do nobre.

            Na taverna, naquela noite, não havia mais que meia dúzia de desocupados a beber um vinho amargo e a relatar os acontecimentos do dia. Estava o caçador acomodado em um canto mais afastado de seus semelhantes, pois não era um homem de muita conversa. Repentinamente, apareceu o famoso nobre. Entrou calmamente, era alto e esbelto, possuía um longo cabelo negro. Trajava roupas finas e muito bem cuidadas sob uma capa negra. Estava armado com uma longa espada ornamentada em sua cintura. Ele se movia silenciosamente, muito atento e de movimentos elegantes, como um grande ator que se mostrava diante da nobreza. Era perturbador o contraste entre ele e os miseráveis presentes. Mas era algo facilmente esquecido, já que ele sempre pagava a bebida de todos os presentes enquanto permanecia na taverna, isso significava, na maioria das vezes, bebida ate a madrugada.

            Consciente da oportunidade, pelos muitos comentários que ouviu, o caçador resolveu dirigir-se a taverna em busca da vaga que lhe pertencia, pois era o melhor da região. Não havia quem se comparasse em habilidade, no seu oficio da caça e uso da besta. Havia crescido na região e poderia acertar o olho de uma lebre em fuga. Mas sabia ele que a vida de caçador não era fácil. Possuía três filhos para alimentar, e os impostos eram altos, pois o ducado estava em guerra e do modo que as coisas seguiam, seria impossível manter três crianças no inverno que se aproximava.

            O homem de porte real aproximou-se do pobre caçador que permanecia em silencio em um canto a observá-lo atentamente. Puxou um banco e acomodou-se diante do caçador, logo começou a falar:

– você é o melhor da região? – era uma voz grave e autoritária.

– sim, sim senhor. – respondeu o caçador.

– preciso de um homem habilidoso trabalhando para mim. Pago muito bem.

– eu sou o melhor por essas terras.

– homem, me diga uma coisa… – hesitou um momento, mas logo continuou: – já disparou contra outro homem?

– não, não senhor… Nunca precisei. – franziu a testa, pareceu surpreso e desconfiado.

– Entenda, preciso também que o homem que contratar seja corajoso, pago muito bem, mas também exijo muito de meus criados – começou a observá-lo como um avaliador a um objeto.

– sou esse homem, faço o que precisar fazer… Pode confiar em mim! – pareceu preocupado, mas firme.

– Siga-me. – ordenou o nobre.

Saíram da taverna. Na noite sem luar, soprava apenas uma leve brisa entre as casas. O único barulho emitido por algum ser vivo provinha da taverna. O cavaleiro e o caçador caminharam algum tempo, o suficiente para afastarem-se das casas, chegando às imediações da floresta. Lá o senhor falou ao seu futuro empregado:

– deixe-me ver que arma possui.

Com um olhar desconfiado o caçador sacou sua besta e entregou-a ao nobre. O caçador ficou observando atentamente o cavaleiro a avaliar sua arma naquela escuridão. O nobre parecia ver muito bem, era como se estivesse ao pé de uma lareira invisível a observar aquela arma na escuridão. Logo a devolveu.

– te pagarei um equipamento melhor, se provar ser merecedor deste trabalho… – interrompeu suas palavras, observando ao redor, buscando algo, logo voltou a falar – acerte três setas naquela arvore. Ali – apontou adiante, mostrando o alvo.

Sem dificuldade, uma a uma, o caçador cravou as três setas na arvore indicada pelo nobre.

O nobre falou:

– muito bem, contratado, ganhará duas moedas por semana! – bateu palmas e sorriu. Agora devemos voltar – afirmou o nobre.

Ulrich hesitou por um momento, mas logo tomou coragem para perguntar:

– como se chama o senhor? Chegamos ate aqui e ainda não sei o nome de meu empregador.

– Leon…

– Apenas senhor? Sr. Leon…

– Sim, isto basta! – respondeu impaciente – Quanto ganha com seu oficio de caçador? – olhou fixamente para o pobre homem, como se pudesse ler algo escrito em sua testa.

– Duas peças de prata semanais. Quando em boa época… Quando não, apenas uma – olhou para Leon, com certa desconfiança. – Senhor, mas…

– Pagarei duas peças de ouro semanais. Mas lembre-se: exijo fidelidade e obediência. Aceita?

– sim senhor! – um sorriso amarelado, mas sincero, apareceu em seu rosto mal tratado.

– Muito bem – parou por um momento, havia se lembrado de algo – conte-me como anda o reino? O que há de importante acontecendo por aqui?

– Senhor, os impostos estão altos. Existe a possibilidade de guerra com alguns dos ducados vizinho e isso chegou aos ouvidos dos cidadãos, causando medo. Nosso rei acumula recursos e recruta homens para seu exercito. Todas as vilas importantes possuem fortes e homens preparados. É tudo o que sei: uma guerra pode começar em breve.

– Existem vilarejos próximos? Pagãos? Algum conflito interno?

– Existem vilas de bárbaros escondidas na floresta, lugares evitados por muitos. Conheço uma, apenas, negocio peles e outros utensílios com eles, pagam bem e são honestos. Mas não são muito amistosos. Não há nenhuma guerra interna, ate onde sei. E há estradas pavimentadas que levam para outras cidades de nosso reino, mas as estradas são perigosas, há muitos ladrões nelas.

– Qual a distancia ate a vila dos pagãos?

– Fica a umas duas horas daqui.

– Muito bem, vamos andando! Leve-me ate sua casa, mostre-me sua família. Depois faremos uma visita aos bárbaros.

            Seguiram ate a residência do aldeão. Tratava-se de um casebre com paredes de pedra sobrepostas e telhado de madeira, escurecidas pelo tempo e má conservação.

            Diante da velha casa eles pararam.

– mostre-me sua casa e sua família! – falou Leon autoritariamente.

– deixe-me acordá-los para que não estejam tão desprevenidos para receber essa importante visita…

– não faça cerimônias homem! Acorde-os, eu espero aqui fora, apresse-se!

– sim senhor, mas…

– seja breve, entre! Não quero passar toda a noite aqui em tua porta.

            O caçador bateu a porta, logo alguém á abriu, uma senhora mal tratada e suja trajando trapos os quais usava para dormir.

– mulher, acorde os meninos! Temos visita – uma ordem lançada antes mesmo que a mulher pudesse identificar todos os que estavam a sua porta.

– o que…?- sem entender o que estava acontecendo, não soube como reagir.

– Apresse-se! Alguém importante quer vê-los – ordenou o marido.

            Logo o aldeão já estava dentro de sua casa, deixando a porta entreaberta. De dentro dela ouvia-se o alvoroço do caçador para acordar os filhos e os movimentos de sua mulher para trocar de roupa e fazer mais algum preparativo.

            Algum instante depois aparecia o caçador, abrindo a porta para a entrada de seu patrão.

– Muito bem meu rapaz – Falou Leon.

– o senhor deseja comer algo?

– não, apenas quero ver para quem estou dando um salário justo. Não se preocupe com nada, não vou demorar.

            Entrou na casa, encantando a visão daquela família humilde, que talvez nunca tenha visto um cavaleiro tão de perto em sua vida. Olho-os dos pés a cabeça: a esposa, um rapaz e dois meninos. Cruzou as mãos nas costas, e olhou também o interior da casa.

Logo falou:

– muito bem, pegue isto! – estendeu a mão, havia duas moedas de ouro e um anel de prata – compre uma arma melhor, encomende um corselete e me encontre daqui a duas noites na taverna. Posso precisar deste rapaz, se ele tiver alguma aptidão. Somente isto, tenha uma boa noite meu amigo.

            Saiu elegante e silenciosamente da casa. O caçador tentou acompanhá-lo, parecia querer dizer algo:

– Obrigado senhor!

– Ate daqui há duas noites, assim que o sol se por esteja lá! Passar bem! – falou sem olhar para traz.

– Passar bem meu senhor!


O segundo episódio sai próximo sábado, então fica ligado pra conferir o desenrolar dessa história.


Assinatura_Crônicas - Ricargo Old Folk-09

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