Pyt, o assasino da Guilda de Um

Aquele que nunca se distraiu durante uma aula que atire a primeira pedra. Pyt foi concebido durante uma aula de Mecânica Quântica no mês passado. Tudo começou enquanto eu pensava em como os fundadores dessa área da Física tiveram que ir contra o senso comum e lutar contra os paradigmas científicos que estavam estabelecidos até então para poder explicar alguns fenômenos que eles observavam em laboratório.

O que esses físicos notáveis fizeram, foi abrir suas mentes para a imaginação e para as novas possibilidades que se apresentavam. Só então a realidade como a conhecemos passou a ser questionada. Podemos dizer, sob um certo sentido, que esse rompimento de paradigmas deu mais “liberdade” para a Física estudar a Natureza de um ponto de vista até então oculto. Essa nova visão levou-nos a compreender o mundo de uma forma mais completa e tornou possível avanços científicos e tecnológicos sem precedentes.

A ideia para Pyt veio nesse contexto. Pensei em dar vida a uma personagem que refletisse um pouco desse cenário incomum da Física Quântica, portanto, me apropriei de alguns conceitos próprios dessa área e os incorporei na personagem. Mas fique tranquilo(a), isso não é uma aula de Física!

A primeira ideia que tive, então, foi de um ladino humano com arquétipo de assassino e que depois de anos de matança, passa a questionar seu poder de ceifar vidas, dando uma nova perspectiva a seus atos. Entretanto, o cerne da personagem pode ser adaptado para outras raças e classes do D&D e além. Espero que gostem.

Diário da Liberdade

Não se tem registro de quando o primeiro Pyt surgiu. Não se sabe se o nome nasceu com o primeiro assassino da Guilda de Um ou se foi forjado ao luar durante o outono. Tudo o que sabemos sobre esses assassinos foi o que Pyt, nosso Pyt, registrou em seu “Diário da Liberdade”.  Está na hora de ler alguns fragmentos de sua escrita.

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Incerteza

Terceira fase crescente da Lua

AS folhas amareladas começavam a cair anunciam o fim dos tempos de calor e nos preparando para o inverno. Os abastados de armazém cheio terão fartura pelos tempos vindouros, mas os pobres definharão com mais frequência sob o olhar atento do luar.

Na noite passada voltei a sonhar com quando era criança. Não consegui ver o rosto de meus pais, mas eles gritavam um nome de garoto. Senti que me chamavam. Seria imaginação? Ou Arthur foi o nome que me deram quando nasci? Quase nada me recordo antes de conhecer Pyt, meu mestre. Espero que aquela seja uma lembrança real, mas nunca saberei se não for.

Não é nada agradável não conseguir se recordar do seu próprio passado. Prefiro acreditar que o caminho que tomei não seja tão importante quanto o momento que vivo, mas temo voltar a ser quem eu era antes de descobrir a verdade que me libertou de mim mesmo. Por isso escrevo estas palavras, para lembrar quando for preciso.

Primeira fase brilhante da Lua

As árvores desnudas misturavam-se com o céu de chumbo na manhã de hoje. Enquanto passava por um estábulo, um garoto montava seu primeiro cavalo. O corcel castanho de crina bem aparada se moveu quando o garoto o tocou com os pés na lombar provocando um sorriso no aprendiz.

Aprender também me deixava feliz. Só me recordo que a minha transformação em Pyt deixava-me contente e aos poucos me aliviava de traumas passados. Talvez eu tivesse a mesma idade daquele garoto quando fiz minha primeira vítima, um coelho. A flecha da besta estava destinada a um cervo, mas por um momento não tive certeza da posição do animal e o desvio foi grosseiro.

Por vezes o erro determina o acerto. O coelho estava no lugar certo, mas no tempo errado. Ou não.

 

Segunda fase escura da Lua

A chuva de ontem deixou as ruas enlameadas. Minha respiração condensava enquanto eu olhava pela vitrine do açougue. Antes que a nevoa o fizesse sumir, vi o reflexo de um homem desleixado. Encarar aquele homem fazia aflorar emoções conflitantes.

Quando eu havia completado um novo ciclo depois de inúmeras fases da Lua, meu mestre achou que eu merecia minha grande chance. Encomendaram a morte de um fidalgo. Eles decidiam quem deveria morrer e nós executávamos.

Dessa vez, entretanto, eu seria Pyt por uma noite. Agiria sozinho. Deveria entrar sorrateiramente na propriedade do homem e mata-lo durante o sono. Minha vida toda caminhou na direção daquele momento.

As turvas lembranças só me permitem recordar do sangue quente escorrendo pela minha mão quando lhe rasguei a garganta. A mulher que estava dormindo ao seu lado gritou. Eu não a matei, as ordens eram claras.

 

Terceira fase escura da Lua

Embora o Sol tenha vigiado meus passos durante o dia, seu fraco calor não foi capaz de me aquecer. Havia levado minha adaga para o ferreiro afiar e polir o cabo de prata. Meu mestre me ensinou a cuidar bem dos materiais de trabalho.

A lâmina de uma espada brilhava incandescente dentro do forno. A luz parecia com o pôr do Sol do dia que me encontrei com Pyt pela primeira vez, o dia em que tudo começou. Minha primeira lembrança.

O céu estava parcialmente tingido de vermelho, como se o Sol houvesse sofrido um ferimento mortal na altura da barriga e o sangue tivesse se espalhado pelo firmamento. Eu contemplava o mar sobre o penhasco quando um homem se aproximou de mim.

Pyt se apresentou e convidou-me para viajar com ele. Descemos juntos até a encosta e ao quebrar da terceira onda, eu aceitei minha nova função de aprendiz. Ele disse que minha vida haveria de ganhar novo sentido e direção, eu não viveria mais a esmo.

Dualidade

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Primeira fase crescente da Lua

A neve começou a derreter dias atrás e hoje, no alto de uma nogueira um pequeno pássaro se preparava para voar pela primeira vez. Talvez ele não se sentisse preparado, talvez tivesse medo de morrer, mas não havia outra opção.

Meu mestre havia me preparado por muitos anos para que pudesse sair do ninho. O dia do meu voo estava marcado e a ansiedade e o medo batalhavam para tomar conta do meu coração. Estava eu pronto para ser Pyt?

A Guilda de Um não permite que mais de um Pyt viva ao mesmo tempo. Meu desafio final para me tornar o membro seria matar o homem que ensinou tudo que sabia. Assim como o pequeno pássaro, eu também não tinha escolha. Não somos uma guilda dual.

 

Segunda fase crescente da Lua

Quando voltei a nogueira, o ninho estava abandonado. Havia o pequeno passarinho alçado voo?

Eu tive tempo para me preparar. Para superar meu mestre, precisava ser melhor do que ele. Teria que surpreendê-lo, ataca-lo com um truque que nunca me foi ensinado. Para que pudesse ser Pyt, teria que ser melhor do que o Pyt atual.

Me lembro que passei dois ciclos lunares na floresta, planejando, estudando e desenvolvendo habilidades que fossem só minhas de tal forma que as usaria como truque para pegar meu mestre e mata-lo.

O tempo estava terminando quando vi o que poderia ser minha salvação. Sobre a grama, dois pássaros-barriga-vermelha de médio porte competiam pela atenção da fêmea de barriga acinzentada. Os desafiantes eram iguais aos meus olhos e competiam de forma equiparada, mas algo os diferenciava sob o olhar da fêmea. Ela não haveria de ficar com os dois, e eles sabiam disso.

 

Terceira fase crescente da Lua

As estrelas cintilavam e a Lua quase completa era refletida no lago próximo ao vilarejo. As noites têm um apelo especial para os Pyt, é quando resolvemos nossos principais assuntos.

Foi em uma noite similar que enfrentei meu mestre. A escuridão deixava-nos às sombras do mundo e visíveis aos nossos ideais. Usávamos a vestimenta da Guilda de Um e a partir do nascer do Sol, apenas um estaria vivo.

Passamos incontáveis minutos nos encarando a distância, fazia parte da análise do alvo. Nós nos conhecíamos muito bem, sabíamos de nossas fraquezas e também de nossos pontos fortes. Um ataque descuidado poderia ser fatal.

Eu havia bolado uma armadilha, entretanto. Duas bestas posicionadas em árvores próximas apontavam justamente para onde estávamos. Se não agíssemos rápido o suficiente, um pássaro ou um inseto qualquer poderia disparar uma delas e aquele que estivesse em sua mira, morreria.

Pareceu apropriado deixar que a natureza decidisse quem iria viver. Assim como os pássaros, travaríamos uma dança silenciosa em que nos encarávamos e avaliávamos a distância nossas habilidades.

Quando o estampido seco ecoou pelo campo já não dava tempo para pensar ou agir. A flecha o acertou na altura do pescoço e ele caiu quase que imediatamente. Nós não nos despedimos.

Era minha vez de ser Pyt.

 

Superposição

Primeira fase brilhante da Lua

Os animais que nasceram nos últimos meses agora se deparavam com o calor escaldante e tentavam sobreviver.

Eu havia nascido novamente como Pyt e agora era o membro da Guilda de Um. Os trabalhos que antes eram realizados por meu mestre agora seriam de minha responsabilidade.

No geral, eu era pago para dar fim a nobres, comerciantes ou burgueses. Serviços encomendado por familiares, concorrentes ou inimigos. Era uma escalada mais fácil ao poder. Entretanto, um dia, me pediram que eu desse fim a vida de um camponês.

Não recuso trabalhos, ou melhor, não recusava. A princípio, aquele não seria um trabalho diferente de nenhum outro, então fui executá-lo. O camponês morava em um casebre nas proximidades da Via Real, fácil de achar.

Conforme as instruções que recebi, deveria entrar pela porta da frente, surpreender o homem e executá-lo sem piedade. Geralmente contratam um assassino pela furtividade, mas daquela vez não queriam minha principal habilidade. Pensei que a morte do homem deveria, de fato, ser vista como encomendada.

Quando entrei no casebre de pedra, encontrei o alvo de braços cruzados encostado na mesa, que era o único móvel presente no lugar. Farrapos cobriam as janelas e uma lareira limpa ocupava uma das paredes. Ele sorriu ao me ver, já estava à minha espera.

Eu saquei a adaga, mas hesitei. Olhei mais uma vez ao meu redor e reparei que não havia comida, não havia sequer rastros de que outras pessoas haviam passado por ali recentemente. Voltei a prestar atenção no homem que pedia para que eu fizesse logo que fora fazer. Ele queria que eu colocasse um fim no seu sofrimento.

Um fim no sofrimento. Até aquele momento, eu sempre havia pensado na morte como uma forma de punição, mas nunca de alívio. Sempre assassinei homens soberbos, ricos e com certo poder ou influência. Homens que mereciam ser punidos, mereciam a morte. O que aquele pobre camponês fez para ser poupado da vida?

Ele não me disse mais nada. O último olhar que trocamos foi estarrecedor. Não havia medo, mas esperança. Era um olhar de súplica. Foi quando entendi que alguns mereciam a morte, mas outros a desejavam.

Saí do casebre com o serviço concluído e a mente cheia de pensamentos conflitantes, contra posicionados. Estaria eu fazendo um bom trabalho? Talvez fosse hora de rever meus paradigmas.

Segunda fase escura da Lua

O Sol levantara-se mais cedo na manhã de hoje. Havia orvalho nas folhas, anunciando que aquele seria um dia quente.

 Depois de ter matado o camponês, passei a questionar-me sobre a morte. Até então, eu a enxergava como o fruto do meu trabalho, mas ela parecia ser bem mais do que isso. Havia uma superposição: de um lado, os ensinamentos de meu mestre e do outro, a filosofia do ato. Eles não eram necessariamente conflitantes, na verdade, por vezes convergiam e se completavam.

Eu percebi que a morte era mais do que haviam me ensinado, talvez porque nunca pensaram como eu ou talvez porque ignoravam esse aspecto. A princípio, mergulhei em um túnel escuro e cheio de incertezas, mas tempos depois, aproximei-me da luz.

 

Tunelamento

Terceira fase escura da Lua

Passei toda a manhã de hoje observando uma borboleta deixar seu casulo. Demorou um tempo até que ela se libertasse de sua prisão e conseguisse esticar suas asas para voar.

Talvez minha metamorfose fosse similar à daquele inseto. Meu casulo se apresentou como uma barreira que parecia intransponível: a morte pela morte. Entretanto, adquirir conhecimento para ultrapassar essa barreira foi libertador. Eu finalmente poderia voar.

Não sei ao certo quando foi que eu atravessei essa barreira, mas de alguma forma havia chegado do outro lado. Passei então a escolher os trabalhos que aceitaria ou não. Não mataria mais pelo simples ato de matar, mas assumiria por completo o caráter dual de punição e libertação da morte. Caberia a mim decidir quem deveria ou não morrer.

Criação e Aniquilação

Primeira fase crescente da Lua

Levantei cedo hoje pois deveria partir para outra cidade. Geralmente, prefiro viajar à noite, quando as estradas são mais calmas e a Lua me acompanha. Resolvi fazer diferente dessa vez.

Já se passou muitas fases lunares desde que me tornei Pyt. O tempo não é imutável nem para nós que nos julgamos estar no poder para determinar quem deve viver ou quem deve morrer. Não sei quanto tempo viverei, talvez esteja na hora de encontrar alguém para me substituir um dia.

Encontrar um novo aprendiz de Pyt que cresça na minha filosofia e que, talvez, encontre uma forma de lidar com o tempo melhor do que eu. Alguém que seja capaz de ver o tempo não como uma restrição, mas como algo relativo dentro dessa linha de pensamento. Seria isso possível?

Criar um novo Pyt significaria a minha morte, minha aniquilação. Mas essa é a forma da Guilda de Um operar e isso certamente não era algo que eu estava disposto a mudar.

Meu cavalo avançava lentamente pela estrada e o Sol já estava quase em seu ápice quando me aproximei de um carvalho à beira da estrada. Uma garota de pele escura e cabelos encaracolados dormia sob sua sombra. Nos braços, várias marcas punitivas, feridas recentes ainda sangravam.

Acordei-a gentilmente, mas ela assustou-se e saiu correndo. Seria eu tão feio a ponto de deixa-la com medo? Talvez só a lembrasse dos responsáveis por todas aquelas feridas. Deixei o cavalo amarrado na árvore e passei a tarde sob sua sombra, meu próximo trabalho poderia esperar mais um ou dois dias. Sabia que, no tempo certo, aquela garota retornaria até mim.

Agora a noite, com a Lua a nos observar, termino de escrever esse diário enquanto ela saboreia a carne de veado que assei. Se me tornei livre ou não, só o tempo dirá.

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