Senhores da noite | Leon – Por Old folk

No contando contos deste sábado, Ricardo Old Folk nos apresenta o prólogo do seu livro o qual ainda está em desenvolvimento. Espero que curtam a leitura e não deixem de dar um feedback para o autor. Boa leitura a todos!


 

Prólogo

                   Foi durante uma noite de primavera sem luar, onde o céu se encontrava encoberto por incontáveis nuvens, que vinha certa carruagem em grande velocidade, puxada por um par de cavalos musculosos. Percorria perigosamente uma estrada tortuosa e lamacenta. Os animais suportavam o severo castigado do açoite de um condutor imprudente, a segurança não era sua prioridade, pois o ocupante da cabine tinha pressa; as fabulosas cavalgaduras davam o melhor de si, uma combinação nunca testemunhada por olhos mortais: a explosão muscular daquelas criaturas, resultando na grande velocidade que mantinham, e ao mesmo tempo em que a agilidade desses impedia que o veículo despencasse através do desfiladeiro posicionado a esquerda da estrada. Tratava-se de exemplares experientes, de características incomuns, nem tanto físicas, mas fisiológicas, que proporcionavam desempenho superior aos de sua espécie na maioria dos seus principais aspectos.

                   O trajeto em questão recortava uma montanha, posicionada à direita do caminho, enquanto à esquerda ficava o vale negro e profundo coberto por densa vegetação.

                   O desolado caminho acabou por ser superado em pouco mais de uma hora. E após longa descida vinda das montanhas o veículo alcançou a floresta, adentrando por meio de uma estrada acidentada, até então sem viva-alma. O percurso era encoberto pelas copas densas das árvores que margeavam o trajeto.

                   Mais um período transcorreu enquanto avançavam ruidosos pelo caminho obscurecido pela noite e vegetação. Depois de algum período, surgiram pontos luminosos, eram as chamas de tochas que tremulavam a grande altura, avistados sobre os muros de um castelo, e assim o destino daqueles viajantes acabava de ser alcançado.

                   Seus portões estavam escancarados, havia uma sentinela de cada lado da entrada, os muros eram bem vigiados, embora o ambiente aparentasse certa calma e silêncio, podendo-se notar o estado de tensão nos rostos sombrios dos guardas, pois seu número de vigias a vista era intimidador.

                   A carruagem adentrou o pátio de pedra do castelo, em seu centro avistava-se um belo chafariz de mármore em pleno funcionamento, nele, derramava-se infinito conteúdo de um cálice na mão de uma ninfa levemente curvada para adiante. A estátua exibia uma cabeleira cacheada presa no topo de sua cabeça. O condutor forçou a parada dos cavalos, estes sacolejavam e agitavam suas cabeças, estavam arredios pela excessiva violência com que foram tratados até há pouco. O veículo estacionou diante de uma passagem sem iluminação que dava para o interior da mansão. Então saltou da cabine um jovem de cabelos longos e pretos; trajava capa e vestimentas predominantemente negras. Encaminhou-se a passos largos para o prédio. Não fora anunciado, era aguardado.

                   Passando por corredor estreito e escuro, sem passagens além do seu curso natural em frente, o jovem com seu elegante caminhar chegou a um salão amplo, repleto de janelas altas e largas, estavam abertas, seus parapeitos amplos, convidavam quem chegasse para assentar-se e apreciar a vista, seja lá qual fosse. Cortinas espeças se moviam com o soprar do vento que penetrava o recinto, vinha do vale não muito distante. Tal eram as medidas do cômodo em questão, que o mobiliário em seu interior parecia perdido em sua amplitude. Havia cadeiras, mesas de canto, sofás, estantes e muitos quadros que em sua maioria retratavam melancólicas paisagens noturnas; cada um destes objetos parecia esquecido pelo seu proprietário, e negligenciado pelos seus serviçais, pois tudo ali estava sem brilho, tomado pela poeira.

                   A principal iluminação do ambiente provinha de uma lareira, e esta se encontrava tão distante do recém-chegado, que suas chamas não emitiam calor, muito embora isso não parecesse importar ao proprietário — na verdade, proprietária.

                   Na escuridão, em oposição oposta ao convidado, havia um jovem casal, conversavam entre si com muita discrição, impossível era decifrar o assunto que tratavam com bastante interesse, suas vozes era inaudíveis. Eles se encontravam próximos de uma das inúmeras janelas abertas, estava cada qual acomodado em uma pesada cadeira de madeira de lei, seus encostos eram enormes, e o descanso para os braços eram exagerados e bem trabalhados.

                   O cavaleiro com olhos negros como opalas, depois de perscrutar o que lhe conveio no recinto, mirou uma bela jovem de cabelos longos e castanhos, ela se encontrava afundada em uma poltrona junta de outros móveis empoeirados perdidos no meio daquele enorme salão. Vestia-se como uma donzela de alta estirpe que acabara de desabrochar para o casamento que se aproximava — obviamente esse fosse o caso. De forma alguma! — A criatura de formas femininas e quase infantis tinha o olhar voltado para o vazio proporcionado por uma janela aberta quase a sua frente, embora demasiadamente distante. Encontrava-se imóvel como uma estátua, elevada pelos próprios pensamentos. Era possível que não tivesse notado a chegada do convidado.

                   O casal afastado, aquele que conversava afastado em um canto do salão aquietou-se, o convidado havia alcançado o coração do recinto, ficando bem a vista da dama, ainda absorta em suas divagações.

                   — Minha senhora. — rompeu a quietude o recém-chegado.

                   — Leon! — sorriu a dama após pronunciar o nome do visitante. E fixou nele seus olhos que pareciam ter luz própria. — Vejo que chegou bem antes do previsto!

                   — Faz muito tempo desde o nosso último encontro. — declarou aquele que atendia por Leon. — Então, vim o mais depressa que pude.

                   — Muito atarefada… Negócios pouco agradáveis! — revelou a dama. Em seguida, indicou ao convidado uma poltrona próxima de si.

                   Leon assentou-se, imitando a pose da anfitriã: relaxada, com membros largados sobre os braços de uma pesada e luxuosa poltrona, enquanto a cabeça ficava afundada em seu encosto, como alguém muito enfadada, ou mesmo preguiçosa.

                   Devo dizer que a pequena dama tinha a doce melodia da juventude, mas sua desenvoltura dos seus poucos movimentos até então, não correspondia com sua aparente tenra idade. E ela prosseguiu:

                   — Deve saber que a corte anda bem agitada, e enquanto isso, nosso representante negligência seu dever, estando mais preocupado com a arte e a música do que com a política.

                   — Desculpe a curiosidade… — interrompeu-a com certa delicadeza, Leon. Preparava o terreno para o que iria proferir a seguir — Mas a Senhora deve ter alguma relação com os vícios do nosso regente…

                   A dama reagiu com um sorriso bem sútil, tão discreto foi que apenas um observador muito atento poderia tê-lo percebido.

                   — De certa forma sim. — confessou a Dama. Encolheu de leve os ombros, exibiu as palmas das mãos brancas azuladas, pendeu de leve sua cabeça para a direita, confirmava o fato com desdém — É preferível que ele se ocupe com atividades que lhe tragam mais satisfação; melhor que deixe certos trabalhos para os mais aptos.

                   — Entendo perfeitamente. Mas dessa forma, a cabeça do nosso regente não ficará muito tempo sobre seus ombros. — acrescentou Leon, por fim, sorriu.

                   — Talvez. — mais um singelo sorriso brotou dos seus lábios pintados da Dama. Mas então, ela inclinou-se de leve para diante. Prosseguindo — E quanto a você, meu estimado pupilo, o que andou fazendo por esses últimos tempos?

                   — Depois que eu parti, — Leon entrelaçou seus dedos enluvados, fixando o olhar no teto, mirando um grande lustre de cristal, bem empoeirado e apagado pouco a frente dele, logo acima da sua anfitriã — tratei de aprimorar minha habilidade com a espada.

                   — Ouvi rumores sobre isso… — admitiu a Donzela.

                   — Tenho certeza que sim, a Senhora é muito bem relacionada, além do mais, seus olhos e ouvidos chegam tão longe que sequer poderia especular sobre tal fato. — afirmou. E então, seus olhos pousaram na Dama. — Continuando. Viajei com uma grande comitiva para longe da nossa amada terra em busca de aprendizado, as minhas aventuras me renderam muito conhecimento. Ao retornar ao Reino da Espanha, constatei que os espadachins mortais já não me proporcionavam um desafio digno de nota, talvez, em grandes quantidades pudessem me surpreender.

                   A pequena dama endireitou-se na grande poltrona, entreabriu seus lábios, e desviou seu olha por um instante, buscou algo em sua memoria. Em seguida, perguntou:

                   — Mas porque partiu? — e antes que Leon pudesse se explicar, ela prosseguiu. — Muito bem eu poderia ter contratado os melhores preceptores da Europa, além do mais, temos vasta biblioteca à disposição de todos os nossos membros, sabe bem disso. Não vejo motivos que justifiquem uma partida tão abrupta, tão pouco, a sua longa ausência,

                   — Sei bem disso, entretanto, precisava me desvencilhar da mão protetora da minha genitora e mentora: você, Iole. — Leon falou de tal forma que suas palavras soaram pesadas para si mesmo. E endireitou-se, baixando a cabeça, aguardando a reação da dama diante do que acreditava ser a verdade. Estava ansioso, provavelmente temia uma represália.

                   Um instante de silêncio se seguiu. Nesse intervalo, com seus olhos brilhantes, Iole sondava o cavaleiro. Seja qual fosse seu poder, julgava o cavaleiro lutando para disfarçar a própria apreensão.

                   — Posso lhe perdoar… Entretanto, tenho certas condições a impor. — Revelou Iole.

                   Leon sorriu, estava aliviado.

                   — Era de se esperar. Sinta-se a vontade para impor suas condições, e eu as atenderei, se puder.

                   — Meu querido pupilo! — Iole ergueu suas mãos pequenas e pálidas, queria enfatizar a importância do que seria dito por ela a partir daquele momento. — Tenho uma demanda para você. Será perigoso, mas lhe trará grandes recompensas.

                   — Foi justamente o que imaginei. — Leon concluiu. Prosseguiu. — E estou bem mais forte do que décadas. Treinei exaustivamente o manejo da espada longa, e me habituei a gerenciar minhas posses. Sou a melhor escolha para esse empreendimento, pelo menos dentre os mais jovens e dispensáveis em nossa linhagem.

                   — Está exagerando, filho. — Iole alertou. E logo, revelou — seu irmão foi destruído.

                   Leon estremeceu. Engoliu o ar como se este fosse um objeto sólido. Em seguida, cerrou os punhos, ao mesmo tempo em que seu rosto se contorceu perante a terrível revelação. Então passou a encarar o piso de pedra, lutava para ocultar seu sofrimento. Seus olhos acabaram revelando seu sincero pesar, embora não vertesse nenhuma lagrima, tão pouco, exteriorizasse seus sentimentos além do que já foi descrito.

                   A pequena Iole assistiu a tudo impassível. E disparou:

                   — É de se esperar que eu lhe culpe por isso. Não acha?

                   — Conte-me os detalhes… — as palavras pareciam escorrer dos lábios de Leon. Logo, ele desabou na poltrona, espalhando uma fração da poeira que impregnava o belo móvel.

                   — Markel, seu irmão, sofria da mesma inquietude que você — começou Iole, endireitava-se no luxuoso assento, afinal, escorregava dele. Suas pernas mal tocavam o piso, enquanto seus braços pousavam esticados sobre os apoios da velha mobília, desajustada às suas delicadas medidas. — Ao menos, teve o trabalho de elaborar uma bela desculpa antes de partir a fim de se estabelecer longe das minhas garras… — ironizou exibindo as unhas opacas em seus dedos infantis.

                   Iole, continuando:

                   — Soube por meio dos meus espiões que ele, Markel, havia ocupado uma velha propriedade tomada dos seus legítimos proprietários. Isso foi possível graças ao casamento dele com uma das belas filhas do nobre local.

                   — Previsível…

                   — Certamente. — Iole interrompeu. — Com o passar do tempo, eliminou cada um dos membros daquela família de modo tal que não levantou suspeitas. Deste ponto em diante, passou a explorar a região, iludido com lendas locais…

                   — Lendas? — Leon a interrompeu com esta indagação.

                   — Estórias sem importância…

                   — Sim. Mas qual a natureza dessas “estórias sem importância”? — insistiu Leon.

                   — Ora meu querido, eu não tive a paciência de ir mais a fundo nesse ponto. O que me importava, e provoca grande mal-estar, é a perda de um dos meus amados pupilos… — subitamente, algo que pareceu um engasgo lhe chegou à garganta, o que a forçou a produzir um som gutural incompatível com tal beldade.

                   Leon foi do mórbido interesse pelo fato insólito exposto por sua tutora ao profundo pesar pela perda do irmão. É possível que tenha sido influenciado por Iole, que havia deixado emergir das profundezas da sua alma corrompida algo, que, aos seus próprios padrões, seria uma emoção, seja qual for esse sentimento.

                   — Perdão… — Iole estava desconfortável com os próprios sentimentos, ou com sua reação diante deles.

                   —Não se incomode. Esta entre amigos. — tentou acalmá-la.

                   Ela ficou em silêncio, desconcertada. Traída por suas próprias emoções. Talvez não fosse o monstro que acreditava ser.

                   Em fim, Leon ignorou todo o mal-estar prosseguindo a conversa.

                   — Em todo caso… — curvou-se para frente, entrelaçando os dedos e apoiando os cotovelos sobre as coxas. Seu olhar era distante, conspirava consigo mesmo enquanto falava — em honra a Markel, e a nossa estirpe, descobrirei o culpado e o destruirei. — murmurou entre dentes.

                   — Ordenarei os preparativos para sua ida ao Ducado da Suábia — esclarecia Iole, em favor de Leon, agora, seu representante — as posses do seu irmão estão relegadas a própria sorte há alguns anos, mas isso não é obstáculo diante do emprego de fieis serviçais.

                   Aquilo parecia uma donzela, Iole, ergueu-se da poltrona com um leve salto. Deu alguns tapas e puxões em seu vestido, sua intenção era endireitá-lo, pois devia ter passado muito tempo sentada, o que acabou por amarrotá-lo um pouco.

                   — Venha Leon, algumas horas a mais não faram diferença alguma para nós — Iole se movia graciosamente pelo salão. Indicava o casal que a olhava intrigado, se dirigia para deles. — Conheça seus irmãos de sangue! Têm pouco mais de uma década de não vida…


 

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