Henri François Bonet

Henri François Bonet foi o grande motivo pelo qual Sabine deixou Paris e seguiu para Berlim. Ele foi um personagem pensado para ter um efeito fantasma no jogo, ou seja, aquela figura que é mencionada em quase todo o diálogo mas nunca aparece, e até agora nunca apareceu. O misterioso psicanalista teve ainda uma vida cercada de mistério, e a cada descoberta que Aleksander e Sabine fazem dele revelam, no mínimo, que Henri não é o homem que dizia ser.

Sabine primeiro teve notícias de Henri quando os irmãos Beauxbites recomendaram-lhe o psiquiatra em 2010, informando-a que dinheiro não seria um problema. Apesar disso, o homem calmo, bem educado e tão inesperadamente direto quanto reservado em relação à sua própria vida, que ela viria a chamar apenas de Mrs Bonet, só se tornou um conhecido da moça em 2012, quando as regressões a Guido passaram a se tornar insustentáveis para Sabine, e Bournier insistiu que ela fizesse análise.

Já na primeira sessão, Sabine contou-lhe tudo sobre as regressões, e mais tarde também lhe confessou seu medo de que Bournier morresse. À medida que o tempo passou, a dependência de Sabine do analista só cresceu, e após o óbito de Gustave, Henri era a única pessoa que fazia a moça sair da cama. Foi assistida por ele, inclusive, que ela teve sua regressão mais forte com Guido, em que o rapaz lembrou-se de todo o episódio da prisão de Alexandra.

A garota não faz ideia das verdadeiras alianças do seu analista, embora sempre tenha desconfiado que fosse Desperto como ela. Seja como for, Henri sempre tinha muitos horários disponíveis (não só para Sabine), e parecia preferir a companhia de seus pacientes e do seu cônjuge às de quaisquer outras pessoas.

Eventualmente, Sabine também teve notícia de que Henri havia publicado livros como O Paradoxo Desaurido: notas para uma psicologia social da Quarta Facção (Editora Doissetep, 1996) e Silêncio e Húbris: um breve tratado sobre Quietude e Barulho (Publicações Paradigma, 2009), embora não tenha entendido muito do que diziam os volumes quando teve a curiosidade de folheá-los.

Em janeiro de 2016, num dia em que Henri discutia com Aleksander, Sabine apareceu no escritório de seu analista para agradecê-lo pela sessão de regressão, mas o homem que conversava com ele bateu a porta antes que ela pudesse dizer qualquer coisa. Pouco depois, em fevereiro, Mrs Bonet insistiu pra que ela fizesse mais uma sessão como aquela, parecendo apressado e transtornado. Foi aí que ele disse que iria pra Berlim, perguntou se ela poderia encontrá-lo lá uma vez por semana para continuar as sessões, o que ela aceitou sem saber as consequências, sendo essa a maior razão para Sabine ter se mudado para a Alemanha.


Henri François Bonet nasceu em 1951, mesmo ano de nascimento de Guido, em Paris, cidade onde foi criado. Filho de um advogado que cuidou dos casos de restituição de bens de vários judeus após a Segunda Guerra com uma senhora da sociedade, ele teve a educação francesa mais clássica que se pode imaginar, tendo aprendido piano, literatura e humanidades desde muito jovem, desenvolvendo uma particular predileção pela história, de forma que o rapaz até mesmo brincava de reconstituir batalhas da Segunda Guerra utilizando as miniaturas colecionadas pelo pai em seu escritório quando pequeno. Educado em uma das melhores instituições privadas do país, o jovem Bonet orgulhava os pais com sua predileção pelas ciências sociais, e o curso de direito lhe parecia um caminho natural. No entanto, Henri foi pego no espírito do Maio de 1968, desafiando a autoridade dos pais para se deitar com os rapazes que gritavam palavras de ordem nas ruas, em especial os mais femininos e frágeis, sobretudo quando tinham também alguma fragilidade de classe, o que lhe causava um sentimento de superioridade em relação a eles. Curioso quanto à razão pela qual ele mesmo – e também outros jovens – se deitavam com rapazes, e não mulheres, Henri desafiou a autoridade paterna e escolheu um outro curso, entrando sem muita dificuldade na graduação em psicologia da Université Paris Descartes – Paris V, onde se graduou, mestrou e doutorou com láureas.

A clínica do rapaz começou por volta de um ano depois do fim da graduação (1974), posto que no início ele trabalhava com psicotestes e outros trabalhos técnicos. Ainda assim, a transição entre os atestados e as clínicas não foi o grande salto que o rapaz esperava, posto que seu consultório era frequentado apenas por viúvas inconsoláveis e outros clientes pequeno-burgueses. Deste modo, sem poder encontrar nos pacientes o estímulo intelectual que buscava, Henri se dedicou a escrever, e as leituras que amigos, que tinham seguido carreira acadêmica, faziam dos seus trabalhos renderam-lhe um nome na universidade, de forma que ele voltou para um mestrado. O Despertar do jovem Bonet se deu três anos depois, um ano antes que ele acabasse o mestrado, em 1975. Ele foi a culminação de um processo que se iniciou quando o jovem Bonet conheceu uma paciente bem mais intrigante do que os que tivera até então: Agnès Barbineaux.

Já na primeira sessão dos dois, aquela senhora surpreendeu o rapaz, posto que embora Henri tenha percebido que Agnès precisava de ajuda com alguma coisa – que precisava dele para alguma coisa –, ele não conseguia entender muito bem o quê, ainda que lhe tenha parecido que a necessidade que ela tinha de si não era tão prática, mas muito mais intangível. Já naquela sessão, Barbineaux contou ao psiquiatra boa parte da sua vida, expediente que prosseguiu na sessão subsequente; e nesses primeiros encontros, os dois perdiam completamente a noção do tempo. Enfim, a partir da terceira sessão, o rapaz começou a tentar inquirir a razão para ela estar ali, mas ela se limitava a responder que estava ali para ajudá-lo, algo que ele não entendia muito bem. Algumas sessões depois, Agnès revelou a Henri que já o conhecia, por ele ser famoso nos círculos que ela frequentava, e isso ele também mostrou dificuldades em entender. A partir daí, a última sessão dos dois não tardou a vir. Ela se deu em uma ocasião na qual Agnès sentou-se na cadeira onde Henri deveria sentar-se, sugerindo que ele se sentasse no divã, incentivando-o a falar. Após um tempo confuso, Henri finalmente cedeu às investidas de Barbineaux e lhe contou toda a sua vida.

Naquela mesma noite, Agnès levou Henri a uma soirée, instruindo-o a cancelar todos os seus outros pacientes daquele dia. A soirée ocorreu em um salão esquisito, decorado com vitrais cheios de motivos claramente ocultistas, e Henri conheceu várias pessoas ali. Entre elas, Beatrice Desjardins (também conhecida como Sybille), uma atriz de aspecto frágil que deixou o psicólogo arrebatado tanto com sua figura quanto com sua erudição. Naquela mesma noite, os dois passearam de mãos dadas na rua, e após um beijo, Sybille partiu. Tal beijo foi catalisador do Despertar de Henri, que passou a ver Paris sob outras lentes, e enxergar as pessoas de outro modo, como se elas se desnudassem perante a si – inclusive as pessoas daquele salão, para onde retornou após se despedir da moça.

Então com 70 anos, a poderosa Hermética Agnès Barbineaux a partir daí tomou o jovem de 24 como seu pupilo, introduzindo-o à Casa Bonisagus e à Fraternidade Hermética do Anoitecer Tardio, junto às quais foi Mentora do jovem analista. Como isso tudo aconteceu perto do fim do mestrado de Henri, o doutorado do rapaz, cursado entre 1976 e 1980, marcou ainda o início do período da sua educação mística junto a Agnès (que só se concluiu em 1983, três anos após o fim do doutorado), tendo sido uma das épocas mais desafiadoras de sua vida por conta da necessidade de equilibrar a educação mundana e a mística. Por certo, assim, os dois processos educacionais pelos quais o rapaz passou se influenciaram bastante, e enquanto a educação Hermética o fez abandonar a psicologia lacaniana em troca da jungiana e fazer uma tese sobre o papel dos sonhos na produção de um imaginário social, sua educação mundana o tornou especialmente atraído pelo estudo da Esfera de Mente. Isso tudo o isolou tanto na universidade quanto entre os Herméticos, posto que para o meio acadêmico ele era esotérico demais, e dentro da Ordem de Hermes muito pouco afinado à ortodoxia do Paradigma da Tradição.

Ainda durante seu processo educacional, porém, Henri começou a ganhar respeito no seio da Ordem, sobretudo após a publicação do seu primeiro livro, ao qual chegou por um caminho tortuoso. Isso porque, após a decisão de publicá-lo, Henri tomou a decisão de deixar todos os seus pacientes, atendo apenas àqueles que pudessem render um bom assunto à sua escrita, os quais buscava ativamente. Devido à sua atenção à sexualidade (razão pela qual havia originalmente escolhido cursar psicologia), o psicólogo então se aproximou originalmente de Carlos Ortega, um colombiano que tinha ido a Paris para prosseguir com seus estudos e foi abandonado pela família quando seus pais descobriram que ele era gay. Por mais interessante que tenha sido ajudar e estudar Ortega, porém, Henri sentiu que precisava de um caso mais impactante, e tal caso caiu de paraquedas no seu colo de onde ele menos esperava.

Isso porque, após uns pacientes mundanos que atendera em sua prospecção para a escrita do livro, Henri voltou a ter contato com Beatrice Desjardins. Rejeitada pela família por ser uma mulher trans, a moça apenas conseguira sobreviver por ter encontrado abrigo como uma espécie de anfitriã na sede da Fraternidade Hermética do Anoitecer Tardio. Desperta, Desjardins era capaz de manipular seu próprio corpo, tendo o conhecimento místico para tanto. Todavia, por conta de um problema com o Paradoxo, sua genitália ficou desfigurada, e a partir daí ela passou a ferir a si mesma mentalmente, tentando apagar as dores psicológicas do seu passado e as dores físicas provocadas pelo seu problema com o Paradoxo. Com a ajuda de Henri, Beatrice conseguiu ajustar seu corpo e melhorar seu estado psicológico, e ela lhe rendeu seu primeiro livro, Sybille, ou a heterodoxia psicológica Desperta: um estudo de caso com base na matriz Jungiana e na teoria Hermética. Com a ajuda de Agnès, o livro circulou bastante, e logo o trabalho de Henri com psicologia Desperta começou a atrair atenção primeiro em Paris, depois na França e enfim na Europa, eventualmente ganhando o mundo inteiro.

Aceito por muitos que antes o rejeitavam, ao longo dos anos, Henri foi galgando postos cada vez mais altos entre os Herméticos, ao passo que sua prática clínica se tornava cada vez mais famosa entre os Despertos de toda a Europa, muitos viajavam de países distantes para tratar casos de Silêncio com ele. Em 1985, quando Henri tinha 34 anos, Agnès morreu aos 80; e foi ele que a encontrou morta em seu apartamento, e junto a ela, papéis ordenando as mortes de três pessoas: a de William Thornton, aparentemente levada a cabo alguns anos antes, e as de Guido e Allegra Remi, que pareciam novos.

Henri se aproximou de Guido e inicialmente mentiu que não fazia ideia de quem era ele ou de que fugia, e assim seguiu ensinando mágica a ele, eventualmente se apaixonando pelo rapaz, que foi o segundo grande amor de sua vida, embora Guido não o tenha amado de volta.

Anos mais tarde, Aleksander viu uma palestra de Henri sobre Psique e Misticismo na Sociedade Contemporânea, na universidade em Oxford em 2008. Ele foi cumprimentá-lo na cantina e, sem querer, derrubou café nele. Aleksander ficou mortificado, mas foi justamente isso que os levou a conversar sobre diversos assuntos e ver o quanto tinham em comum. Em meio à conversa, os dois acabaram percebendo que eram Despertos, e Henri confessou que tratava especialmente problemas de pessoas como eles, dando um cartão a Aleksander para “caso haja um dia a necessidade”, ou ao menos para caso Aleksander um dia se visse “com algum tempo livre em Paris”.

Então, após todos os acontecimentos envolvendo a sua relação com Fatima, Aleksander foi atrás de Henri em 2011 para lidar com seus traumas, e foi assim que a relação dos dois de fato começou.

Assinatura_Crônicas - Guilhermina-07

Siga a Guilhermina no Instagram.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s