Especial — Dia das Bruxas

Não acredito em bruxas, mas que elas existem, existem.

Pessoas com poderes mágicos existem em histórias de todos os povos do mundo. A particularidade das bruxas é que, originalmente, eram sempre mulheres e seus poderes — sedução, fertilidade e cura — refletiam o arquétipo da deusa de uma cultura matriarcal.

Em oposição ao arquétipo masculino — com suas principais características relacionadas à ação externa, combate e habilidade física — o arquétipo feminino, encontrado não só na bruxa, é voltado para a energia íntima, sexualidade e emoções.

Assim como a lua tem suas quatro fases, a mulher é representada em diferentes momentos da vida. Desde juvenil e pura, passando pela maturidade materna e chegando, finalmente, à sabedoria da anciã. No entanto, há, também, o lado oculto, sombrio e destruidor.

Mesmo sendo “a face oculta”, essa é a imagem que, até pouco tempo, mais aparecia ao falar sobre bruxas. E, apesar de ser o mais comum, o terror é apenas um dos aspectos que podem ser trabalhados na construção desse personagem. Assim como a relação com criaturas malignas, pois, na origem, o que encontramos é o culto à natureza e a seus deuses pagãos, que foram reformulados de acordo com o filtro da cultura dominante.

Nessa mudança, o que antes era sagrado tornou-se profano. Divindades e seres mágicos que eram cultuados, passaram a ser proibidos e temidos. Durante a Idade Média, aquelas que praticavam o que era considerado bruxaria eram perseguidas pelo crime de adoração ao diabo, o patrono mágico que lhes concedia poderes.  

A Caça às Bruxas marcou a história mundial e se tornou uma expressão referente à perseguição cultural, ideológica e étnica. Aqueles que pensam ou, por qualquer razão, são diferentes, sofrem discriminação e, muitas vezes, chegam a ser agredidos e mortos.

Quando a mulher rompe com o domínio do homem, ela é vista pela sociedade patriarcal como uma “criatura maligna”, que deseja destruir sua estrutura e tradição. Devido ao ponto de vista masculino que é predominante em várias culturas, as mulheres que não seguiam a conduta esperada eram consideradas bruxas no pior sentido da palavra.

Hoje em dia, graças à imagem popularizada com a saga de Harry Potter, as bruxas (e bruxos) receberam uma nova contextualização. De vilões, passaram a ser os heróis, mas sem perder o lado sombrio, representado pelos bruxos das trevas. A presença de bruxas boas, no entanto, já era vista nas histórias há muito mais tempo. Em “O Mágico de Oz”, por exemplo, encontramos Glinda, a Bruxa Boa do Sul e Locasta, a Bruxa Boa do Norte.

Algumas personagens clássicas foram reformuladas, como Morgana Le Fay, a bruxa meia-irmã do Rei Arthur. Por muito tempo foi retratada como uma mulher maligna, com interesses egoístas, que desejava apenas o mal de Camelot e seus cavaleiros, porém a escritora Marion Zimmer Bradley, em seus livros da saga As Brumas de Avalon, contou a história, já conhecida, através do ponto de vista feminino.

Nos contos de fadas mais famosos, onde a bruxa é a madrasta, encontramos o Complexo de Édipo Feminino (Complexo de Electra), no qual, a vaidade e o medo de envelhecer são trabalhados, através da mãe que teme ser substituída pela filha. Criando um conflito de destruição e resistência entre ambos os lados.

Apesar da palavra “Bruxa” ter sido uma expressão pejorativa, usada para chamar mulheres de velhas e feias, a busca pela juventude eterna é um elemento comum desse arquétipo, refletindo a vaidade associada principalmente às mulheres. Pois, enquanto os homens usam espadas e escudos, as armas femininas são a beleza e sedução, representado pelo Espelho de Afrodite no símbolo do Feminino. Poções do amor e rituais de fertilidade também reforçam essa características das bruxas.

Na literatura nacional temos, no livro A Batalha do Apocalipse, de Eduardo Spohr, a personagem Shamira, feiticeira de En-dor, inspirada em uma personagem bíblica que tem a habilidade de entrar em contato com os mortos e, apesar de ser proibido, ela é contratada pelo próprio rei dos hebreus, Saul, para que ele pudesse falar com o espírito do profeta Samuel.


 

Assinatura_Crônicas - Henrique Duarte-10

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