Enoque Rocha

Enoque foi um personagem concebido para uma campanha no universo expandido de Filhos do Éden, de autoria de Eduardo Spohr. Infelizmente, por diversos problemas que tivemos na época, a aventura não chegou a sair do papel.

A intenção do nosso grupo de RPG era criar uma aventura em um cenário muito conhecido por nós, a pitoresca cidade mineira de São João del Rei, onde morávamos. Para título de curiosidade, São João del Rei foi a maior cidade de Minas Gerais na época do Brasil Império e quase se tornou a capital do estado (que até então era Ouro Preto), mas o projeto da construção de Belo Horizonte acabou sendo aprovado e a cidade então nunca se tornou capital. São João del Rei era um importante centro comercial e foi onde nasceu Tiradentes, o famoso líder da Inconfidência Mineira.

Nossa campanha, entretanto, se passaria no ano de 2016, em uma cidade mais moderna, mas que ainda carrega consigo muitas heranças culturais desse passado imperial. Tendo como cenário o centro histórico da cidade, com suas construções coloniais, museus e igrejas com obras de grandes artistas barrocos, como Aleijadinho e suas adjacências mais modernas.

No universo de Filhos do Éden, existem várias classes de personagens que podem ser divididas em três espécies básicas: anjos, demônios e mortais. Enoque é um mortal denominado Nephilim, nascido de uma humana e um anjo. O background desse personagem foi escrito no formato de um conto sobre como ele descobriu sua verdadeira natureza.


Nós morávamos em uma casa na lajinha, uma pequena praça no bairro Tijuco onde uma gruta dedicada à Nossa Senhora de Fátima ocupava posição de destaque. O bairro, que muitos consideravam um dos mais perigosos da cidade, na verdade era tranquilo e bom de se viver. Minha mãe Amélia, cultivava em casa basicamente todos os alimentos que consumíamos. Não precisávamos de carne ou qualquer outro derivado animal para nos alimentar.

Ela também cuidava das mais diversas plantas medicinais que serviam para qualquer doença, mesmo que eu não me lembre de ter ficado doente um dia sequer em toda minha vida. Minha mãe atribuía minha saúde de ferro à alimentação saudável que eu tive desde bebê. Mesmo um corte ou qualquer outro tipo de ferimento, curava-se da noite para o dia sem deixar marcas na minha pele.

— Se alimentar bem faz toda diferença, filho. — dizia minha mãe. — Além disso, você é cercado por energias positivas e boas vibrações. Olha só essa aura radiante!!

— Não viaja, mãe. — respondi rindo.

— Não, eu falo sério. Você é um ser especial, puxou isso de seu pai, mas os olhos são iguais aos do meu avô.

— Falando no meu pai, não acha que é hora de me contar a verdade sobre quem ele é?

— Enoque, eu já te disse. Seu pai não é deste mundo. — Ela repetiu pela milésima vez. — Ele veio até mim em uma esfera luminosa e tomou forma de homem na minha frente. Foi uma noite mágica.

Suspirei e concordei com a cabeça, não estava disposto a ouvir mais uma vez o relato de minha mãe sobre as experiências sexuais com extraterrestes.

— São Tomé das Letras é uma cidadezinha fantástica. — Ela continuou depois de um tempo. — Já te disse que foi seu pai que escolheu seu nome? Naquela mesma noite ele sabia que eu iria engravidar e que o filho seria um menino. Chame-o de Enoque, ele disse com aquela voz grave como um trovão.

Sempre que eu a questionava sobre a identidade de meu pai ela contava a mesma história absurda e esperava que eu acreditasse nela. Eu nunca havia acreditado no que ela falava, mas seu relato acabou provando-se verdadeiro e eu só descobri quando completei dezenove anos.

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Pôr do sol na Igreja de São Francisco de Assis em São João del Rei MG

Eu era responsável por realizar a entrega dos remédios naturais que minha mãe vendia. Percorria todo o transito caótico de São João del Rei em uma bicicleta que ganhei no aniversário de quinze anos. Um dos nossos mais frequentes fregueses era o padre Artur, responsável pela igreja de Nossa Senhora do Carmo.

A última entrega que fiz para o padre Artur foi em janeiro deste ano. Deixei minha bicicleta presa ao poste de luz próximo à esquina do largo, iria fazer o resto do caminho até a casa paroquial andando quando escutei alguém chorando.  A rua estava movimentada àquela hora, mas não importava para que lado eu olhava, não via ninguém chorando.

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Igreja de Nossa Senhora do Carmo – São João del Rei MG

O choro ficou mais alto quando me aproximei do cemitério de mesmo nome que ficava ao lado da igreja. No topo do portão metálico, uma caveira de gesso parecia me acompanhar com o olhar vazio. Notei que as barras de ferro estavam levemente abertas então eu me aproximei, o coração palpitava como nunca antes.

Atravessei o portal me aventurando para o interior daquela construção sinistra. Um anjo de mármore olhava para os túmulos aos seus pés como um guardião. O cheiro de mofo, típico dos prédios antigos de São João del Rei dava a impressão que aquele lugar estava preso em uma realidade além do tempo. Senti o ar esfriar e os pelos dos meus braços arrepiaram-se.

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— Moço, eu não quero ficar aqui.

Meu olhar foi atraído na direção de quem pronunciara aquela frase. Sobre um túmulo de granito escuro, a figura espectral de uma criança estava chorando enquanto segurava uma frauda de pano em uma das mãos.

— Eles são maus comigo. — a criança voltou a dizer.

O sangue gelado de súbito voltou a circular em meu corpo e eu dei alguns passos para trás. Esqueci do degrau e tropecei caindo no chão. Nesse momento, o menino passava a frauda nos olhos para enxugar as lágrimas. A garrafa com o xarope caseiro do padre quebrou-se no chão espalhando o líquido amarelado pelo chão de pedra.

Levantei-me rapidamente e corri na direção da saída do cemitério, mas bati em algo que impedia minha saída. Duas grandes mãos negras me seguraram nos ombros, era o padre Artur.

— Fique calmo, Enoque. — disse ele.

— Padre, a criança chorando… — não conseguia concluir a frase.

— Não há nada que possa fazer por ela. — ele respondeu. — Algumas almas não podem ser salvas nem mesmo pelos ofanins.

— Eu não estou entendendo…

— Venha comigo e eu lhe explicarei tudo.

Padre Arthur me levou até sua casa, fechou as janelas e a porta. Um calafrio percorreu minha espinha ao entrar naquele lugar.

 — O que eu vou te dizer vai parecer loucura, mas quero que ouça com atenção. — disse o padre. — Você não é quem pensa ser. Seu pai é um anjo, um ishim da estirpe dos patrulheiros, governante das forças elementais e defensor da natureza. Sei que isso soa ridículo, mas é a verdade.

Pensei em me levantar e sair correndo, mas o padre continuou a falar.

— Meu verdadeiro nome é Kariel, também sou um anjo, mas da ordem dos ofanins. Seu pai e eu somos amigos e ele pediu que eu mantivesse um olho em você e sua mãe, por isso compro os remédios regulamente. Sabia que em algum momento suas divindades se manifestariam.

 — Divindades? — perguntei.

 — Ora essa, Enoque. Não pensa mesmo que o fato de você nunca ficar doente está relacionado com essa alimentação vegana, pensa? — Ele suspirou diante do meu silêncio. — Veja bem. Sua mãe nunca mentiu para você, seu pai não é mesmo deste mundo, mas também não é um extraterrestre no sentido que ela prega.

 — Como posso saber que está falando a verdade?

 Padre Artur me examinou em silêncio por um tempo e então respirou fundo antes de voltar a falar.

 — Você viu o fantasma lá no cemitério. Aquele garotinho é incapaz de abandonar seu corpo morto e está lá há dois séculos. — Ele fez uma pausa. — Você, assim como todos os celestes é capaz de ver além do tecido da realidade, você despertou sua visão para enxergar o plano astral. Precisa se acostumar com a presença de fantasmas, precisa ignorá-los ou vão achar que ficou maluco.

Embora o tom de fala do padre transmitia a veracidade de suas palavras, aquela história ainda era muito estranha para que eu acreditasse tão facilmente.

— Vejo que ainda não convenci você. Temia por isso, mas não tenho outra escolha. — Padre Artur, ou melhor, Kariel fechou os olhos e respirou fundo. No instante seguinte, luzes douradas emergiram de seu corpo preenchendo o ambiente. Eu prendi a respiração admirado diante de tamanho espetáculo. — Essa é minha aura, todos os anjos têm uma.

Quando o anjo abriu os olhos, sua aura desapareceu e o quarto voltou a sua iluminação convencional.

— Agora acredita em mim. — Afirmou o padre.

— Acredito, eu acho. — assenti passando a mão no queixo. — Quer dizer então que eu sou um anjo?

— Anjo não, um Nephilim. Cria de celeste com humano. — Ele me explicou. — Portanto, deve tomar muito cuidado, pessoas más caçam seres como você.  Seu sangue é valioso.

Naquele momento eu não sabia, mas a última frase que Kariel me disse iria me atormentar pelo resto da vida.

Assinatura_Crônicas - Vitor

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