O Ídolo de Barro – Final

Capítulo III

Ao despertar, Bernt notou que era carregado, estava sobre ombros vigorosos. Nada via, pois se encontrava envolto pela grosseira cortina na qual tentara se esconder algum momento antes. Captava o vento batendo nas árvores, fazendo-as estralarem e rangerem, ainda que estivessem congeladas. Além disso, os passos pesados do seu captor afundavam na neve em seu caminho.

Arriscou balbuciar alguma coisa:

— Senhores… Por favor…

Foi ignorado.

— Senhores, um instante, por favor… Podem me ouvir por um momento?

E novamente não obteve resposta. Aguardou por algum instante, e tendo a certeza de não obter nenhum resultado, decidiu ser um pouco mais ousado.

— Senhores, não me façam mal! Posso pagar-lhes uma boa quantia pela minha vida! — clamou.

Dessa vez obteve resposta que veio em forma de um cutucão nas costelas, que o fez calar, sem folego.

Assim se passou um longo período de espera.

Em determinado momento, Bernt sentiu que o vento frio amainara, e as passadas dos seus raptores se tornaram mais ressoantes, pois estava certo de que não havia mais neve no percurso dos seus captores, se tratava de chão rochoso. Tanto tempo aguardou Bernt que acabou adormecendo. Não tardou a despertar, pois foi largado sobre o chão perturbadoramente frio.

Os vilões passaram a conversar entre si. Debatiam sobre qual rumo deveriam tomar dentre as diversas alternativas, nesta conversa acabaram revelando estarem no interior de uma caverna, e ainda, davam a impressão que teriam muito que caminhar.

Bernt, deitado e coberto pela cortina espeça, ficara onde estava por alguns minutos, apenas quando seu corpo pareceu acostumar-se a pedra gelada é que ele se movera, dando-se conta de que não estava amarrado, dessa forma, tomou coragem, movendo-se pela cortina até descobrir a cabeça, e assim poder averiguar o local. Deparou-se com um cenário negro, a silhueta dos dois homens a sua frente na forma de vultos, ainda discordantes. Uma corrente de ar tocou o crânio quase nu de Bernt, fazendo-o estremecer e retornar ao seu estado de casulo, mantendo somente os olhos descoberto, se bem que não lhe tinham grande serventia, dada a situação em que se encontrava: de total escuridão.

Mas então, o par de desconhecidos acabou chegando a um consenso: um deles permaneceria vigiando o prisioneiro, enquanto o outro seguiria adiante com propósito desconhecido. Bernt tanto esperou que, uma vez mais caíra no sono.

O pobre taverneiro acabou despertado ao toque áspero e pesado da sola de uma bota contra seu antebraço. Descortinou sua visão, e acabou se deparando um homem segurando uma lanterna pela alça, estava de cócoras, encarava Bernt com uma falsa cordialidade, um homem esbelto, elegante, de cabelos longos e negros, da mesma forma era seu trajar. Tratava-se de uma criatura de beleza sombria, tendo pouco de homem e um pouco de demônio, sua face era lívida como a de um cadáver.

— Devemos matá-lo, preciso do seu sangue. — disse o loiro, de forma brusca.

O homem de cabelos negro continuava a encará-lo, enquanto Bernt se encolhia diante da ameaça do gigante alguns passos mais atrás. O loiro também o encarava, mas sua intenção era óbvia: assassiná-lo; não lhe restavam dúvidas.

Então, o cavaleiro trajando negro recolheu uma das mãos, apanhando algo na escuridão, de algum compartimento em suas vestimentas, trouxe a luz o ídolo sinistro. O loiro acabou tão perplexo com a visão daquela imagem grotesca, que refreou as palavras que pretendia dizer.

— Como você se chama? — quis saber o desconhecido.

— Bernt… — a palavra lhe escorreu dos lábios.

— Então Bernt, explique essa imagem. Faça-o sem medo. — disse o rapaz de cabelos negros, bastante calmo — Entretanto, recomendo que diga somente a verdade. Estamos entendidos?

— Como quiser senhor. — confirmou Bernt.

— Comece.

— Eu a encontrei por acaso, entre os pertences da minha família… — iniciando sua explicação timidamente, Bernt. E continuou: — outros também fazem o mesmo… Outros do vilarejo também o adoram em segredo! — seu tom havia se convertido em acusação. — Posso apontar cada um deles, se assim ordenar.

O temor de uma punição o dominava. Temia o castigo físico, ainda mais se este lhe viesse sem a companhia dos seus iguais. Era esse o seu subterfúgio, sua desonra e sua sina.

— Que entidade é esta? Qual sua origem e propósito? O que ela faz? — perguntas feitas ao prisioneiro pelo jovem de cócoras. O loiro assistia a tudo em silêncio, e bastante atento.

— Me disseram que este foi um deus vindo de uma terra desconhecida, que havia se apresentado a nós, realizando muitos prodígios. Estava coberto por muitos ferimentos em decorrência de inúmeras batalhas que havia travado, assim havia relatado. Então lhe deram comida e bebida, e o abrigaram no interior de uma gruta, pois se dizia que ele era tão alto que não era possível ser acomodado adequadamente em nossas moradas. O deus avisou que ficaria por ali até que estivesse completamente curado. Assim, as pessoas o visitavam, pediam-lhe conselhos e orientação, pois demonstrara grande sabedoria quando falava. Mas certo dia, assim que se iniciara a primavera, abandonou a região, havia partido em segredo…

— Fascinante, prossiga. — lhe pediu o desconhecido de cabelos negros. Seus olhos faiscavam tamanho seu interesse naquele assunto.

— Compartilhou um pouco do seu saber com a nossa comunidade, isso em retribuição aos favores que lhe foram concedidos. Mesmo com sua partida, os homens passaram a prestar-lhe homenagens. Homens da aldeia passaram a portar espadas às costas do mesmo modo que o guerreiro forasteiro, mas foi um costume que acabou abolido com a chegada dos Católicos.

— Muito bem, — disse o rapaz enquanto se erguia, e guardava o ídolo. — por enquanto estou satisfeito.

E voltou para o seu perigoso camarada de cabelos dourados. E esclareceu:

— Posso me aprofundar neste assunto por fontes mais confiáveis. No momento temos assuntos mais urgentes a tratar, — e apontou uma das diversas passagens disponíveis — Preciso que veja algo. Não levará muito tempo, e o quanto antes partirmos melhor será.

— Que seja, mas antes desejo dar cabo deste desgraçado. — expôs seu pensamento e disposição para agir. Apontava o taverneiro que chacoalhava aterrorizado sob a espessa coberta.

— Poderemos decidir isso mais adiante, afinal, não foi essa razão que viemos de tão longe. — asseverou o homem trajando negro — Então, siga-me, Jean, peço.

Os dois partiram, enveredando por um dos diversos túneis disponíveis, desaparecendo na escuridão. Bernt foi deixado desamarrado e de posse da lanterna, estranhamente o em questão objeto era necessário àqueles homens. E quando não pôde mais captar o passo dos seus captores, Bernt foi tomado pelo ímpeto de fugir, havia surgido nele vigor e dureza inédita. Ergueu-se, se desvencilhando do espesso tecido da cortina e apanhou a lanterna. Antes de partir, talvez um gesto de ousadia, iluminou os arredores, e se deparou com ao menos três trajetos possíveis: um pelo qual seguiram os seus captores; outro, imediatamente ao lado da primeira passagem; e uma terceira via, sendo esta mesma que o taverneiro havia decidido seguir, além de ser uma direção oposta a dos malfeitores, teve rápida impressão de que naquele túnel havia uma discreta luminosidade.

Sua fanfarronice lhe permitiu sorrir diante daquela incerteza, não saberia dizer se chegaria com vida ao vilarejo, pois o clima exterior à caverna era severo, tratava-se do pleno inverno. Para o momento, a oportunidade de fuga era motivo de comemoração, afinal seu deus não o havia abandonado.

Avançou aos tropeços, tremendo de frio, mas continuava sorridente, e foi ao ultrapassar uma região em que a caverna desenhava uma curva, Bernt acabou avistando a saída, divisou a tênue luminosidade noturna, a floresta coberta de neve a somente uma dezena de passos dele. Renovado seu ânimo, continuou seu trajeto, no entanto, a pequena distância parecia não diminuir. Persistiu desviando-se das pedras afiadas e das muitas irregularidades do terreno.

Por fim a angustia acabou tomando o lugar da esperança.

Quanto mais caminhava, menos saia do lugar. Estendeu seus braços, forçava-se para diante, contudo, Bernt pouco avançava. Mas então se agarrou as paredes rochosas, galgando passo após passo, tendo suas mãos cravadas na superfície sulcada. Parecia um idoso que tateando pelas paredes, incapaz de seguir confiando nas próprias forças. Logo, surgiu uma onda invisível, força que o arrastou de volta ao ponto partida, junto à parede, diante da chama tremulante da lanterna deixada no chão pelos seus captores.

Tencionava levantar-se outra vez. Contudo, algo ainda mais inesperado aconteceu: uma criatura se juntaria a Bernt naquela terrível situação.

De um dos túneis, surgia uma silhueta simiesca. Sua estatura não era muito maior que a de um homem médio, no entanto, dispunha de silhueta corporal avantajada, e o seu modo de andar era desengonçado, embora seus passos fossem inaudíveis. Enquanto gingava na direção de Bernt, a besta abanava as mãos penduradas ao lado das coxas, seu caminhar sinistro o fazia balançar de um lado a outro, como alguém que tivesse uma das pernas curta.

O infeliz taverneiro parecia incapaz de agir, seja pelo medo ou por algum outro efeito sem explicação convincente. Fato era que o horror havia tropeçado até chegar ao ponto de por suas patas sobre ele.

Bernt fora apanhado pelos ombros, a abominação montou sobre ele, mesmo voltando a si, o peso e a força da criatura acabaram por impedir qualquer reação por parte do pobre homem. Acabou forçado contra o solo frio e pedregoso, e a besta no mais completo silêncio, o encarava com seu par de olhos amarelados próprios de uma criação do inferno. Nem sequer sua respiração era ouvida. Bernt começou a se debater, mas era tarde demais. Começou a berrar por socorro, passou a beliscar e tentava morder aquela criatura, mas parecia que nada surtia efeito. E o demônio apenas continuou a encará-lo com sua face completamente negra, inexpressiva, enquanto mantinha as mãos enormes e ásperas de toque congelado sobre o taverneiro.


Capítulo IV

            Regressando ao local onde haviam deixado seu prisioneiro, os desconhecidos encontraram Bernt deitado de olhos abertos e saltados, sua boca estava escancarada, e seus traços deformados pela agonia de uma morte lenta. Constataram que não tentara se desvencilhar da cortina, e a lanterna jazia no menos lugar onde havia deixado.

— O que aconteceu aqui? — indagou o homem de cabelos pretos, parecendo surpreso.
— Ora, o maldito acabou morrendo congelado, era de se esperar. — concluiu o loiro alto. Ainda: — Melhor seria se o tivéssemos degolado… — lamentou.

— Talvez. — concordou o cavaleiro de cabelos pretos, lançando um olhar desconfiado para os arredores, especialmente para o corpo.

Enquanto se encaminhavam para fora da caverna, o cavaleiro de negro, agindo de forma que seu companheiro não notasse, apanhou o maldito ídolo, enquanto o encarava tinha a certeza de que durante a sua ausência ocorrera algo obscuro, lamentava não o ter testemunhado.

Para o loiro, aquele que atendia por Jean, tudo estava tão claro quanto à água: que a vida daquele desgraçado fora desperdiçada, e que ele continuaria faminto.

Fim.

Assinatura_Crônicas - Ricargo Old Folk-09

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