Faruk Nassir

Antes de tudo, Faruk é a reencarnação de Allegra, filha que Guido – a vida passada de Sabine – perdeu de maneira brutal. Ele hoje tem 31 anos e sua esposa Aya tem 29, enquanto sua filha Layal está prestes a fazer 5 anos.


Filho de Mohammed e Ranim Nassir, Faruk nasceu em 03 de janeiro de 1985 no seio de uma família tão pobre que ele e seus pais dividiam um apartamento que de tão minúsculo os forçava a dormir em um só beliche de três camas, posto que tinha apenas um quarto no qual nem cabia uma cama de casal. Ranim, a mãe de Faruk, era empregada em um casarão no qual Faruk brincava com o filho dos donos (Omar), que quebrava as regras brincando com o filho da empregada e passeando com ele pela cidade.

Neste sentido, Faruk, Omar, e vários outros meninos que eles conheciam em Aleppo viviam explorando as ruas, entrando em locais abandonados nos quais fantasiavam ser exploradores, donos de grandes propriedades e afins. Eles também jogavam muito videogame, de modo que certo dia Faruk inclusive perdeu a noção do tempo jogando na casa dos patrões da mãe, deixando Ranim extremamente preocupada – a ponto de ligar para a polícia, de modo que ela apenas achou o rapaz quando foi trabalhar no dia seguinte, já que não podia nem sonhar em faltar o emprego com a desculpa de ter perdido o filho. Faruk, claro, levou uma surra, mas não perdeu o seu senso de exploração. Em verdade, mesmo no prédio onde morava, Faruk mantinha o seu grande senso de aventura, subindo para um apartamento no último andar de seu prédio, onde chegou a levar uma ou duas moças que foram suas namoradinhas na juventude.

Em termos de fé, foi o pai de Faruk que o introduziu à vida religiosa, e o rapaz se tornou um muçulmano fiel. Aos poucos, devido à sua ambição, ele foi também se tornando mais estudioso, devorando os livros que Omar lhe dava ou que ele conseguia por aí – mesmo, às vezes, no lixo. Foi assim, inclusive, que Faruk ensinou inglês a si mesmo.

Aos 18 anos, em 2003, Faruk conseguiu ingressar com muita dificuldade no curso de Medicina da Universidade de Aleppo. O período de universidade do rapaz foi difícil, e enquanto a maioria dos alunos tinha acesso a bens materiais, o jovem Faruk mal tinha o que comer, o que o tornou isolado entre os seus colegas. Apesar disso, ele persistiu, e conseguiu se destacar entre os pares. Assim, ao terminar o curso no início de 2009 e ingressar em uma residência, o rapaz começou a poder ter uma vida melhor – e consequentemente a dar uma vida melhor aos seus pais.

Foi no início do período de residência que Faruk conheceu Aya, uma estudante de biologia oriunda de Damasco que viria a se tornar sua esposa e fazia pesquisa em um laboratório ali perto. Eles se entreolhavam quando se cruzavam na universidade, e certa feita ela sujou o avental do rapaz, o que a levou a insistir para lavá-lo. Isso levou a mais conversas entre os dois, um convite do rapaz para que jantassem e enfim um pedido de namoro. O casamento veio um pouco mais de um ano depois, em setembro 2010, quando Aya se descobriu grávida aos 23 anos, enquanto Faruk tinha 25. Ela o contou sobre a grvidez em um piquenique, no qual Faruk finalmente soube que era sua namorada que cozinhava os pratos que levava nos piqueniques do casal, e não sua mãe, como pensava Faruk – cuja mãe Ranim de fato era quem cozinhava o que ele levava.

Rapaz direito, Faruk logo se casou com a moça, e a filha Layal nasceu em junho de 2011. Em maio de 2012, a filha ia completar um ano quando Faruk retornou à universidade aos 27 anos para um mestrado e uma segunda residência em pediatria, nos quais entrou com excelência, passando em primeiro lugar. Foi na residência que ele conheceu Aisha, uma criança com câncer que mexeu muito com ele e lhe lembrava sua filha. Por alguma razão, Faruk acabou se apegando muito a Aisha, que morreu no único dia em que ficou longe dela, o que faz ele temer cada novo dia que passa longe da filha Layal. Já no mestrado, Faruk conheceu seu colega Amir, um rapaz gay muito mais aberto em relação à sua sexualidade do que Faruk, e por isso bastante rejeitado entre os colegas. Faruk se aproximou de Amir inicialmente por interesse. Os dois faziam parte do mesmo grupo de pesquisa, e Amir era o mais competente de todos, fazendo os experimentos mais completos e repercutindo mais do que todos eles nos congressos internacionais. De início, Amir foi muito reticente em ajudar Faruk, mas eventualmente eles se tornaram amigos.

O tempo passou e, em um dado dia domingo no qual só os dois se encontravam no laboratório, Amir beijou Faruk, que reagiu com um murro. Isso levou a uma distância entre os dois, mas certo dia Faruk viu Amir sendo insultado no laboratório, e fez com que seus algozes parassem, o que levou a uma leve reaproximação. Amir um dia foi abordar o assunto com Faruk, especificamente para lhe pedir desculpas pelo beijo, mas foi surpreendido com Faruk lhe beijando. A partir daí, então, nasceu um amor de laboratório. Em fevereiro de 2014, Faruk terminou o mestrado aos 29, mas não entrou direto no doutorado. Amir, ao contrário, entrou no doutorado ali – o que fez para ficar perto de Faruk, ainda que com suas credenciais pudesse ter ido a qualquer universidade do mundo.

Em 2015, o Estado Islâmico chegou na cidade, primeiro através de simpatizantes. Amir estava no segundo ano de doutorado, enquanto Faruk não seguiu na vida acadêmica, mas sim montou um consultório, trabalhando na cidade, podendo atender agora não só em plantões. Ainda assim, ele vivia indo à universidade para encontrar o homem que amava nos laboratórios, até que certa feita, chegando ali, viu os simpatizantes do EI jogando LGBTs do teto dos prédios do campus, entre os quais Amir. Não fosse por Sayid, um amigo de Amir que sabia dos dois, Faruk teria corrido até o corpo, mas Sayid o impediu de fazer aquilo que poderia ter selado seu destino.

Chegando em casa, Faruk notou que a esposa e a filha não estavam ali. Elas haviam saído de Aleppo para Damasco cedo aquela manhã, indo buscar algumas caixas de coisas dela que haviam ficado lá com a vinda do bebê, e que já cabiam na casa dos dois agora que eles haviam se mudado para um apartamento com dois quartos. Chegando ali, notou que não haviam voltado, e então tentou sair da cidade, mas viu que os rebeldes estavam matando as pessoas nas estradas.

Aquela noite a Rússia bombardeou a universidade. Aos poucos, os lugares ao seu redor foram sendo ocupados pelos rebeldes e destruídos por bombardeios. Assim, Faruk começou a vagar pela cidade, se juntando a grupos de sobreviventes que conseguiam água e comida devido a contatos com a resistência. Foi por meio de um destes contatos que Faruk ouviu que a esposa e filha estavam na Alemanha, para onde fez de tudo para ir, passando pelo pão que o diabo amassou até chegar.

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