Loran – o bardo

Esse com certeza foi um dos backgrounds que mais me deu trabalho para fazer, mas me dediquei ao máximo a ele porque a classe dos bardos geralmente é negligenciada e até mesmo subestimada. Quando me propus a criar esse personagem, queria que ele tivesse um passado meio incerto e que as pessoas só conhecessem dele aquilo que ele quisesse contar. Acredito que esse ar de mistério combina com os bardos, uma vez que geralmente eles são os responsáveis por manter viva as memórias de outros, mas quem mantém viva a memória dos bardos? A resposta sensata seria eles mesmos.

Entretanto, o que nos garante que um bardo diz sempre a verdade? Será que eles não contam a história que querem? Será que eles não omitem detalhes ou até grandes partes dos fatos que realmente aconteceram para favorecer o lado que querem? Bem, talvez nunca saberemos isso ao certo.

Abaixo temos a narrativa de como Loran se tornou um bardo, mas como ela foi contada por ele mesmo, não sabemos o que pode ou não ser verdade ou o que ele possa ter omitido. Loran narra trechos de sua estória em versos de trova, e quando ele junta várias trovas, cria suas próprias canções. A título de curiosidade, a trova é uma composição poética de quatro versos de sete silabas cada um, rimando pelo menos o segundo com o quarto verso.

Espero que aprecie a narrativa do bardo. As melodias que acompanham duas das composições de Loran são de minha própria autoria (para ouví-las, basta clicar no título das músicas), caso estejam interessados, as partituras estão disponíveis para download. Me despeço aqui isentando-me de qualquer responsabilidade sobre a veracidade dos fatos apresentados a seguir.


As pessoas acreditam que as melhores estórias nascem no choque entre espadas em um campo esterilizado pelo sangue, ou quando um punhal dilacera uma garganta na surdina de uma noite fria em um beco sem iluminação, e talvez estejam certos. A que eu vou contar, entretanto, trata-se do meu nascimento e brotou do fundo de uma caneca vazia em uma das tavernas mais remotas do reino.

Eu andava pela taverna de paredes de pedra nua mal iluminada por velas e tochas quando, servindo cerveja, pão velho e queijo fresco, quando o viajante chegou. Ele logo tratou de fazer seus dedos deslizarem pelo bancriançadolim, soando uma canção suave que aquecia mais do que o próprio fogo e parecia deixar o ambiente mais claro e aconchegante.

Garoto curioso como era, fiquei admirado pela habilidade do homem que tocava seu instrumento de olhos fechados. Por mais que eu quisesse fazer outra coisa, não era capaz de mover um passo sequer, sentia-me estranhamente atraído pela melodia. O viajante abriu os olhos e sorriu ao me ver, seus dedos pararam de se mover e a melodia findou-se no mesmo instante. Tomado pelo impulso, me aproximei e a caneca de cerveja que lhe ofereci foi aceita de prontidão.

— Gosta de música? — Perguntou o viajante quando sua caneca se esvaziou.

Assenti timidamente. O homem pegou o instrumento que repousava sobre a mesa e o estendeu na minha direção.

— Por que não tenta tocá-lo?

A proposta me surpreendeu. Eu nunca havia colocado as mãos em um instrumento musical, mas aceitei a oferta e peguei o instrumento. Deslizei meus dedos corda a corda lentamente sem atrever-me a deixa-las produzir som. Senti as curvas da madeira do bandolim e percebi que meu coração batia acelerado. Desajeitadamente tencionei uma corda e quando a soltei, um som grave ecoou pela taverna.

Quando o bandolim peguei

Meu coração o ritmou

Como pura magia

Um acorde Sol soou

 

O sorriso do bardo

Era o confirmado

Seu novo aprendiz

Havia encontrado

O dono do bandolim era Gaste, um bardo andarilho. Ele me encontrou na taverna aquele dia e me tomou como seu aprendiz. Viajamos juntos por incontáveis terras e servimos a diversos senhores em castelos, tavernas e expedições e para cada uma delas, fizemos uma canção.

Enquanto o tempo passava, aprendi tudo que meu mestre propôs a me ensinar. Desde o bandolim, a flauta e a harpa até a manusear espadas leves e adagas afiadas.

Da arte de narrar ao

Ato de cortejar

Tudo ele ensinou

Nada deixou passar

A vida, entretanto, é tão efêmera quanto uma canção e quando logo percebemos, ela se esvai. Embora possamos parecer atemporais, os bardos estão sujeitos às mesmas condições que qualquer mortal. O dia de Gaste chegou semanas após o inverno ter começado e os campos terem sido tingidos com o branco da neve.

crescido

Enquanto eu crescia

meu talento floria

Gaste envelhecia

Último pedido fazia

 

“Quando eu partir peço

que não me deixe cair

no esquecimento da

Terra que me subtrair”

Quando ele foi enterrado, decidi que minha promessa deveria ser cumprida e uma canção sobre o bardo andarilho das terras altas eu compus. Nos salões por onde passei, tratei de cantar ao som da harpa uma melodia suave que fosse digna do mestre que me ensinou.

Partitura para piano disponível aqui.

Gaste, o bardo

Do alto da montanha

A flauta doce uma

canção triste chora a

quem à norte ruma

 

Buscando aventura

o jovem Gaste vai

caminhando para a

noite que pouco esvai

 

Sua música capaz

de animar os grandes

exércitos para a

Vitória dos Andes

 

Conselheiro de quem

Era sábio buscar

O que meu mestre a

Gosto tinha a ensinar

 

De reis a plebeus

Ele igualmente

Serviu com gratidão

Sempre cordialmente

 

Agora sua canção

Findou para todo

Sempre, pois glória

Restou ao Rapsodo

 

Quando foi para o

deus Olidammara

solfejar ao seu

lado, lugar que ansiara

Quase esqueço de me apresentar, meu nome é Loran e antes de Gaste me encontrar, eu não era ninguém. Meu mestre foi famoso e eu bebi do mesmo cálice que ele se serviu. A fama, entretanto, é como mulher sedenta e vingativa. Se não damos o que ela deseja, logo nos abandona e somos esquecidos.

Com ela uma noite eu

Me deitei, desejoso

De sua fonte beber o

Doce suco fogoso

 

A cama quente logo

Esfria quando tonto

Homem levanta corpo

Nu, tal qual afronto

 

Oh fama, mulher cuja

Alma que todos buscam

Seus ansiosos dotes

Aos pobres ofuscam

Viver sem meu mestre foi difícil no começo, mas com o tempo me acostumei com sua ausência física e tratei de seguir meu próprio caminho, criar minhas próprias obras e viver minhas próprias experiências. As trilhas que percorri me levaram a vários amigos e a alguns inimigos.

Da taça com cuidado

Eu sempre beberei

Não posso morrer agora

Estórias cantarei

O trabalho de um bardo vai muito além da música. Nós somos responsáveis por guardar as memórias do mundo, daqueles que já partiram ou daqueles que são lendas vivas. É um nobre ofício que poucos têm coragem de seguir. Entretanto, vivemos mais vidas do que a maioria dos homens. Hoje eu caminho sozinho buscando a próxima aventura que irei narrar, afinal, só permanecemos vivos enquanto somos lembrados.

Espírito de Loran

Ingrato tempo cuja

Essência dos vivos

Trama retirar para

Ceifar-nos, os altivos

 

Imploro-te através

Desta simples canção

Permita que vivamos

ao menos na recordação

Partituras disponíveis aqui.

Assinatura_Crônicas - Vitor

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1 comentário Adicione o seu

  1. Henrique Derlac disse:

    Os bardos tem o dom de fascinar. Contadores de história, abençoados pelas musas da arte, são excelentes companhias e ricos personagens.

    Curtir

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