Arquétipos: os elementos base da ficção

“Guerras e questões políticas do nosso mundo misturam-se com elfos e dragões da ficção, formando uma nova história na panela de imaginação do escritor.”

Vocês já escreveram algo que acreditavam ser único e depois encontraram algo muito parecido? Ou tentaram entender como as mitologias de regiões distantes possuem muitos pontos em comum? Isso acontece, segundo o psicanalista Carl Gustav Jung, porque todos nós compartilhamos ideias comuns que, ao criar alguma forma de arte, damos uma forma “visível”, modelada a partir das nossas experiências pessoais.

Isso é o que chamamos de “Arquétipos”. Imagens padrões da mente humana que compõem o que Jung denominou de “Inconsciente Coletivo”, uma base psíquica comum aos seres humanos, passada de geração a geração por herança desde tempos imemoriais.

A psiquiatra brasileira Nise da Silveira compara a composição da psique humana como um vasto oceano (inconsciente) de onde emergem pequenas ilhas (conscientes). Esse oceano é comum a todas as pessoas e é onde os autores “pescam” suas histórias e personagens.

Os contadores de história, roteiristas, escritores… que produzem narrativas de sucesso conseguindo organizar as imagens arquetípicas no consciente e transportá-las para um meio “material” através de histórias, são os pescadores que conseguem pegar os peixes e sabem como prepará-los para alimentar o público.

Para Tolkien, o inconsciente é como uma sopa, na qual, ao longo dos anos, são acrescentados novos ingredientes (temas), reais ou imaginários, dando novos temperos, aromas e sabores. Os ingredientes podem ser os mesmos, mas as combinações e a apresentação é o que torna algo especial. Guerras e questões políticas do nosso mundo misturam-se com elfos e dragões da ficção, formando uma nova história na panela de imaginação do escritor.

Até mesmo o aspecto líquido (oceano e sopa) para se referir ao inconsciente é um arquétipo. A água, muitas vezes, representa a mente. Assim sendo, a travessia ou mergulho em rios, mares, poços… representam um conflito ou mudança de pensamento e o afogamento é um símbolo da consequência de manter-se preso a ideias rígidas e nocivas.

LEGION_OPEN YOUR MIND

Os arquétipos também podem ser entendidos como verdades simbólicas. A Jornada do Herói, por exemplo, é um padrão que resume e reflete os caminhos e desafios que encontramos na vida real. Por isso, ocorre nossa identificação com a ficção. O treino para derrotar o monstro e conquistar o tesouro, é o nosso esforço para vencer no esporte, nos estudos, no trabalho… e receber a devida recompensa.

Dentro da Jornada do Herói, encontramos outros arquétipos que reconhecemos como reflexo da realidade. O Mentor é quem nos ajuda, transmitindo conhecimento e fornecendo o recurso necessário para superar os obstáculos. O Vilão é tudo aquilo que tenta nos impedir de conquistar nossos objetivos. Nos dois casos, assim como em todos os outros arquétipos, não são, necessariamente, pessoas, mas qualquer circunstância que apresente determinados conceitos.

No RPG, as classes e raças dos personagens descrevem as características mais comuns daqueles arquétipos. Os jogadores e o mestre, assim como escritores e outros contadores de histórias, usam essas referências para desenvolver seres únicos e originais.

No entanto, há os casos nos quais o que deveria ser apenas a base da construção é usado como produto final. Esses são os estereótipos. “Tipos estéreis” de criatividade, criados em uma espécie de modelo fixo como peças em uma linha de produção automatizada. E, ainda é comum, encontrarmos quem acredita ter inventado a roda. A criação de algo genial e revolucionário, mas que já foi inventado e que já sabemos como funciona.

Nas palavras do consultor de roteiro Christopher Vogler:

“A utilização proposital e desastrada deste modelo pode gerar algo entediante e previsível. Porém, se os escritores absorverem suas ideias e recriarem-nas com novos insights e combinações surpreendentes, poderão inventar novas formas e esquemas originais a partir de elementos antigos e imutáveis.”.

O problema, então, não é usar clichês, mas não saber como renová-los. Como eu disse antes, os ingredientes para as histórias podem ser os mesmos, porém é o modo de preparo e apresentação que diferencia o que é servido.

Para terminar, vale lembrar que essas representações do inconsciente variam ao redor do mundo, pois são o acúmulo de experiências sócio-culturais de determinado povo. As cores, por exemplo, têm significados distintos de acordo com a região.

Também, devemos levar em consideração que cada pessoa tem suas experiências de vida particulares e valores morais diferentes dos nossos. Nesse caso, mesmo vivendo, geograficamente, próximos, é a distância de pensamento que realmente nos afasta uns dos outros. Conceitos de certo e errado, para algumas situações, são opostos, por isso, é comum que um elemento da história que deveria representar algo positivo, na concepção do autor, pode ser interpretado como negativo por alguém que faz outro tipo de associação.

Assinatura_Crônicas - Henrique Duarte-10

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