O Ídolo de Barro – Parte 01

Capítulo I

Foi no tempo de sua juventude que recebeu o segredo dos mais antigos, conhecendo o Santo, aquele que a igreja acreditava ter lançado nas chamas do esquecido, como tantas vezes antes. Os sacerdotes desse Deus haviam tomado às terras dos seus avós, condenando os seus costumes, e lhes impondo outros em seu lugar. Não se tratava de desejarem mudar suas crenças e hábitos, mas se não o fizessem acabariam tratados ao fio da espada pelos recém-chegados, o que não seria novidade alguma para o seu povo, afinal, também assim procederam com seus compatriotas também crentes de outros Santos. E assim o Deus Verdadeiro prevaleceu sobre a falsa divindade do local. Estavam cientes de que passariam pelo batismo nas águas, que teriam de frequentar seu templo, cultuar seus símbolos, e principalmente, crer naquele que foi levado aos céus de corpo e alma. Muitos não duvidavam dessa nova doutrina, afinal possuía belas estórias, contudo, seus dizeres apenas se assomavam aos preceitos que conheciam desde bem antes da chegada dos cavaleiros aos seus domínios carregando cruzes e espadas.

9812259416ee3685bc67cac6318bbd3c

Nosso homem era chamado de Bernt, o taverneiro. Ele guardava os velhos costumes em segredo. Cultuava o Santo Negro por detrás das cortinas do seu estabelecimento nas horas mortas. Ninguém sabia deste fato, exceto sua esposa, Ilsa. E esta era a causa da sua prosperidade ao mesmo tempo em que era o motivo da sua infelicidade. Ela herdara o comércio que ele gerenciava e tratava como sua propriedade, mas foi para isso que lhe serviu o casamento, pois nada possuía além da disposição para o trabalho e a sagacidade para escolher quem desposaria.

Ilsa era uma mulher de temperamento forte, e que nunca se mantinha em silêncio. Para tudo tinha uma opinião, ou uma reclamação. Não bastava a ela que Bernt passasse seus dias atrás de um balcão lidando com a ralé, mas também, que suportasse suas intermináveis queixas. Mesmo limpando, cozinhando, cuidando dos três filhos, da horta aos fundos da casa e dos animais, ainda lhe restavam energias para encher os ouvidos do tão cansado marido, Bernt. A situação o consumia de tal forma que, por diversas vezes, preferiu dormir sobre as mesas da taverna a encarar sua companheira tagarela.

Muitas vezes, em meio às trevas, no interior do estabelecimento a portas fechadas, ele, Bernt, cultuava o Deus Secreto, embora não mais se recordasse do seu nome, pois a muito as pessoas estavam proibidas de invocá-lo em público sob o risco de serem condenadas à fogueira.

O pobre homem se lamentava, pois não compreendia o porquê de tanta insatisfação, pois nada estava de acordo com o que ele almejava, muito menos, adequado ao que julgava ser merecedor, tanto que se queixava para uma estátua sobre um banco de madeira, um altar improvisado. Ao seu redor, no piso de pedra, havia velas acesas espalhadas pelos arredores.

O ídolo em questão era uma blasfêmia aos olhos de um católico: uma manufatura grosseira, bípede, encapuzada; com cabeça de uma gárgula e os pés bovinos; tinha uma defeituosa espada em uma bainha às costas ao modo dos guerreiros do seu povo, muito embora que estes não mais existissem. A figura de barro permanecia inalterada diante aos clamores de Bernt, tão indiferente quanto aos seus similares no interior das igrejas.
E no fim do cerimonial, aspergia o ídolo com o sangue recolhido dos animais que havia matado a fim de completar as poucas refeições que conseguia vender no decorrer do dia. Além dessas ocasiões, o herege sabia que havia períodos cíclicos onde devia executar o ritual em horário e com sacrifício específico para tal acontecimento.

Era essa sua rotina em um culto de um só sacerdote.

Foi em um lastimável dia frio que Bernt regressou um pouco mais cedo para sua morada, pois o fraco movimento em seu estabelecimento assim o obrigou. Atravessara a porta, e mal se assentara a mesa junto dos seus filhos, quando sua mulher começou a relatar os acontecimentos do dia. Para a sorte de Ilsa, Bernt não era um homem violento, na realidade, um acovardado, dominado facilmente por qualquer um com esse propósito. Era comum que se desse ao trabalho de aguardar que aquele que o confrontasse lhe desse às costas, apenas para ousar atacar seu oponente por meio de resmungos e maldizeres, sem riscos a sua integridade física. Então, que naquele dia, responderá em tom mais agressivo que de costume à sua falante esposa. Imediatamente, voz do marido silenciara Ilsa, causara o efeito desejado, mas não por muito tempo…

A mulher levantou-se com um sorriso enigmático, logo disparou um impropério contra o irritado marido.

E assim se iniciou uma acalorada discussão, que rumou para trocas de acusações de ambos os lados. No fim Ilsa saiu vencedora, pois ameaçara entregar Bernt à Inquisição junto com sua maldita estatueta. Assim o herege calou, como se tivesse recebido uma bofetada certeira no rosto, estava à mercê da maldosa companheira.

Bernt remoeu o acontecimento por meses a fio. Mas então chegava ao fim o outono.

E foi em uma noite congelante de lua cheia, quando Bernt acabava de imolar um cabrito; o seu pouco zelo na função de sacerdote acabara manchando a estatueta com um jato de sangue ainda quente, mas que logo ele direcionou para uma tigela de pedra. Ainda amargava a situação com sua esposa, por isso, clamou do fundo do seu coração pela sua morte, ainda, afirmava estar disposto a pagar qualquer preço.

1499108945_casa

Finalizada a cerimônia, e enquanto juntava o refugo do seu odioso ritual, um som o fez arrepiar-se tamanho o seu assombro, pois chegara aos ouvidos um ruído dos arredores do ídolo. Uma força invisível sorvia com voracidade o sangue que ele havia deixado derramar sobre o piso. Então, ligeiro, apanhou uma vela, mas o pavor o obrigou a caminhar a passos lentos na direção barulho. Quando a chama da vela banhou a figura demoníaca, Bernt testemunhou um acontecimento antinatural: o ídolo tragava o sangue do sacrifício, uma força invisível conduzia o líquido para junto dos seus grossos cascos, e nestes desaparecia. O camponês abafou um grito de horror, e recuou ligeiro para o canto oposto do salão vazio. Em seguida, quando subitamente o cessara, Bernt ficou imóvel, aguardando que algo mais acontecesse, mas predominou apenas o silêncio. E tomado pelo medo, incerto de como proceder, não poderia abrir a janela, muito menos pedir ajuda a qualquer um dos seus vizinhos.

Então engoliu sua covardia, buscando em seu íntimo as migalhas de uma coragem desconhecida — era isso, ou quem sabe, falta de melhor alternativa — retornando a presença da imagem macabra. Acabou se deparando com a tigela vazia, e, também, o piso sem qualquer sinal de sangue. Portanto, recolheu seu inestimável deus de barro, deixando-o em um esconderijo sob o assoalho.

Depois do ocorrido, não mais ousou procurá-lo.

Dias depois, a inquietação provocada pela poderosa experiência se dissipou do coração de Bernt.


Aguarde o próximo capítulo!

Assinatura_Crônicas - Ricargo Old Folk-09

2 comentários Adicione o seu

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s