Aleksander Jorgensen

ATENÇÃO: Antes de prosseguir com a leitura, gostaríamos de avisar que o texto a seguir contem passagens sobre suicídio, então se você é uma pessoa sensível ou esteja passando por um momento difícil, sugerimos que leia outro conto ou que prossiga com cuidado.


O prelúdio de Aleksander foi adaptado por mim em atos de um monólogo que apresentei durante o jogo. Ele é um personagem construído com a premissa dos homens de razão que perdem sua sanidade diante do sublime. Esse monólogo apresenta o tempo em que, Aleksander Jorgensen, um antropólogo neerlandês experimenta várias perturbações mentais induzidas pela sua mentora Fatima. Ela acreditava prepará-lo para algo grandioso, mas foi punida pelos crimes que cometeu pelo conselho das nove tradições místicas.

Epítome do estoicismo nórdico, Aleksander é um antropólogo holandês atormentado pelo fantasma de uma relação abusiva com sua mentora, a despeito da leveza e carisma que consegue às vezes ter quando perto daqueles que lhe são caros. Hermético demais para alguém que é de fato um Cultista, o jovem acadêmico, outrora um paradigma de equilíbrio e sobriedade, vem se tornando cada vez mais paranoico e soturno desde o desaparecimento do seu marido, um renomado psicanalista da Casa Bonisagus especialista em patologias místikas. Mais lovecraftiana do que ele gostaria, a trajetória de Aleksander é o conhecido conto da destruição do homem de razão face aos horrores do mundo. – Texto de João Araújo


Acompanhe o início dessa história na HQ abaixo.

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Interlúdio – Os dias insanos de uma lebre em sua toca. 
Obsessão
Eu sou a lebre branca, minhas orelhas são rosadas, meu pelo é branco como a neve e meus olhos são de um azul profundo. Sou a única habitante do bosque. Recentemente um homem atravessou a fronteira e entrou no bosque ainda virgem. Quando o vi, achei que era amigo, mas ele tinha uma arma. Há um caçador por aqui, é perigoso, mas eu deveria me esconder dele. Parece faminto, vai me comer, de certo. Mas é tão bonito
 
(Aleksander está falando sozinho vendo um album de fotos dele e da mãe que cobre todo o tempo que eles moravam juntos, ele está há dias escrevendo diários, digitalizando fotos, tentando desenhá-las numa tentativa desesperada de perpetuá-las)
Minha relação com minha mãe foi.. não tenho adjetivos para nomeá-la, seria um sacrilégio, uma profanação de sua posição sagrada e a um só tempo uma sacralização de sua posição profana. Ela, antes de qualquer coisa, é a criatura que eu mais amo em toda a minha vida. Não sei o que faria se ela morresse. Provavelmente iria junto, começaria uma jornada pelas 9 camadas do inferno em busca de sua alma. Sem virgílio, sem ninguém para dividir a glória de ver seu rosto e tocar sua pele novamente. Sentir seu cheiro. Deitar-me com ela. Retornar para aquele mar de sangue confortável que era seu ventre, retornar para a escuridão da qual jamais deveria ter saido.
Mãezinha me contava, e eu nunca me cansava de ouvir o quanto ela era diferente de todos ao redor dela, o quanto ela deveria ser especial. Mãezinha era Hippie numa época em que todos se comprimiam naquelas roupas desconfortáveis. Ela, em toda a sua originalidade dionisíaca, ousava desafiar tudo e todos usando uma mini-saia.
Capitão América?
Não!
Era minha mãe, minha heroína! – digo acariciando uma foto dela como se pudesse sentir seus cabelos.
Ela nasceu na Dinamarca, numa família tão conservadora, mas tão conservadora que não ousaria nem dizer que eles constituíam um microcosmo desse mundo. Eles eram a epítome do que havia de mais absurdo nos costumes daquela época. Por causa desses mesmos costumes conservadores que demandam potência máxima dos homens o amado irmão dela morreu. Meu tio morreu na ocasião de uma caçada que fazia nos campos com meu avô. Novamente, a epítome do conservadorismo, que matou o amado irmão da minha maezinha. Óbvio que estou cometendo o maior erro da minha área, olhar para a época da minha mãe com os meus olhos de hoje, mas o que importa?! Se minha genitora tão amada já vivia nos tempos dela com o pé direito já num tempo até mesmo à frente do meu!
Ousada.
Deitou-se com quantos homens poderia ter deitado, sem que lhe causasse nenhuma vergonha. E, tendo uma erudição adquirida dos dias a praticar piano e ler filosofia com tutores danddys ela nunca se punha superior a ninguém. Mãezinha é o meu exemplo de vida. E por falar em vida… abortou tantos e tantos meninos. Todavia, comigo foi bem diferente! Ela percebeu que eu deveria nascer. E devemos dar o direito primordial às mulheres de permitir que vivamos ou não! Sou imensamente grato por ter recebido dela não só essa dádiva, mas também a dádiva de ser um filho esperado, amado. E eu agradeço a ela, e somente a ela, por ter evitado esse destino. Fui criado com tanto amor, com tanta liberdade em Amsterdã rodeado pela água elemento do meu signo zodíaco câncer numa casa-barco. As crianças da minha época não entendiam a minha própria existência. Porque, embora não tivesse a maldita iluminação que agora é meu suplício, ela era iluminada à maneira das antigas deusas que nada temem os efeitos nocivos desta arte que eu pratico. Minha mãe é uma deusa. Vênus. Única. Nenhuma outra mulher jamais conseguiria chegar aos pés dela. Ser um fragmento estelar do que ela foi para mim. Fátima me disse que sou importante, ela está enganada. Perdão! Helga é importante, ela trasborda os limites dessa clareza vociferante que é a nossa. Porque nela continha mais magika do que eu já senti em qualquer outro lugar. Eu lembro da minha casa, cheia de transeuntes. Viajantes, artistas e sábios de todo mundo! Como uma mulher comum poderia atrair tanta gente! Como uma mortal poderia ser reverenciada pela comida que faz, ou pelo jeito que recebe. Como uma mulher comum poderia ser a um só tempo feiticeira e cientista, louca e sã, sacra e profana, madalena e maria, pai e mãe, homem e mulher, alfa e omega, onipresente, onipotente, antítese e síntese de si mesma, porque, usava da educação rígida e conservadora para libertar! Para me libertar das amarras da cegueira. Sinto como se com a maternidade ela tivesse dado o despertar a mim, como se ela tivesse abdicado do privilégio de acordar para mim!
(Já com todos os cantos do dormitório coberto com vestígios de sua mãe Aleksander se ajoelha e grita, por ela estar longe, ele abaixa a cabeça, fecha os olhos, e a vê)
Depressão
Eu finalmente saí da toca! Por dias dentro dela, eu quase definhei e quando fui buscar comida me deparei com os olhos do caçador. Eram olhos de um safira lindíssimos, tão lindos que quase não percebi que ele apontava uma arma para mim. Meus reflexos são rápidos. O tiro foi ouvido e eu já estava novamente na escuridão da toca. Lá passei dias, ainda mais dias do que da ultima vez. Dias que não se terminavam. Ouvia os passos incansáveis do belo caçador atrás de mim. Dentro do buraco definhei, morreria alí, sozinha, de fome, de sede, do mundo, de tudo, de todos, de mim mesma. 
(Eu estou nú, no meu quarto entregue às moscas. Meu corpo está sujo não devo pertencer mais a esse mundo. Há uma forca pendurada diante de mim e um “banquinho” feito de livros, olhe que ironia deliciosa, deixarei essa vida dolorosa na cama dos sábios…)
Eu tinha por volta de 12 anos quando conheci o menino dos olhos mais verdes que a imensidão de toda a fauna desse mundo. Dum bosque me engoliria em agonia e extase que não saberia explicar. Edward era tão gracioso, como um cisne a se banhar num lago casualmente. Cada movimento que ele fazia era tão belo e espontâneo. Tão belo, tão sublime que parecia me devorar. Estar no mesmo lugar que ele era como estar frente a um redemoinho prestes a te engolir, era como o inframance entre ficar absorto com a beleza da rosa e não perceber que se feriu nela.
Foi assim quando o conheci pela primeira vez, ele tinha um livro de Demien, do Hesse no colo, e enquanto nossas mães conversavam animadamente sobre um assunto qualquer, eu me aproximei e disse:
“Exatamente como neste livro, o mundo lá fora é perigoso, eu me sinto tão mais seguro aqui dentro” – digo enrubescendo.
(Eu posso ver as penas brancas do cisne manchadas de sangue, gracioso até na iminencia da morte, seus esguichos de dor e desespero me cercam como uma multidão ensandecida. Como puritanos prontos a me queimar como o traidor que sou. Essa corda expurgará todos os meus pecados. A culpa me consome, mas não mais! Eu finalmente descansarei dessa dor.)
(Um dia passeava com Edward de mãos dadas e por causa de um estúpido atalho para ver tulipas na primavera fomos pegos pelos neonazis que não tiveram piedade de dois quase adolescentes, frágeis e felizes. Eu vi Edward, um cisne gracioso e branco, ter no contraste do vermelho que manchava suas sublimes penas a dor que eu carregaria para sempre)
O cisne gritava tanto, achei que ele morreria. E então a feiticeira surgiu. O mago Rothbart, mulher de face indiscernível e voz macia. Corria e estava lá ao mesmo tempo, em cólera e calma, surgiu para mim como algo a um so tempo confuso e esclarecedor. Medo. Ela se apresentava para mim como Sofia, isso mesmo o próprio conhecimento encarnado na figura de uma mulher negra a segurar minha forca.
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O cisne iria ficar bem dizia Rothbart. Acredita e desacreditava no mago traiçoeiro na mesma medida em que piscava os olhos ou respirava, mas não tinha alternativa a não ser segurar nas mãos do infame feiticeiro e deixar o pobre cisne à sorte dos caçadores.
Os dias que se seguiram ao nosso infortúnio foram terríveis. Edward sobreviveu, para meu alívio, contudo para meu infortúnio ele estava condenado a se locomover numa cadeira de rodas.
A capacidade de andar do pobre garoto, roubei dele suas pernas.
A capacidade de sentir as flores primaveris de Amsterdã sob seus pés, roubei dele suas pernas.
A capacidade de sentir a grama alta do verão roçar em seus tornozelos, roubei dele suas pernas.
A capacidade de sentir prazer com qualquer outro homem, roubei dele suas pernas
Roubei dele, seu ímpeto, sua masculinidade, sua altivez, seu falo, seu desejo, seu viver.
Oras, como podia um homem viver daquela maneira? E eu, responsável maior por isso já deveria estar morto ha muito tempo.
Deveria ter saído daquele hospital, escrito uma carta de suicídio que era um duplo pedido de desculpas, um por ter falhado com Edvard, por ter lhe roubado a vida e outra por ir mais cedo do que minha genitora e causar-lhe tamanha dor.
Porém, mais uma vez eu fui covarde. Nunca mais voltei a ver Edvard, de novo, por covardia. Como nessa hora quis ser o homem que minha mãe não me deixou ser! Talvez seja ela a culpada, de tamanha covardia, de tamanha falta de virilidade. Se eu fosse o homem do qual ela tanto falava mal talvez eu tivesse ímpeto para salvar o amor da minha vida. Mas não, fui ensinado a sempre projetar um mundo onde eu seria a donzela em perigo, onde eu seria salvo por um príncipe encantado. A vida tem muitos caprichos. Não consegui nem me salvar, como salvaria outra pessoa? Fui salvo por uma desconhecida que tudo conhecia. E foi dela que fugi também e da qual sinto uma falta imensa. Sinto falta até dos pesadelos com a garota francesa ou com o menino árabe.
Maldita seja minha genitora! Juntou tudo as pressas e me tirou dali, fui para Berlim, fugir como sempre faço. Em ter cuidado de mim, em ter me amado demais e me livrado do mal que eu mesmo causei. Se eu tivesse um pai, ele me faria enfrentar as consequencias dos meus erros! Não, (chora) não há ninguem que eu deva culpar a não ser eu mesmo, quem estou procurando para expiar meus pecados. Como sou uma criatura vil, que usa da própria mãe para se eximir da culpa de seus atos de covardia.
Que mostro que sou!
Que monstro fui quando deixei minha mãe e fugi mais uma vez para Colônia, para fugir mais uma vez para os livros… eu achei… que lá estaria eximido de culpa. Como se a universidade e aquele curso de antropologia fosse um grande confessionário e Fatima fosse o grande sacerdote que investido com o poder de deus me expiaria de todos os meus pecados.
Ledo engano.
É por isso que aqui encerro minha vida, nada sobre ela vale a pena ser dito. Não quero escrever nada, pois manterei minha covardia até o fim. Ao me negar a deixar registros, serei muito mais facilmente esquecido. Quero ser esquecido depressa pois minha história não deveria ser registrada, sequer lembrada.
Uma história de vergonha e covardia, de fuga e de miséria emocional, uma história que nunca servirá de exemplo para ninguém. E bom que nem minha mãe, nem Fatima, nem ninguém se lembre de mim. E é isso que acontecerá em alguns meses, quando todos os rituais mundanos estiverem cumpridos e meu corpo retornar da terra de onde nunca deveria ter saído.
(Dou passos e subo no banco de livros, ponho minha cabeça na corda, estou pronto para pular quando sou arrebatado por um corpo muito maior que o meu, Samuel, meu colega de tradição me empurrou e me tomou nos braços sem acreditar no que estava acontecendo comigo. Eu chorei arrependido pela minha inabilidade de tirar minha própria vida)
Psicose
Eu pensei que morreria dentro da toca se nada fizesse. Não sei como sobrevivi meses sem comida, sem água. Se eu quisesse viver precisava arriscar. Enfrentar o caçador era minha única chance. Precisava arriscar e deixar a covardia da minha vida de lado se quisesse viver. O bosque é meu por direito e o caçador é um invasor! Eu vivia aqui antes dele! Quando finalmente tomei coragem e saí da toca já não era apenas um caçador, mas muitos, todos iguais entre si. Pele pálida, bochechas rosadas, olhos azuis como duas safiras cintilantes. Todos a apontar suas armas em minha direção. Eram tantos, tantos. Me reconciliei comigo mesma. Pelo menos não morri na escuridão, morrerei contemplando a face dos belíssimos caçadores que dividirão a minha carne e se alimentarão do meu corpo…
(Fatima está no escritório da casa dela e eu vou ter com ela depois de dias sem vê-la)
(Eu entro na sala. Decidido, segurando as mãos para que elas parem de tremer, indago Fatima sobre minha história com ela)
Quando me matriculei em Antropologia, em Colônia para fugir dos meus fantasmas do passado nunca imaginei que hoje seria atormentado por novos.
Eu sou uma lebre num bosque só meu.
Eu sou uma lebre num bosque só meu.
Eu sou uma lebre num bosque só meu.
No começo a vida acadêmica parecia tão fácil, sempre foi, na verdade. Você lembra? Eu tirava as melhores notas! Era o aluno mais disputado. Os meus colegas silenciavam e prestavam atenção em tudo o que eu dizia, e desde então eu evitava dizer coisas só para que não monopolizasse o discurso, ninguém precisou me dizer isso, Fatima, eu sabia que poderia me tornar um indivíduo daqueles que ninguém quer por perto, passar por um demagogo…
Eu tenho pelo branco como a neve, orelhas rosadas e olhos de cor de safira.
Eu tenho pelo branco como a neve, orelhas rosadas e olhos de cor de safira.
Eu tenho pelo branco como a neve, orelhas rosadas e olhos de cor de safira.
Foi nessa tempo que passei a ter contato com os três fantasmas da minha vida. A menina francesa, o jovem árabe e a mulher sem face. Especialmente ela. Eu tinha tanto medo dela que tentei negá-la, mas era como Pedro negando a Jesus. Não podia evitar o contato com àquela mulher a um so tempo tão lúcida e tão insana. Queria fugir da loucura… E para dela fugir, escrevi um trabalho que nada tinha a ver com o que venho passando agora. Nada tinha a ver com misticismo. Memórias ribeiras: uma etnografia dos trabalhadores da maior zona industrial da Europa. Você lembra desse trabalho Fatima? Lembra, eu sei que lembra. Lembra, lembra, lembra, lembra, lemba, lemba, lemba, lemba, lemba, lemb, lemb, lemb, lemb, lem, lem, lem, lem, le, le, le, le, le. Você leu? Não leu? Leu?LEU????? EU SEI QUE LEU!!!
Havia água, comida, brisa e uma toca.
Havia água, comida, brisa e uma toca.
Havia água, comida, brisa e uma toca.
Depois de me formar eu fui para Oxford, fugindo dos meus fantasmas novamente, talvez. Foi lá que te conheci. Foi lá que comecou meu martírio.
Um homem tão estranho e tão bonito chegou no bosque virgem. Seus olhos…
Um homem tão estranho e tão bonito chegou no bosque virgem. Seus olhos…
Um homem tão estranho e tão bonito chegou no bosque virgem. Seus olhos…
Em Oxford você era minha mãe, é estranho, inclusive porque, do que eu estou falando? Você é minha mãe! Lembra quando nos mudamos de Amsterdã para Berlim por causa de Edvard e como você com sua erudição virou professora? Sim! Mesmo tendo vindo do Paquistão e enfrentando todas as dificuldades você é minha mãe! Você sofreu tanto, mãe. Você é minha mãe mundana e mística. Lembra que me ensinou tudo o que conheco sobre esse nosso mundo quando nos conhecemos. Nosso primeiro contato foi através das histórias que me contava. Me afiliei à sua tradiçáo mãe. O filho que vira professor porque a mãe também é. Não havia papai, papai era na verdade a mamãe, e a mamãe está aqui agora a me proteger. Eu virei Sahajyia, eu me tornei você! Tens orgulho de mim? Não tens? Sou teu mais pródigo filho não? Sei que sou! Sei que sou! Me ensinaste tanto, e eu aprendi tudo. Fiz tudo o que você mandou fazer! Sexo com tantos homens, três, quatro de uma vez, experimentei tantas drogas num mesmo dia que perdi a noção de mim mesmo. Lembra?! Lembra?!
Contudo, meu real aprendizado começou com aquela ida ao deserto. A areia, os homens, as mulheres, o calor. Havia tanto calor. Você me mandou pra lá, se desgarrou de mim, queria deitar com meu pai! Eu fui porque sou um filho obediente, e tudo o que quis na vida foi te encher de orgulho só isso! Lá eu passei dias horríveis, aprendi coisas horríveis, os homens me detestavam e, como sempre, arrumei não só uma, mas várias mães postiças que me ensinaram tantas coisas… tantas coisas… no deserto… que me tornei mulher!
Quando tudo aquilo acabou, quando aquele ano difícil sem você, mãe, acabou, eu finalmente voltei com minha dissertação: Sheikas: poder feminino, nomadismo e misticismo em uma comunidade beduína dos desertos sauditas. Depois daquilo você me ensinou a arte de Chronos e a de Hypnos. Sofia, estava lá também… e também os outros…
Tão deslumbrante, alto, pele branca, cabelos castanhos, bigode bem cortado, lábios brilhantes e suculentos, olhos de um azul cor de safira lindíssimos… Que choravam
Tão deslumbrante, alto, pele branca, cabelos castanhos, bigode bem cortado, lábios brilhantes e suculentos, olhos de um azul cor de safira lindíssimos…Que choravam
Tão deslumbrante, alto, pele branca, cabelos castanhos, bigode bem cortado, lábios brilhantes e suculentos, olhos de um azul cor de safira lindíssimos…Que choravam
Foi ai que você perdeu tudo. Seu marido, meu pai, a sanidade, o trabalho. Perdeu-se de si mesma. Mãe… sumiu por meses, foi nesse tempo que usei da ocasião de minha infindável procura para escrever minha tese. Era a única forma de organizar meus pensamentos ao mesmo tempo em que cumpria com minhas obrigações mundanas, ao mesmo tempo em que consegui dinheiro pra te procurar em cada canto da Europa e na tua terra natal! Quase desisti da minha tese, da minha vida em  busca de ti!. E não sabe o tanto que te procurei. Não se deixa um filho sozinho! Não se abandona um filho! Mulher desnaturada! Medéia dos meus dias de escuridão e sofrimento! Tu não vais me matar, não!
O belo caçador me aponta uma arma. Mas ele é tão bonito!
O belo caçador me aponta uma arma. Mas ele é tão bonito!
O belo caçador me aponta uma arma. Mas ele é tão bonito!
Quando da tua volta, no dia da minha defesa, enquanto os mestres me laureavam eu só conseguia pensar em você! E estavas lá, no meu dormitório aquele dia. Desde então falaste coisas tão estranhas ao meu respeito. Desde que te encontrei que não tenho mais paz! Sou um gigante em queda! Não vês?! Me fizeste experimentar tantas coisas dolorosas, tantas perturbações inomináveis, quase morri por causa de ti. Foste tomada pelo ciúme e cólera quando conheci o psicanalista francês! Achei que era a prova do teu amor por mim! Mas tu não me amas! Outro dia veio Samuel, abusar de mim! De tão vulnerável que estava. E onde estava você!!!
Você é tão bonita! Porque segura uma arma contra mim! Porque?! Pare!
Porque me olhas com esses olhos de safira!?
Pare!
Pare!
Pare!
Você disse que eu consertaria o mundo. Eu vou, e comecarei por você!
(eu pego o abridor da cartas na mesa perto dela, rapidamente me acocoro na mesa e tento apunhalá-la)
(Imediatamente apos isso. As portas da casa dela são escancaradas. Logo eles estavam no escritório, todos. Samuel e os outros. Eu acho que estou adormecendo… o que acabei de fazer, meu deus. Estive prestes a cometer o ato mais vil de minha vida, do qual decerto jamais sobreviveria… Fatima?! Samuel? Para onde estão levando ela! Digam-me!)
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Retrato de Aleksander Jorgensen
Aquarela sobre papel
3h de trabalho
Trecho do diário de Sabine sobre Aleksander: 
Verifiquei as dançarinas repassei alguns passos difíceis e voilá! O show foi um sucesso. Me apresentei em francês, estou muito orgulhosa. A apresentação foi linda, La vie en Rose, a estética visual era completamente inspirada em Klimt. Eu estava deslumbrante, meu corpo estava coberto de adereços dourados e verti sangue no fim. O que mais me chocou foi o homenzinho ordinário que me fitava com aquele olhar perfurante, cor de safira, mas com um quê de perturbado. Sabia quem ele era. Parece que o destino sorria para mim essa noite e pensei que minha procura por M. Bonet seria mais fácil do que imaginava. Decidi que deveria fazer dessa noite memorável. Fim do show. Volto para o palco e enquanto sou aplaudida, atiram-me flores e urram com minha presença, engatinho até onde a minha vítima está. Ele parecia imóvel. A lebre veio na toca da raposa. Sentei nua em seu colo e fiz a ele perguntas indecentes. Ele me disse seu nome Aleksander Jørgensen engolindo as palavras, arfante, suado, corado. Os urros dos homens que esperavam virilidade vinda de M. Jørgensen foram definitivamente a melhor coisa da noite. Levei-o ao meu camarim e ele parecia desconcertado. Nós conversamos sobre o passado e ele inevitavelmente me perguntou sobre Henri. Me revelou que era seu marido. Ele estava, realmente, desesperado. E aí eu realmente vi que essa pobre lebre amedrontada estava na mesma situação que eu, a inocência. Ele procurava o M. Bonet com os olhos brilhantes da saudade, do amor, da perda. Quando tento consolá-lo algo estranho acontece…

 

Era como se eu fosse M. Jørgensen… estava caminhando desesperadamente por uma floresta que já conhecia. Fria, escura e sibilante. Havia uma cabana, uma bruxa, uma bacia de sangue e um homem no chão. No lugar da habitual bruxa dos meus tormentos havia uma mulher sem rosto, negra, com um vestido fino que mostrava os seios pontudos. Ela sangrava pelo rosto… haviam mulheres, dizendo para que eu matasse meu próprio marido. Henri estava caído no chão, eu me arrependi de ter entrado na cabana, pedi ajuda a Sofia mas o inevitável aconteceu. Eu matei meu marido. Ainda que minhas mãos tenham sido guiadas pelas bruxas. Eu o matei. Senti que participei de um ritual sórdido, minhas mãos sujas com o sangue do meu marido estampam a parede como um souvenir macabro de Henri…
Entrada do dia 30 de Abril de 2016 do diário de Sabine Bournier.
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