Victor e Vicente Eisenhauer

Em 2016, quando assisti ao filme “Victor Frankenstein”, baseado na obra Frankenstein (1818) de Mary Shelley fiquei fortemente inspirado a criar um personagem baseado no doutor Frankenstein. Esse foi o marco do nascimento de Victor Eisenhauer. Na época, eu não estava participando de nenhuma mesa de RPG, de tal forma que criei o personagem como um “coringa” que pudesse ser usado posteriormente.  Acabei adaptando ele como um necromante para uma aventura no sistema D&D 3.5. O background que eu apresento em seguida, entretanto, foi concebido antes da adaptação mencionada.

A ideia era criar um personagem diferente de todos os outros que eu já havia criado até então. O processo de construção foi semelhante ao do monstro de Frankenstein, cada retalho de personalidade que o constitui originou-se de personagens de livros e filmes que eu gosto, com um toque de originalidade é claro. Não mencionarei os personagens que cederam seus traços para a construção do meu monstro, deixei para que o leitor decifre, caso queira.


Victor era mais novo que Vicente por alguns segundos. O nascimento dos gêmeos em uma noite tempestuosa acabou levando a mãe ao óbito. O pai nunca superou a perda da parceira e quando os garotos completaram dez anos, a morte recolheu os pedaços de seu coração partido. Sozinhos, os dois passaram a viver nas ruas e eram obrigados a roubar comida para sobreviver.

Um dia, entretanto, Victor foi pego em flagrante enquanto tentava surrupiar algumas maçãs em uma banca de frutas no mercado movimentado. Sem piedade ou misericórdia, o garoto foi espancado e teve a mão esquerda amputada enquanto Vicente era obrigado a assistir o sofrimento do irmão. A multidão que se formara ao redor do grotesco espetáculo vibrou a cada grito de Victor enquanto o facão sem corte dilacerava sua carne em múltiplos golpes imundos. Quando se findou aquele show macabro, os garotos foram jogados nos esgotos e abandonados à própria sorte. Vicente que, por ser mais velho, se sentia responsável pelo bem-estar do irmão, nunca se perdoou pelo que aconteceu.

Não demorou mais do que alguns dias para que a necrose se espalhasse da mão amputada para o braço de Victor. Enquanto o garoto delirava de febre, o impotente irmão gêmeo assistia sua morte. O sofrimento de Victor chegou ao fim quando o sol se pôs no último dia de verão daquele ano. Sem saber o que fazer, Vicente permaneceu ao lado do irmão em putrefação dias a fio, velando-o ou esperando que ele despertasse.

Era noite quando ele viu uma lanterna se aproximando, as sombras projetadas pelo homem que chegava pareciam dançar nas paredes de pedra e lodo. Vicente já não se incomodava mais com o fétido odor de decomposição que preenchia a escuridão do esgoto enquanto os vermes se alimentavam de Victor. O homem que o encontrou tinha um lenço tampando a boca e o nariz e seus olhos se arregalaram surpresos com a cena deprimente do garoto moribundo.

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Sewer Exit por Alexlinde.

— Valha me Deus! — exclamou ele. — Quem é você, garoto?

— Meu nome é Victor. — Algo no tom suave e tranquilo de Vicente assustava o homem.

— Eu sou o doutor Eisenhauer. — Apresentou-se. — Venha comigo, criança. Você está precisando de um banho.


O médico levou o garoto para casa sem desconfiar que este havia assumido a identidade de seu falecido irmão e o adotara como seu filho, dando-lhe o sobrenome pelo qual ficaria conhecido anos mais tarde. A vida que o doutor proporcionou ao garoto era a vida que Vicente sonhara que seu irmão pudesse ter, portanto, ele a viveu como se de fato o fosse.

Acontece que, ninguém pode viver a vida de outra pessoa. A mente frágil de Vicente aos poucos fragmentou-se, ora era Victor, ora era ele próprio. O adolescente considerou uma benção, era capaz de falar novamente com seu irmão, podia deixar com que ele assumisse o controle do seu corpo por um tempo, era como se estivessem juntos novamente.

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頭痛 por Avogado6

 


— Victor… — Vicente chorava enquanto olhava no espelho. — Eu sinto muito, sinto muito pelo o que aconteceu. Eu não pude evitar.

O reflexo, entretanto, não mostrava as lágrimas que escorriam pelo seu rosto, muito pelo contrário. Vicente não via a si mesmo, mas sim ao irmão, algo estava diferente nele, parecia nervoso.

— Não se preocupe. — respondeu Victor, levando a mão até o rosto do irmão para enxugar as lágrimas. — Eu voltei.

— O doutor Eisenhauer tem sido tão bom para mim. — Vicente soluçava. — Ele vai gostar de saber que você está aqui.

— Isso deve ser um segredo. — O rosto refletido no espelho sorria maliciosamente. — Não vamos contar para ele. Não vamos contar para ninguém, pelo menos por enquanto.

Vicente assentiu, faria tudo que seu irmão quisesse.


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Quando completou dezesseis anos, pediu ao pai adotivo que lhe ensinasse os segredos do corpo humano, queria ser médico. Orgulhoso, o homem não foi capaz de dizer não e começou a instruir seu filho na medicina.

Os anos passavam e Vicente e Victor amadureciam como médicos enquanto o velho doutor Eisenhauer definhava por problemas respiratórios. Não demorou muito para que ele tivesse que se aposentar e o filho, agora crescido, assumisse seu lugar como o médico local.

 As personalidades de Victor e Vicente iam se tornando cada vez mais destoantes. Victor era mais impulsivo, nervoso e decidido enquanto Vicente se tornara mais brando, calmo e centrado. Com o tempo, Victor passou a assumir o controle do corpo com mais frequência. O próprio doutor Eisenhauer começou a perceber que algo estava errado com seu filho, mas já era tarde quando isso aconteceu.


— Filho, responda-me uma coisa. — disse médico em seu leito de morte. — Você ainda fala com seu irmão?

A pergunta surpreendeu Victor, que era quem controlava o corpo no momento. Ele sorriu e assentiu. Anos atrás teria mentido, mas o velho estava prestes a morrer, então não fazia diferença.

— O tempo todo, pai. — confirmou. — Ele não sai da minha cabeça.

O médico sorriu de lado e tossiu. Victor colocou mais um travesseiro sob sua cabeça.

— Com quem eu falo no momento?

— Eu sou Victor.

— Você é o que morreu no esgoto. — afirmou o médico.

— É um velho muito inteligente. — Victor concordou com ele. — Vicente deixou que eu voltasse, agora ele passa a maior parte do tempo dormindo.

— Deveria deixar seu irmão viver a vida dele. Você já teve a sua.

Uma veia pulsou na têmpora de Victor, ele respirou fundo e então sorriu.

— Não se intrometa nos nossos assuntos, papai. — Victor respondeu enquanto preparava uma seringa com um líquido amarelo. — Já está na hora do senhor dormir.


Após a morte do doutor Eisenhauer, Victor se tornou a personalidade dominante. Enquanto Vicente sonhava em ficar com seu irmão, Victor tinha ideia de aperfeiçoar suas técnicas médicas para criar um novo corpo para ele. Do seu ponto de vista, Vicente era como uma âncora que o impedia de flutuar.

Foi em uma de suas viagens pelo mundo, enquanto passava pela América Central, que ele descobriu a existência de um anfíbio de águas quentes chamado de Axolotl. Os Axolotls são criaturas capazes de regenerar membros e até mesmo órgãos quando estes são mutilados. Victor decidiu que estudaria esse animal, desvendaria seus segredos e, a partir do corpo de Vicente, criaria um corpo só seu, permitindo então que ele fosse capaz de atingir seu verdadeiro potencial.

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— Estamos pertos. — disse Victor uma noite para Vicente. — Os testes em primatas foram promissores.

— Eu não queria me separar de você, irmão. — respondeu Vicente. — Vou sentir sua falta.

— Continuaremos a nos encontrar. — Victor mentiu. — Entenda que isso é necessário.

— Tudo bem. — O irmão concordou. — O que falta agora?

Ele já havia preparado o tubo com mais de dois metros de altura totalmente preenchido por um líquido transparente. O topo do tubo cilíndrico estava aberto. Ele pegou o facão que afiara mais cedo e subiu em uma pequena escada até dar altura na abertura. Um arrepio gelado percorreu sua espinha, o que estava por vir ainda o amedrontava.

— Precisamos de uma muda. — Victor respondeu. — Uma muda a partir da qual meu novo corpo crescerá.

Vicente assentiu, ele segurava o facão com a mão direita enquanto estendia a mão esquerda sobre o tanque. Os irmãos gritaram quando o golpe certeiro foi dado. A mão ensanguentada caiu dentro do tanque fazendo seu líquido borbulhar.

Assinatura_Crônicas - Vitor

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