A Identificação com o Personagem

“Quando lemos, assistimos ou ouvimos histórias que nos emocionam, nós nos tornamos aquele personagem por alguns momentos” – Henrique Duarte

Você já parou para pensar por que gosta tanto de um ou outro personagem da ficção? Por que criamos tamanha afeição por aquele ser irreal ao ponto de sofrermos com sua dor e nos alegrarmos com sua vitória? E por que alguns se tornam eternos?

o povo do futuro vai olhar pro passado ver os nossos herois de cueca e dizer OS HEROIS DAQUELA EPOCA USAVAM CUECA

Essas questões estão relacionadas à Identificação do público com o personagem. Quando lemos, assistimos ou ouvimos histórias que nos emocionam, nós nos tornamos aquele personagem por alguns momentos. Isso ocorre, basicamente, por “afinidade” quando nos reconhecemos na ficção (gostos em comum, história de vida, dificuldades…); ou por “projeção” quando realizamos, de maneira imaginária, nossos desejos (bons ou ruins) que não seriam possíveis na vida real.

Os personagens que são totalmente irreais em suas habilidades geram uma relação de fascínio. O Superman é um exemplo clássico, pois os leitores de quadrinhos sentem afinidade com Clark Kent, tímido e atrapalhado, e projetam seus desejos no super-herói, poderoso e confiante, pelo qual são fascinados.

Mas as histórias não vivem só de heróis e não são apenas eles que têm fãs. Nossa maneira de pensar, muitas vezes, acaba sendo mais parecida com a do antagonista. Nesses casos, projetamos nossos desejos mais sombrios e proibidos nos Vilões.

Os anti-heróis, por apresentarem um “equilíbrio” entre o bem e o mal, são cada vez mais comuns e populares. A liberdade de quebrar as regras e, ainda assim, fazer o que é “certo” é mais atraente ao público que vive limitado em sua realidade e gostaria de tomar uma atitude contra o que considera errado, sem ter que se preocupar com as consequências.

A ficção permite isso.

Mesmo que seja por apenas algumas horas e de maneira imaginária, é melhor que nada e muito mais seguro. Afinal, alguém pode acabar sendo preso (ou morto) por bancar o herói (ou o vilão).

O RPG possibilita mais do que, apenas, “observar de longe”. A campanha seria como o episódio de uma série, no qual podemos interferir no enredo, pois somos personagens e não apenas espectadores. Esse é o recurso que mais diferencia os jogos de interpretações dos filmes, livros e quadrinhos… E, nessas histórias, podemos ser o melhor e o pior de nós mesmos, com o bônus de habilidades sobre-humanas.

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Mas seja para jogos, livros ou roteiros, ao criarmos nossos personagens colocamos um pouco de nós mesmos. Nossos conceitos de certo e errado, liberdade e obediência, medo e coragem, sexualidade… são colocados em conflito para discutir, na ficção, questões da vida real.

Claro que muitas vezes é apenas entretenimento sem grande profundidade, mas mesmo nesses casos, vivemos outras vidas. E, por umas horas, somos capazes de fazer coisas que nunca seriam possíveis (ou permitidas).

Matamos dragões e qualquer outro monstro que aparecer. Viajamos pelo universo ou multiverso. Lutamos em guerras. Desbravamos regiões nunca antes exploradas. Sentimos prazer no medo. Não sentimos culpa por beber sangue de pessoas inocentes. Enfim, as opções são praticamente infinitas.

Muita gente pergunta se o melhor é criar primeiro os personagens ou o enredo. A resposta é simples: Os dois caminhos são válidos, só depende do processo criativo de cada um. A verdade é que um não existe sem o outro. Personagem sem história é apenas uma ficha e uma narrativa não funciona sem alguém para viver a história, mesmo que seja apenas uma pedra contemplando a passagem dos anos e a efemeridade das coisas ou a agulha e a linha discutindo sobre quem trabalha e quem vai à festa.

Talvez você pense em contar as aventuras de um mago alcoólatra que perde os poderes quando está sóbrio e, a partir disso, desenvolva as situações que ele vive. Ou primeiro imagine um mundo futurista sendo atacado por vampiros espaciais para depois pensar quem serão os protagonistas (um militar na guerra ou um civil tentando deixar os filhos em segurança, por exemplo). No RPG, enquanto o Mestre desenvolve o enredo, os Jogadores criam o background de seus personagens. Um sem saber o que o outro está fazendo.

Entre vilões, heróis, animais, deuses… ao longo das próximas semanas, iremos discutir sobre os diferentes tipos de personagens. Esses seres imaginários que têm vida própria. Vida que nós pegamos emprestado para tornar a nossa realidade mais interessante ou suportável.

Assinatura_Crônicas - Henrique Duarte-10

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