Espírito Branco – por Ricardo Old Folk

Certo jovem chamado Bariri, famoso por sua impaciência e destemor, se habituara a sair para caçar antes do amanhecer. Seu propósito era encontrar um grande animal e abatê-lo sem ajuda. Ninguém na sua idade ousava caçar desacompanhado, e os mais velhos sempre alertavam dos riscos. Mas com o melhor arco da aldeia, uma dúzia de flechas, e uma faca feita por ele próprio, Bariri se lançou em uma jornada solitária em busca de glória.

 

Caminhara até o amanhecer, seguindo por uma trilha que o levou a certa região, lugar onde a grande caça dispunha de poucas alternativas para saciar sua sede. Tal lugar fugia por completo das habituais áreas de caça. Seu avô o havia trazido diversas vezes àquele lugar, quando criança, recolhiam raízes que só eram encontradas naquelas imediações. Da utilidade destas, Bariri pouco entendeu, sabia apenas que seu avô as empregava para expulsar maus espíritos das pessoas.

Nos arredores da fonte com a qual já estava familiarizado, ele se acomodou. Havia uma bela cachoeira, seu curso enchia uma pequena e profunda lagoa, e esta escorria para dentro de uma gruta, seguindo algum caminho rumo às entranhas do mundo. Nas imediações daquele belo lugar existiam inúmeras pedras e troncos encobertos pelo musgo. O jovem poderia passar muitos dias naquele lugar sem dificuldade para manter-se escondido, nem para conseguir mantimentos — formigas, cupins, cogumelos e raízes.

O sol já havia raiado quando Bariri finalmente havia escolhido o lugar onde esperaria uma possível presa. Tratava-se de um imenso e antiguíssimo tronco tombado sobre uma pedra, formando um abrigo natural por baixo desse. Limpou o local e sentou-se, se recostando na pedra, com seu arco e flechas dispostos à sua frente. Dali podia visualizava todo o perímetro da pequena lagoa de águas escuras e avermelhadas.

Eis que surgiu no momento mais quente do dia, uma presa que atendia às suas exigências de tamanho e perigo. Um grande porco-do-mato emergiu da vegetação avançando cauteloso para a lagoa. Bariri apanhou seu arco e algumas flechas. O animal hesitou por algum tempo, observando tudo ao seu redor, mas então mergulhou seu focinho peludo nas águas escuras. Nesse momento, o rapaz fez pontaria, e disparou.  O projétil cravou-se no pescoço da criatura, o que a fez fugir aos berros, Bariri abandonou seu esconderijo, se lançando em seu encalço. Uma breve caminhada bastou para que avistasse o suíno trotando em círculos sob uma clareira. Bariri se deteve, aproveitando-se do fato não ter sido notado, rapidamente, disparou nova flecha. Mais uma vez, alvejado, o porco grunhiu, todavia, não fugiu, em vez disso, avançou para seu atacante.

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O grande porco vinha rápido, estava enlouquecido pelo ódio. O jovem caçador, incapaz de realizar novo disparo deu meia-volta rumo à cachoeira, enquanto isso ouvia o urro pavoroso da besta. Ao avistar uma grande rocha, se lançou sobre ela. Preparou novo disparo, girou na direção do porco, que acabava de invadir sua linha de tiro. Porém, para a desgraça de Bariri, a besta feroz saltou sobre a rocha, mas não foi capaz de alcançá-lo, contudo, mirou uma das pernas do o intrépido caçador com suas terríveis presas, o que fez Bariri desequilibrar por conta do susto, mais uma vez se encontrava impossibilitado de efetuar um novo disparo. Bariri caiu da pedra, tombando de costas no solo, o que levantou espessa nuvem de vegetação morta.

Levantou o mais depressa que pôde. Buscava o inimigo nas redondezas, não o avistara. Mas então, um instante bastou para que o inimigo surgisse, estava a sua procura. O porco investiu a toda velocidade, mirando suas pernas, querendo golpeá-las com as suas presas amareladas, tão grandes que lhe saltavam do focinho. Dessa vez Bariri esquivou-se, evitando inúmeras investidas da criatura possessa, até que, finalmente, acabou se lançando atrás do enorme pedregulho; o animal bufante insistiu na busca, circulando o rochedo a sua procura.

Em nenhum instante Bariri havia largado o arco e a flecha, desse modo, assim que o porco surgiu, recebeu um disparo entre os olhos; o que o matou instantaneamente. O jovem sorriu, estava surpreso com as próprias capacidades.

Voltou ao esconderijo a fim de apanhar uma corda de cipó. E quando se aproximou do animal a fim de amarrá-lo, Bariri sentiu súbita fraqueza, e o mundo girou sob seus pés. Examinou seus braços e pernas, então constatou que havia sido mordido por uma serpente durante o embate com o porco-do-mato.

Buscou um lugar e se assentou para refletir. Morreria em breve.

Mas então, ouviu chamarem seu nome. Levantou-se, percorrendo os arredores com o olhar: no entanto não avistou ninguém. Novamente se assentou. Logo, captou um novo chamado, dessa vez avistou alguém entre às árvores. Um homem velho vestindo de peles, carregando um cajado de madeira pouco maior que ele mesmo, o qual usava para apoiar-se. Seu cabelo e barba eram brancos, longos e desgrenhados. Seu rosto era corado e saldável. Seus olhos eram vivos, da cor do céu.

Bariri o encarou com espanto. O tom da sua pele era muito mais claro que o de qualquer homem que ele já tenha visto, o que o levou a crer não se tratar de um homem, mas de um espírito.

— O que faz aqui jovem? — indagou o ancião, com voz calma e profunda.

— Estava caçando — respondeu — Quem é você?

O ancião abandonou as sombras e a vegetação vagarosamente, chegando a um dos muitos troncos tombados no lugar a fim de se encostar. Encarou o rapaz, bastante atento a sua pessoa.

— Daqui posso ver: apanhou um animal grande, considerando que é um caçador e solitário, por sinal também muito jovem. Mas para quê tanto? Como irá carregá-lo?

— Acho que não posso. Mas… — disse Bariri vacilando.

— Perdeu as esperanças? Por quê? — o velho quis saber.

— Uma serpente me mordeu, estou muito longe de casa. E estou só. — lamentou Bariri.

— Típico dos jovens, certamente não ouviu os avisos dos mais velhos! — acusou-o o idoso.

— Acho que sim… Mas espero que alguém venha me procurar. Pode ser que eu suporte até alguém me encontrar.

— Sabe que esta trilha é pouco conhecida? Ninguém vai te encontrar. Lamento menino…

— Você é o Espírito da morte? Veio buscar-me? — indagou Bariri, com lagrimas em seus olhos.

— Não. — negou o ancião, com expressão desapontada. — Mas posso ajudá-lo, desde que proceda como lhe ordenar.

— Diga! Farei o que disser! — lançou suas palavras impulsivamente, Bariri. 

— Coisa pouca! — sorriu satisfeito, o ancião sem nome. — Primeiramente, prometerá que não vai relatar nada sobre o que acontecer nessa manhã, nem sobre esse lugar. Além disso: não se refira a minha pessoa. Que seja como se nunca tivesse me visto. — explicou o ancião de modo severo.

— Sim, prometo! Será um eterno segredo! — concordou ligeiro, Bariri.

— E algo mais: desejo que, ao voltar a caçar neste lugar, deixe exatamente sobre esta pedra — o ancião indicou o lugar — a parcela do melhor que conseguir apanhar no dia da sua caça. Também, que meu tributo esteja envolvido por uma folha de palmeira; sabe bem que há muitas delas por essa região! Estou velho demais para caçar, meus dentes estão fracos e não posso comer qualquer carne, apenas as partes mais macias. E por fim, sempre que vier ao meu encontro, esteja desacompanhado.

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Bariri assentiu. O suor começava a brotar da sua face.

— Estamos entendidos, vou ajudá-lo. — o desconhecido apontou um tronco. — rompa sua casca.

E assim o jovem procedeu, cravando na árvore a sua faca, rompendo sua casca escura, encontrando cogumelos no seu interior oco.

— Retire três deles, ferva-os, após tomá-los, durma.

Despertou ao entardecer. Levantou-se, apanhou sua caça — essa, estranhamente, ainda retinha aspecto de recém-abatida. Com ânimo renovado, lançou o animal sobre as costas e regressou a aldeia.

Alcançou a aldeia apenas a noite. O grande animal que trouxera, ofuscou a preocupação dos seus pais e chamou a atenção de todos para sua coragem e habilidade como caçador. O lugar secreto e a existência deste ancião não foram mencionados.

Uma semana depois, Bariri, mais uma vez, partia antes do amanhecer.

Ao raiar do dia avistava a cachoeira, dirigindo-se ao esconderijo debaixo do tronco, mais uma vez recostando-se na pedra, novamente, posicionando arco e flechas de modo a serem apanhados com eficiência.

Não esperou muito, pois surgiu da vegetação outro grande suíno. Dessa vez não pretendia cometer o mesmo erro: aproximou-se o máximo que pôde, só assim disparou, matando a presa quase instantaneamente. Enquanto preparava-a para o transporte, lembrou-se das instruções do ancião, retirou parte da carne nobre do animal, embrulhando-a em uma folha de palmeira, depositando-a sobre a pedra indicada, próxima da cachoeira. Partiu sem olhar para trás.

Novamente, foi elogiado por sua força e habilidade. Poucos homens arriscavam-se a caçar sozinhos, e mais, poucos obtinham sucesso contra um grande porco.

A fama de prodigioso caçador alcançou toda a aldeia.

Era intrigante para os mais velhos ver alguém tão jovem, que mal havia alcançado a idade de casar, ser capaz de apanhar animais que caçadores experientes só conseguiam abater trabalhando em grupo. Pelo menos uma vez a cada mudança de lua, Bariri trazia algo especial. Porcos, capivaras, cervos e serpentes eram suas vítimas regulares. A barriga cheia impedia qualquer questionamento sobre seus métodos de caça.

Bariri estava feliz, e toda aldeia satisfeita.

Mas o jovem desejava reencontrar o ancião que o ajudou. Então certa manhã, matou uma paca. Como costumava fazer, retirou a melhor parte do animal e a envolveu em folha de palmeira, depositando o embrulho sobre uma pedra próxima da cachoeira, contudo não partiu, mas aguardou que o ancião surgisse para apanhar sua parte.

Não esperou muito até que surgiu da vegetação, calmo e silencioso, o homem misterioso, vestido de peles de animais, apoiado em seu cajado, caminhando com a dificuldade peculiar de um idoso. Durante o percurso até o embrulho, o ancião voltou seu rosto alvo e corado, com seus olhos brilhantes, na direção do rapaz que o aguardava enquanto molhava seus pés às margens da lagoa, abaixo da cachoeira.

O ancião sorriu. E Bariri lhe falou:

— Queria agradecê-lo, Espirito Branco. Por sua causa sou um homem importante em vez de um defunto.

— Assim sempre será por toda sua vida! — afirmou — Mas não disponho de força nem vigor para caçar, desse modo, você também está me ajudando. — esclareceu.

— Qual seu nome? – quis saber Bariri.

— É… — demorou-se a responder. Olhou ao seu redor, depois, para as próprias mãos.  Por fim, retornou ao jovem que o encarava com curiosidade. — Me chamam de Espírito Branco… — respondeu o ancião. Estava um pouco confuso — É um bom nome!

— Então você é um Espírito? — indagou o jovem, voltando seus olhos brilhantes e curiosos para a figura idosa.

— Meu jovem. Todos somos espíritos envoltos em matéria, para que desse modo possamos habitar neste mundo. — explicou o ancião, que a todo instante apontava o céu e a terra. 

— Sou um espirito? Como? — Uma expressão perturbada surgiu no rosto de Bariri, a afirmação o fez pôr-se de pé. — Não pode ser!

— Você, enquanto vive, possui um corpo. Porém, quando morre, não mais o possui. Ainda assim, você continuará existindo, apenas ninguém vivo poderá vê-lo outra vez. No meu caso, estou vivo, mas não pertenço a essa terra. Sou um tipo de vida diferente. Você não poderia entender.

— Acho que não. — a surpresa foi substituída pelo desapontamento.

— Aprendi muitos dos segredos desta terra. Estou aqui desde antes do primeiro da sua família surgir. Posso lhe assegurar que você precisaria morrer e nascer muitas vezes mais para poder compreender uma pequena parte do que sei. No entanto, muito do meu conhecimento não lhe convêm, assim como não lhe foi concedido o direito de muitas vidas. — nesse instante o ancião sorriu. — Muitas dúvidas devem persistir. Quanto mais sei sobre as coisas, menos as entendo. Tenho apenas uma certeza: que estou com fome! Permita-me aprontar minha refeição, volte para casa.

Bariri partiu com sua caça sobre os ombros.

Regressava com mais frequência ao bosque. Nessas visitas capturava grandes quantidades de pequenos animais ou abatia única presa, daquelas que um caçador solitário nunca arriscaria tentar apanhar, muito menos ser capaz de carregar por tão longa distancia até a aldeia. 

 

Em algum momento, curiosos, ou quem sabe, invejosos; homens desejavam saber seu segredo, sempre lhe perguntando das suas estratégias. Bariri evadia-se, e quando forçado a responder, o fazia de modo tão vago que provocava irritação a quem o interpelava. Intrigados e revoltados com a falta de explicações por parte do prodigioso caçador, alguns homens decidiram segui-lo. Dentre os curiosos, foram escolhidos dois, os mais habilidosos para seguir os rastros de Bariri. Após combinarem alguns detalhes mais, a dupla aguardou a chegada do dia de caça do famigerado rapaz, seguindo-o pela madrugada fria.

Como de costume, Bariri ganhava a mata. Os dois homens que o vigiavam, seguiram a distância que supunham ser segura. O jovem percorria uma trilha conhecida, mas que era inapropriada para a caça. Quando amanheceu, chegando a determinado trecho bastante acidentado, o jovem abandonou esta trilha, tomando direção à região desconhecida para os espiões, mas ainda assim, persistiam no seu rastro. Logo, chegaram às imediações da cachoeira. O prodigioso caçador havia se acomodado no seu lugar predileto, entre o velho tronco e uma rocha. À distância, a dupla de homens da aldeia o avistou, permaneceram afastados.

Silenciosos, o par de curiosos se acomodou o melhor que puderam para assim acompanhar todas as manobras de Bariri. Repentinamente surgiu um veado, caminhava descuidado próximo dos caçadores ocultos, que até poderiam tocar o animal, se desejassem, mas nada fizeram. A criatura se dirigia ao lago.

Bariri deixou seu esconderijo, abateu a presa com uma flecha certeira, tão ligeiro quanto um piscar de olhos. Em seguida, iniciou os preparativos para o transporte do animal abatido. Cortou generosa parcela da carne mais nobre do animal morto, e a embrulhou em folha de palmeira, depositando-a sobre uma pedra. Em seguida, o jovem partiu.

Intrigados, os dois caçadores permaneceram onde estavam tentando entender o porquê daquele ritual.

Pelo caminho, a passos calmos e tranquilos, Bariri vinha com a caça sobre os ombros. Assim que avistou a aldeia, logo captou passos ligeiros atrás de si. Dois caçadores passaram correndo.

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Em uma assembleia, o jovem acabou intimado a dar explicações a todos. Naquela noite, os caçadores que o haviam seguido e adentrado na aldeia as pressas, relataram em detalhes as atividades de Bariri. Por fim, relataram o que aconteceu depois da sua partida, nas imediações da cachoeira.

A dupla afirmou ter visto um homem branco de cabelos dourados, dotado de asas plumadas, portando grande faca à cintura. Tal criatura havia surgido à frente deles, saída de uma gruta, bateu suas asas até alcançar o embrulho, e o consumiu em chamas que brotaram das suas mãos. Os espiões, ainda, contaram que a prodigiosa criatura acabou por descobri-los, fitando-os com olhar maligno o bastante para afugentá-los.

Seguido desta narrativa, o mais velho da aldeia tomou a palavra. Relatou que este espírito habitava a floresta há mais tempo que seu próprio povo. Também disse que outros caçadores já o haviam encontrado em circunstâncias parecidas, em ocasiões de grande perigo. O ancião ainda relatou que se tratava de um protetor, capaz de assumir diversas formas, e quanto à forma de homem alado, esta seria sua real aparência.

O velho sábio revelou que a entidade somente protegia os justos e os inocentes, e que, portanto, Bariri estava entre estes. Concluiu dizendo que, após ser descoberto por pessoas impuras, ele, o Espírito Branco, desaparecia.

Dias depois, Bariri insistia em vão, tentando encontrar o ancião no bosque. Sequer foi capaz de encontrar a cachoeira outra vez mais, muito menos a lagoa. Acabou tendo que se juntar aos caçadores comuns. Todavia, enquanto viveu, era convidado a narrar sua aventura.


Imagem da vitrine: Jaobi – por Ursula “SulaMoon” Dorada para o jogo de tabuleiro de A Bandeira do Elefante e da Arara


Assinatura_Crônicas - Ricargo Old Folk-09

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