CÃO – por Ricardo Old Folk

A narrativa abaixo foi uma cena de uma seção de RPG. Uma campanha de Vampiro Idade das Trevas. O personagem “Cão” foi criação de um dos jogadores, que contribuiu também com parte significativa do acontecimento que apresentarei a seguir.


Os frequentadores de taverna fielmente guardavam o sábado: os beberrões, os boêmios, os golpistas e toda a sorte de criaturas da noite, algumas, impossíveis de serem classificadas. Vendiam seus serviços ou armavam ciladas para os incautos.

Eis que certo marginal havia se esgueirado por entre becos, cruzando ruas lamacentas, avenidas vazias e vielas imundas, tudo isso para evitar ser notado pela guarda que patrulhava as imediações, sem regularidade, nem zelo com o trabalho que realizavam. A criatura em questão era uma daquelas paridas na sarjeta, subsistindo por meio dos golpes que praticava em meio aos casebres aglomerados nos arredores da muralha que cercava o reino; lugar fora do alcance dos olhos e ouvidos do Monarca, rei de Cibele.

Este infrator havia se instalado em uma mesa imunda em uma taverna lotada, havendo escolhido aquele por alguma finalidade estratégica; também, furtara uma caneca de vinho ainda pela metade. Analisava o local enquanto fingia ser apenas mais um freguês, percorria o recinto com seu olhar dissimulado, buscava um alvo para suas armadilhas.

Enquanto esperava, algo acabou lhe atraindo a atenção. Não muito afastado do bandido, havia se iniciado uma balburdia; homens se aglomeraram com grande interesse em determinado acontecimento, e tamanha era a euforia destes que chegavam a gritar, berrar e escarnecer seus semelhantes. A bagunça era entrecortada por breve instante de apreensão, para em seguida irromperem em impropérios e sons grotescos advindos dos espectadores.

Tavern

Intrigado, o bandido se aproximou daquela turma barulhenta. Descobriu que a atenção destas pessoas estava voltada para uma jogatina. Havia pelo menos meia-dúzia jogadores rodeando a mesa, lançavam dados. A plateia que os prestigiavam estava entregue a anarquia; delirando enquanto um par de cubos pálidos rolava pela tábua.

Dessa forma, perambulou por entre os fregueses que se amontoavam a fim de acompanharem as ações dos jogadores.

Mas então, o gatuno sentiu inexplicável incomodo, sentia-se inseguro, vigiado, pressentimento comum às pessoas de má índole. Perturbado, lançou um olhar desconfiado ao seu redor, e acabou encontrando o olhar de um rapazola que parecia bastante interessado nas suas atividades.

Já quanto àquele que o encarava sem temor: um rapaz baixo, magro, de aspecto frágil, cabelos curtos, castanhos, desbotados e desgrenhados. Poderia passar por um príncipe se houvesse nascido em um lar prospero, contudo, não era esse o caso. Tratava-se de um camponês de olhos vivos e face pálida; era provável que estivesse esfomeado, ou doente.

Bem poderia se tratar de uma aparição, mas logo esse pensamento lhe deixou, pois pior seria uma denuncia. Acabaria chovendo bofetadas sobre ele, seguida de uma surra de vara, na melhor das hipóteses. Também poderia ter alguns dedos arrancados, ou mesmo, toda a mão decepada com um machado de lâmina aquecida em brasas.

Então o sangue gelou nas suas veias, suas pernas fraquejaram. Pretendia fugir, mas então o rapaz que o encarava lhe mostrou um sorriu. E não somente, avançou ao seu encontro.

— Veja que interessante! — disse o desconhecido quando se encontrava a apenas alguns passos do marginal, ainda perturbado com aquela situação.

— O que quer?! — indagou o roubador, enquanto isso encarava o recém-chegado, desconfiado. Ao mesmo tempo, pousou sua mão direita na cintura, em seguida, a deslizou para a retaguarda, fazendo menção de que apanhara algum objeto, talvez uma arma.

— Ora, me refiro ao jogo. — avisou o insolente rapaz. Deu pouca importância para o movimento repleto de malicia por parte do bandido.

— E o que me importa isso? — o marginal tinha a voz alterada, estava irritado com aquela situação. — Toma teu rumo, e me deixa em paz! Caso contrário…

— Não seja assim! — disse o rapaz desbotado, tentava acalmá-lo com o um humor irritante, que se avizinhava mais ao deboche. — Também estou aqui a negócios.

— Não me diga… Agora suma, cão! — expos sua irritação, o infrator, ainda com as mãos nas costas, com os seus dedos em volta do cabo de uma adaga.

— Como você foi capaz de adivinhar o meu nome? — havia se espantado com a palavra que lhe foi dirigida: “cão”. Nada mais era que uma ofensa. — Por acaso eis um cigano?

— Deixe-me em paz! — dito isso, o marginal largou o cabo da adaga, endireitando-se.

— Ao longe, percebi seu interesse na sorte. — declarou o rapaz, com um sorriso barrado.

— Diga o que você quer garoto, ou desapareça. — asseverou o ladrão. Estava a todo instante movendo seus olhos de rato, temia ser emboscado.

— Digo: não existe “sorte”. Ao menos, não para mim… — o tom do jovem pareceu uma sincera lamentação — tão somente existe o acaso. Há aqueles de maior beleza, outros agraciados com maior sabedoria, força; tudo isso são valores que podem influenciar diretamente os acontecimentos que se deseje mudar. Em todo caso, quero dizer que: se trata apenas de uma questão de saber como fazer as coisas.

1523955610_inn_by_ideljenny-d5pjzzl

— Não acredito. — decerto, o marginal sequer entendera a proposição.

— Posso provar minha afirmação, se me der uma oportunidade para tal. Afinal, você não tem nada a perder com isso.

— Então o faça se assim quiser… Desde que desapareça em seguida. — o bandido dava sinais de muito desconforto e inquietação, contudo certa curiosidade havia lhe brotado da alma. Era bem possível, em uma situação normal, que ele se evadisse para nunca mais voltar àquele lugar.

O rapazola sorriu, e antes de prosseguir com sua demonstração:

— Observe então!

O miserável maltrapilho se aproximou da mesa onde as infame freguesia assistia aos lances dos dados. Retirou um gorro imundo, dele apanhou algumas moedas.

A tudo isso o infrator passou a acompanhar com grande interesse. Havia se posicionado por sobre um dos ombros do jovem, que tilintava três moedas desgastadas entre os seus dedos sujos.

Mas então, a singular resolveu falar:

É necessário explicar que este jogo, em particular, consistia em conseguir o maior somatório possível entre os apostadores, em único rolar do par de dados sobre a mesa. Empates entre os participantes forçam um novo embate, o que excluía os apostadores com piores resultados. E era justamente nesse ponto que os espectadores ficavam apreensivos, poderiam ocorrer sucessivas rodadas até um deles obtivesse a vitória.

Depois de alguns momentos de espera, após o dinheiro das apostas acabar de ser retirado pelo ganhador da vez, o rapaz desmazelado se aproximou, depositou suas três moedas em uma velha tigela de madeira sobre uma banqueta. Muitos zombaram do seu atrevimento, no entanto, respondera apenas com um sorriso e um menear de cabeça. Outros patifes se cobriram sua aposta. Alguns dos acompanhavam a jogatina se afastaram, pois davam por certa a perda dos últimos tostões daquele jovem tolo.

O jovem que se denominou “Cão”, voltou-se para o bandido; ficou próximo deste, e começou a explicar-se. Cochichou:

— Veja bem: sou capaz de induzir o resultado dos dados. Todos os meus resultados serão “seis”.

—Eu duvido. — afirmou o rufião. Incrédulo.

Quando todos estavam apostos, os dados foram lançados. Neles surgiu um par de “seis”.

— Bom pra você. Mas isso é pura sorte! — desdenhou o marginal.

— Veremos… — sorriu o rapazola.

Passaram-se varias rodadas, e os lances do rapaz de nome Cão seguiam do mesmo modo, sempre com o resultado máximo. Então, rostos insatisfeitos e olhares invejosos lhes foram dirigidos. O rapaz nada dizia, somente exibia o seu sorriso borrado para quem quisesse ver. Aproximou-se dele o rufião, Cão sabia que observava a tudo por sobre seu ombro direito, seus olhos corvinos faiscavam.

Cinco rodadas se seguiram, e a cada novo lance de dados, as previsões do jovem se confirmavam. Mas então, em determinado momento, apanhou o bocado de moedas que havia ganhado, separou destas uma quantia que lhe correspondeu ao seu investimento inicial, três moedas. Casou todo o restante em mais uma aposta. Cão levou a mão até a boca, a fim de esconder as palavras que dirigiria ao bandido:

— Veja. Será um par de “uns”. Perderei tudo. — ele sorriu depois de proferir essas.

De fato, perdera toda a soma que havia acumulado até então.

Por fim, Cão se afastou da multidão, sendo seguido de perto pelo marginal; retornaram a mesa que o rufião havia escolhido, inicialmente.

— Creio que tenha me compreendido — expunha o rapaz.

— Um ponto não esta claro: como pode levar uma vida dessas? Poderia vencer tanto quanto desejasse. — expos o marginal, beirando a euforia. Mas então, recuperando a incredulidade. Talvez, fosse inveja. Prosseguiu em tom acusador: — Deve haver algum truque, isso sim! Você é um tremendo vigarista!

— Já que tanto insiste lhe farei a revelação final. Irei convencê-lo definitivamente da não existência da sorte.

— Pois então o faça antes que eu o desmascare diante daqueles tolos lá trás! — ameaçou o patife, virou-se indicando os jogadores de dados e seu público.

0867e2464c12c895a5a583d1e9e58dcd

Mas então, no momento em que o rufião retornava sua atenção para a pessoa do maltratado rapaz, se deu conta de que uma brisa fria tocava sua pele. Em seguida, captou passos que se aproximavam, vinham batendo contra uma superfície lamacenta.

Seu coração acelerou, tomado pelo medo. Afinal, acabara de flagrar a si próprio de pé, em meio à noite sem estrelas, estava parado em um beco, mesmo assim, era capaz de ouvir o barulho das pessoas no interior da taverna, onde, instantes antes, conversava com aquele rapaz desconhecido. O próprio rapaz se encontrava parado a sua frente; em seu rosto, o desagradável sorrindo manchado.

O rufião fez menção de que fugiria, entretanto, constatou que as mãos pequenas e frias do rapaz havia lhe apanhado pelos ombros como se nada fosse. Descobriu-se incapaz de desvencilhar-se dos dedos frios como mármore daquela figura miserável.

Ora, Cão se comprazia com tudo aquilo. Uma mórbida satisfação lhe vinha aos seus olhos, estes faiscavam.

—Vejamos a sua situação: Planejava se apossar do bem alheio. Não me entenda mal, de modo algum o condeno por isso! E mais: peço-lhe a mesma compreensão, cheguei aqui unicamente para tomar a vida de algum qualquer. Dentre tantos, escolhi você. E isso não me parece sorte ou azar. Tracei meu objetivo para essa noite, e vou cumpri-lo.

Esse foi o fim para o ladroeiro.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s