O lamento do predador – por Fernando Moura

Arquipélago Svalbard, território ártico norueguês. Vila Tornoluv.
Na Vila de Tornoluv, octogonalmente formada por choupanas rústicas, de paredes feitas com toras de cedro ou pinheiro e amparada por um armazém/taverna, propriedade de um ex-combatente aposentado e sua filha, a maioria dos homens retornam do coração da floresta de abetos, dia após dia, de mais um árduo expediente na madeireira.
Munidos do modesto salário oferecido, diariamente e baseado na produtividade de cada homem, aqueles lenhadores sempre disputavam uma corrida ensandecida até a taverna para garantirem os quilos de grãos que conseguissem para o sustento da família enquanto durassem as tempestades do inverno rigoroso ao qual sofria todo ano. Os machados, deixados do lado de fora, eram cobertos pela neve durante os poucos minutos de negociação que cada um levava com Nycola, o ancião, e Heloise, sua filha, que ajudava na administração do lugar.
Naquele povoado esquecido pelo resto do mundo, os camponeses exploravam uma terra que não lhes pertencia em troca da moradia e de parcas condições para cultivarem o pedaço de terra que lhes era emprestado, e criarem seus porcos e galinhas. Um sistema desigual e exploratório que não oferecia perspectiva de crescimento para os trabalhadores e os mantinham dependentes basicamente da exploração da madeira de pinho e abeto, sendo eles obrigados a cumprirem com o contrato acordado para não serem expulsos de suas casas e substituídos por outras famílias que estivessem dispostas a se sujeitar aquele regime ditatorial de trabalho.

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Durante o verão, enquanto era proibida a derrubada das arvores, lei determinada pelo mesmo duque que assinava o contrato com os lenhadores, aqueles pobres homens trocavam seus machados por arpoes e remos e partiam em suas jangadas de pinho para o mar gélido da Noruega, a leste da ilha, para a caça e pesca de focas, salmões e o que lhes aprouvesse. Apesar de ser um lugar aparentemente inóspito e desolado durante o inverno, Tornoluv proporcionava aos seus habitantes sentimentos e experiências sinestésicas e existenciais singulares, e tinha como principal característica ser um lugar pacato e seguro. Seu ar carregado de um fresco aroma de pinho tornavam as horas de trabalho como de lazer uma experiência bem mais agradável e acolhedora.
A brisa acariciava o rosto das anciãs e lhes assanhavam as franjas grisalhas, teimosamente presas com biliros, enquanto entrecruzavam as agulhas de crochê a fim de concluir os agasalhos de lã, que tão cuidadosamente confeccionavam, para os netos que costumavam brincar as margens do rio, hora escondendo-se dos colegas e hora perseguindo-os. Antes do crepúsculo, sempre o perfume balsâmico da brisa advinda das ilhas ao oeste dali acompanhavam as avós com seus netos ao retornarem para casa, golpeando suas costas e prenunciando uma noite gélida e obscurecida pelas grossas nuvens que nublavam o céu.
O banho morno dos últimos suspiros solares recriavam um efeito prismático de tonalidades alaranjadas e carmim que escapavam entre as finas brechas entre uma arvore e outra. Os pássaros se apressavam por chegar em seus ninhos depois de um dia inteiro a procura de alimento para seus filhotes, e preveniam-se de se arriscarem no céu tenebroso da noite norueguesa.
Uma ave de rapina sobrevoava as copas das arvores na esperança de abater alguma presa desavisada, sem perceber a proporção do terror que sua silhueta provocava metros abaixo das suas asas. Mas o predador voador em sua ambiciosa empreitada não havia percebido o olhar malicioso de um lince do pântano, que camuflado entre os arbustos disputava a pretensa vítima, escondida pelo véu de folhas mortas que recobria todo o solo da floresta na tentativa de sair incólume daquele impasse, e esgueirava-se para seu ninho com as bochechas cheias de grãos.
Fosse uma graúda ratazana ou a ave que sobrevoava do alto, o felino não tardaria a saciar sua fome ao cair da noite, e pela madrugada estaria em algum galho ou toca concluindo o asseio antes do sono matutino.
O verão em Tornoluv era sempre movimentado e convidativo. Época em que se refestelavam aqueles que a natureza não havia presenteado com uma pelagem espessa para caçarem no inverno, e eis que os predadores cruzavam, depois de varias semanas, nas matas com a única criatura que lhes causava medo: o homem.
Em meio a todo cenário pacato daquela região e de toda a escassez de provimentos causada pelo inverno constante e pela ambição desmedida do duque, os isolados habitantes estavam sempre dispostos a ajudarem uns aos outros com o pouco que tinham. E entre a densa floresta e o vilarejo, vivia um ermitão que no auge do desenvolvimento econômico de Tornoluv fora um talentoso e rico ferreiro. Proprietario da maior parte das terras, antes de uma suspeita redistribuição feita pelo duque, agora só lhe restara suas roupas encardidas e mal cheirosas e uma espessa e alva barba que lhe garantia um ar pesaroso que o ajudava na pratica da mendicância.

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No final de uma tarde de domingo, após as ultimas considerações feitas pelo taverneiro que regia o culto religioso, o ermitão foi surpreendido, ao passar pela frente do galpão onde era realizado a cerimonia, com o convite para sentar-se e assistir o culto juntamente com os demais. Timidamente o mendigo se aproximou, temendo uma reação negativa das pessoas a respeito do odor acre exalado por ele. Terminada a confraternização, o errante senhor apressou-se em se evadir do local, mas antes que obtivesse sucesso em seu intento fora paralisado por dois olhos juvenis, de um brilho violeta jamais vistos, que lhe embotou a noção do tempo.
– Essa princesa é sua filha – perguntou ele atônito com a beleza perolada da garotinha.
– Sim, é a minha ametista – respondeu a mãe com um meio sorriso, mas puxando a menina para trás de si na tentativa de tira-la da vista do estranho.
O mal cheiro que lhes ardia as vias nasais contribuía para que a mãe da menina tentasse se afastar o máximo que conseguisse do maltrapilho. Mas eis que o homem suplicou para que não fossem embora e esperassem só por alguns minutos. A moça inquieta fez uma carranca enquanto sua filhinha espiava o velho com curiosidade por entre as belas pernas de sua mae.
Com as mãos enegrecidas pela sujeira, o mendigo catou um pedaço de papel em um de seus bolsos e enegreceu-os enquanto fazia varias dobras, criando a figura de um lobo nos poucos minutos que solicitou à jovem, entregando-o à garotinha.
– Pegue Madelyn, não seja grosseira com o velhinho! – ordenou a moça.
Madelyn esticou um de seus róseos bracinhos, ainda escondida entre as pernas da mãe e espiando com um olho, e puxou o origami da mão do velho.
– Não se ofenda meu senhor, na verdade ela é assim até com familiares – falou envergonhada a jovem sem perceber que o homem já havia lhe dado as costas e se evadido do local.
Passadas algumas semanas, o sumiço de crianças pela região começara a assustar os moradores locais. As crianças costumavam brincar em algumas partes da floresta supervisionadas pelas avós geralmente, já que suas mães estavam sempre ocupadas com os afazeres da casa e da agricultura, enquanto seus pais eram ainda mais ausentes, em consequência do trabalho na madeireira. Às vezes as crianças iam brincar na casa dos colegas e terminavam passando dias lá, o que dificultou muito aos pais perceberem que seus filhos haviam realmente sumido por aquelas paragens.
Quando as famílias se deram conta de que as crianças haviam realmente sumido e que já haviam realizado buscas por todas as residências e possíveis lugares, onde pudessem estar brincando ou causando alguma perturbação, e não obtiveram sucesso, a preocupação e o desespero se intensificaram. O velho também não fora mais visto nem mesmo em seu decrépito casebre, localizado no meio das matas, e coberto por musgos e trepadeiras, dificultando sua localização. O lugar estava vazio, e uma lata velha de ervilhas de 1 litro estava enegrecida e seca sobre a grelha de um fogão de barro feito de forma improvisada.
Varios moradores fizeram buscas pela região da floresta acompanhadas de cães e munidas de machados e facas peixeira, suspeitando, no pior dos casos, estarem lidando com a ação de animais selvagens.

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Passados 17 dias de exaustivas buscas, quase todo o perímetro da ilha já havia sido verificado e demarcado através de números talhados nas cascas das arvores. Mas ao passo que os grupos, já exaustos, cogitavam desistir das buscas, dois cães se soltaram de suas guias e correram mata adentro. O dono dos cães correu na tentativa de alcança-los mas aos poucos os cães foram sumindo na escuridão da mata que se enunciava.
Naquele momento, os poucos grupos que insistiram continuar as buscas não só procuravam os garotos desaparecidos como também os cães que haviam se soltado e se perdido. Alguns minutos se passaram até que vários latidos foram ouvidos entre as matas, indicando evidentemente a direção em que os cães se encontravam. E chegando ao local, os homens, incluindo o dono dos cães, perceberam como os animais estavam eufóricos, latindo e cavando, como se tivessem escondido algum tesouro no local. Um fosso entre um aglomerado de arbustos espinhosos colocados circunstancialmente ali de forma apressada fora descoberto.
Para o desespero e horror daqueles que ali estavam, uma cena macabra e funesta revelava o mal fadado destino daquelas crianças. Recheado com dezenas de membros e cabeças humanas, algumas em plena decomposição e outras já descamadas, a cova improvisada estranhamente não exalava o fatídico odor da morte, mas milhares de vermes e insetos se regozijavam naquele farto banquete.
A comoção e a histeria se generalizaram e após semanas encontrando mais cadáveres ou partes destes, toda a comunidade passara a suspeitar do andarilho que havia aparentemente evaporado do tempo e do espaço, tendo sido avistado pela ultima vez ao entregar o lobo de pape à menina.
A comoção se transformou em raiva, e a sede por vingança e sangue contagiou as mães e familiares que haviam sido obrigados a enterrarem apenas partes de seus entes queridos. Alguém teria que pagar por todo aquele sofrimento. O tempo afastava cada vez mais a possibilidade de localizar o único responsável, segundo os camponeses, por aquele episódio grotesco na historia de Tornoluv, mas jamais apagaria da memoria daquelas pessoas o contagiante sorriso das crianças enquanto brincavam próximas ao rio.
A incerteza sobre a responsabilidade dos assassinatos pairou sobre a razão, já obscurecida, dos homens e o resultado não poderia ser outro. Dezenas de predadores silvestres foram caçados indiscriminadamente e estripados, tendo suas carcaças expostas e dependuradas no centro do vilarejo, oferecendo uma exposição bizarra e comovente.
A vida continuaria independente da realidade funesta a que se transformara Tornoluv.
– Não te preocupes com a desgraça, já que nem a própria desgraça revela-se mais dolorida que o medo dela – disse o taverneiro enquanto lia a bíblia e regia o culto daquele domingo como de costume.
Uma mae retirou-se do local bruscamente, pranteando e soluçando ao falar da filha, como havia feito quando fora obrigada a ver o que restara de sua tímida criança. O marido consternado, afagou-a e levou-a para casa.
O culto corria tranquilamente enquanto duas mulheres cochichavam próximas da entrada da igrejnha, instalada em uma saleta antes utilizada como deposito de uma variedade copiosa de suprimentos e lar de uma geração de insetos e ratazanas.
– Não te preocupes com o amanha quando ainda tens o hoje para experimentar… – continuava o velho pastor enquanto sua flha passava entre as fileiras de cadeiras recolhendo as ofertas de cada cristão ali presente.
– Deus nos abandonou aqui nesse lugar miserável, a ainda levou nossas crianças, única alegria desse mausoléu! – esbravejou um dos homens que ouviam as palavras do pastor quebrando o recém conquistado silencio necessário para se ouvir a voz do ancião a frente do culto. Foi convencido pelos amigos a acompanha-los para conversar na área externa da igreja.
Ao final do culto, as duas mulheres que confidenciavam, distraindo seus vizinhos das cadeiras ao lado, saíram juntas dando continuidade a conversa. A jovem Madelyn, agora apresentando os sinais da puberdade, acompanhava sua mãe e a amiga, mas não se envolvia no dialogo, com exceção das interrupções feitas para tratar de temas triviais dignos da idade.
No caminho, Madelyn fora repreendida por mais uma de suas interrupções, recebendo um olhar inflamado da mãe, mas uma resposta condescendente e com um tom doce na voz – sim minha filha, temos visita hoje, e por isso ainda prefiro manter a surpresa sobre o que teremos para o jantar.
– Morta de fome! Culto chato, demorado! – resmungou a ninfeta, sem interpor sua insatisfação à conversa dos adultos.
– Já estamos chegando – respondeu Mônica, a garbosa senhora, mãe da adolescente.
Poucos minutos depois, ao servir o costumeiro ensopado para sua filha, que sorvia o caldo do prato avidamente afim de mordiscar os finos ossos cozidos junto com todo o conteúdo do prato, Mônica falou – preciso ser cuidadosa com você minha filha, independente da sua idade. Voce deve lembrar do que eles fizeram aos seus irmãozinhos anos atrás não?
Madelyn assentiu, mantendo a concentração na tarefa de pressionar um globo ocular entre seus molares com cuidado para que ao estoura-lo o líquido não espirrasse na toalha colorida da mesa, confeccionada por Mônica, a partir de retalhos de várias peças de roupas infantis, enquanto vários trapos encardidos ficavam dispostos no chão da entrada de casa para se limpar a lama das solas dos sapatos ao chegar do centro do vilarejo onde ficava a igreja e o armazém.
Horas depois, após ter fechado todas as portas de casa, Monica foi até o quarto de Madelyn, beijou-lhe a testa e desejou-lhe boa noite.
– Boa noite mãe – respondeu ela, hipnotizada com o rodopiar do origami, que ganhara quando criança, preso á sua lamparina.

Um conto de Fernando Moura.

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